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Bulgária enfrenta problemas por declínio populacional

Mesmo assim, a Bulgária se opõe à entrada de refugiados no país

Bulgária enfrenta problemas por declínio populacional
A população da Bulgária diminuirá de 7,2 milhões para 5,2 milhões em 2050 (Foto: Pixabay)

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Se o inferno são os outros, então Ekaterina Svetulkova deveria estar no paraíso sentada sozinha em um banco de pedra em Banitsa, um vilarejo no noroeste da Bulgária, que ela chamou de lar durante 58 anos de seus 82 anos de vida, comendo sementes de girassol. Antes, os padeiros faziam pães deliciosos e atores famosos visitavam o povoado para fazer shows ou encenar peças teatrais, que os habitantes locais adoravam. Agora, Svetulkova suspira, “não há uma alma viva aqui”. Seus filhos moram em outros lugares e, com poucos amigos, não saberia a quem recorrer se tivesse um acidente. “É uma solidão assustadora”, disse.

Segundo a previsão da ONU, a população da Bulgária diminuirá de 7,2 milhões para 5,2 milhões em 2050, a maior redução populacional do mundo. Essa catástrofe demográfica, concentrada na região rural, é ainda mais grave no noroeste da Bulgária, a região mais pobre do país mais pobre da União Europeia (UE). Todos os anos, a cidade vizinha de Vratsa, um antigo centro industrial hoje decadente, tem uma redução demográfica de cerca de 2 mil pessoas. Os empregadores reclamam que não conseguem encontrar trabalhadores qualificados; por sua vez, os moradores dizem que não há trabalho. De acordo com Kalin Kamenov, prefeito de Vratsa, sem investimento e apoio do Estado, a cidade estará praticamente extinta em dez anos.

A Bulgária é o caso mais extremo do despovoamento que está devastando grande parte do Leste Europeu. A transição pós-comunista foi excepcionalmente traumática para os búlgaros. Na década de 1990, a taxa de fecundidade diminuiu e milhares de jovens emigraram para os países mais ricos e estáveis da Europa ocidental. Hoje, mais de 1 milhão de búlgaros vivem no exterior, sendo que cerca de 700 mil em países da UE. Os países da Europa Ocidental, como a Alemanha, têm populações idosas, mas a economia forte as protege das implicações fiscais de uma força de trabalho em declínio. Além disso, os países com populações em rápido envelhecimento adotaram uma política de acolhimento a imigrantes. Na Bulgária, o quinto país com o maior número de idosos da Europa, em torno de 60% dos aposentados estão abaixo da linha de pobreza do governo, com um salário de 321 leva (US$196) por mês. “Temos um problema de um país rico, sem a riqueza”, disse Georgi Angelov, economista do Open Society Institute em Sófia.

O governo não poupa esforços para conter o declínio demográfico ou para compensá-lo. Em Sófia, um dos poucos lugares na Bulgária com uma população em crescimento, o vice-primeiro-ministro responsável pela política demográfica, Valeri Simeonov, descreveu seus planos para suprir a escassez de mão de obra atraindo trabalhadores estrangeiros, não só de países vizinhos com minorias búlgaras, como a Ucrânia e a Moldávia. Centenas de estrangeiros já trabalham nas praias e nas estações de esqui nas férias. Mas o governo pretende criar postos de trabalho mais estáveis. Em oito meses, comentou Simeonov com orgulho, o progresso do governo foi maior do que o de todos os seus predecessores.

Simeonov, líder do partido de extrema-direita Frente Nacional para a Salvação da Bulgária, disse que a busca por trabalhadores estrangeiros não inclui os refugiados, que, segundo ele, são uns “aventureiros” que querem se aproveitar da política de assistência social dos países europeus. Graças a uma cerca construída na fronteira e vigiada por guardas, que não hesitam em agir com brutalidade, os refugiados que saíram da Turquia em 2015-16 foram impedidos de atravessar a Bulgária em seu caminho para a Grécia. O presidente Rumen Radev é enfático ao afirmar que a Bulgária não se transformará “no gueto de migrantes da Europa”.

Alguns acham que a posição hostil à acolhida aos refugiados, que poderiam suprir a escassez de mão de obra, é contraditória. Outros a veem como uma estratégia política de sobrevivência dos búlgaros diante da chegada dos migrantes, muitos deles qualificados. Simeonov, por outro lado, acha que a Bulgária já tem problemas suficientes de integração social e econômica com os “refugiados ciganos”, um eufemismo para se referir a uma minoria a quem chamou em 2014 de “antropoides arrogantes e violentos”.

Mas essa é uma atitude orgulhosa e irrealista do governo. Poucos refugiados gostariam de viver em um país pobre, com baixos salários e poucas perspectivas de futuro, quando outros países querem acolhê-los com melhores condições de vida.

Nessa ótica nacionalista o governo tem incentivado o retorno dos emigrantes, sobretudo dos jovens, para suprir as deficiências de uma população idosa e menos qualificada. A economia da Bulgária está se recuperando. A taxa de emprego é a maior dos últimos anos e as finanças públicas são sólidas, mas isso não a diferencia de seus vizinhos mais ricos. A corrupção endêmica, classificada segundo a Transparency International como a mais disseminada entre os países da UE, a burocracia, as escolas que oferecem um péssimo ensino e a atuação da máfia búlgara afastam os investidores internacionais. Porém, uma pesquisa de opinião realizada em dezembro revelou que a maioria dos entrevistados tinha uma visão otimista do país pela primeira vez em 20 anos. No entanto, no futuro, é provável que poucos ainda pensem assim.

Fontes:
The Economist - If hell is other people, Bulgaria is paradise

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