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RETRATO DE GUERRA

Bordado de esperança: bonecas de pano ilustram histórias de refugiados sírios

Venda é revertida para os refugiados que compartilharam a história e para as refugiadas que bordam as bonecas

Bordado de esperança: bonecas de pano ilustram histórias de refugiados sírios
Bonecas são vendidas ao redor do mundo (Foto: The ANA Collection)
(Foto: The ANA Collection)

Boneca Antoniette (Foto: The ANA Collection)

Atrás de uma boneca bordada à mão, há uma etiqueta com a seguinte história: “Eu sou Antoniette. Minha família e eu escapamos de nossa casa, que estava sob bombardeio. Eu tenho um irmão que vive em Los Angeles. Meu filho, Elias, sonha em pegar um avião pela primeira vez em sua vida para vê-lo”. A história não é ficção, ela é de uma família síria. Fazer uma boneca inspirada em histórias como esta foi apenas o jeito encontrado de dar um rosto e um nome para tantas famílias que estão sendo diariamente silenciadas pela guerra civil do país.

Chamada de The ANA Collection (“ana” significa “eu” em árabe), o projeto é da família Moussalli, formada por Dalal (mãe síria), Jean (pai libanês) e duas filhas, Marianne e Melina. A família que morava em Aleppo, na Síria, se mudou para Beirute, no Líbano, em 2003. Eles têm um ateliê na cidade, onde também ensinam arte para crianças. Todo ano, eles ensinam a fazer um objeto artístico. Mas foi em 2016, que resolveram fazer algo que tivesse relação com os refugiados. E foi assim que surgiu The ANA Collection.

Segundo dados da Agência das Nações Unidas para Refugiados, a maioria dos refugiados do mundo no ano passado era de origem síria, totalizando 5,5 milhões de refugiados sírios. O Líbano é o terceiro país que mais recebeu refugiados até o final de 2016, totalizando 1.012.969, perdendo apenas para a Turquia (1º) e o Paquistão (2°). No entanto, o Líbano é o país que mais recebeu refugiados em comparação com sua própria população, já que há um refugiado para cada seis pessoas.

(Foto: The ANA Collection)

Bordado é inspirado na história do refugiado (Foto: The ANA Collection)

Cada boneca leva o nome do refugiado que contou a história e atrás dela, há uma etiqueta com a história da família representada. “Muitas pessoas compram as bonecas para seus filhos. Então, os pais explicam à criança a história dessa família refugiada. Desta forma, a criança pode entender que os refugiados têm sonhos assim como ela e ainda pode entender mais sobre a guerra”, explica Marianne Moussalli, de 32 anos.

As histórias são coletadas por uma tia, que mora na Síria, e ajuda cerca de 800 famílias deslocadas no país. Algumas crianças refugiadas também desenham seus sonhos e suas esperanças. A tia então repassa as histórias e os desenhos para a família Moussalli. Marianne faz a ilustração e assim começa o processo de produção das bonecas.

Uma vez que o modelo é montado pela família Moussalli, mulheres refugiadas bordam as bonecas que vão ser vendidas. Elas fazem parte da ONG Bassmeh & Zeitouneh e moram no campo de refugiados Shatila, que fica num subúrbio ao sul do Líbano. Originalmente, o campo era para abrigar refugiados palestinos, mas com a guerra da Síria, o local está recebendo muitas pessoas do país. “O projeto é uma grande fonte de renda para estas mulheres, porque muitas bonecas estão sendo vendidas e elas recebem por cada uma que bordam. Assim, as mulheres se sentem empoderadas por serem refugiadas ajudando outros refugiados e por estarem trabalhando com as bonecas”, conta Marianne.

(Foto: The ANA Collection)

Marianne Moussalli é quem faz as ilustrações (Foto: The ANA Collection)

No começo do projeto eram cerca de dez refugiadas bordando. Hoje, cerca de cem mulheres já trabalharam nas bonecas. Aproximadamente 1,5 mil bonecas já foram vendidas ao redor do mundo, inclusive para o Brasil. Entre 70 e 80% do dinheiro vai para a família que compartilhou a história. “Algumas pessoas nos perguntam se uma família recebe mais que outra se sua boneca vender mais. Isso não acontece, porque a gente junta o dinheiro e divide entre todo o grupo que compartilhou sua história”, explica Marianne. O dinheiro é enviado para a tia e ela distribui entre os refugiados que participaram do projeto. O resto da renda cobre as despesas de produção, o que inclui a mão de obra das refugiadas que bordaram as bonecas. A loja online ainda está em construção, mas enquanto isso é possível fazer o pedido por e-mail. As bonecas custam entre US$ 25 e 75, sem o frete, que vai depender do país de entrega.

“Muitas pessoas compram a boneca porque acreditam que esta é uma forma de receber um refugiado. Eles compram uma boneca e dão um lar para ela”, diz Marianne. Enquanto as refugiadas bordam sonhos de famílias que têm esperança, as bonecas carregam as tantas vozes silenciadas pela guerra.

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