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MEIO AMBIENTE

A cadeia de contaminação na Amazônia

Biólogo colombiano estuda botos-cor-de-rosa e acaba descobrindo cadeia de contaminação na região

A cadeia de contaminação na Amazônia
No Brasil, estima-se que a pesca comercial mate 1,5 mil botos a cada ano (Foto: Wikimedia)

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Na Amazônia, o consumo de uma espécie de peixe, a pesca predatória de botos-cor-de-rosa, a exploração de ouro e problemas de saúde estão interligados. A região que abrange Brasil, Peru, Colômbia, Bolívia, Equador, Suriname, Venezuela, Guiana e Guiana Francesa, tem 7 milhões de quilômetros quadrados e cerca de 34 milhões de habitantes, sendo que apenas 3,5 milhões são de origem indígena. A mineração foi um dos responsáveis pelo crescimento da população nos últimos 20 anos.

O biólogo colombiano, Fernando Trujillo, chegou à Amazônia em busca de botos, seguindo o conselho do explorador francês Jacques Cousteau. “Tive a sorte de conhecer o comandante quando ele fez uma conferência na Colômbia na década de 1980. Ele me disse que não havia ninguém no país estudando os botos do Amazonas e perguntou: ‘por que você não vai?’“, disse à BBC Mundo. No entanto, a pesquisa sobre os botos acabou indo muito além dos animais sagrados dos indígenas.

Trujillo se mudou definitivamente para o pequeno povoado amazônico de Puerto Nariño, onde os indígenas começaram a chamá-lo de Omacha, nome que deu à instituição que fundou na Amazônia colombiana.

O consumo do peixe piracatinga

“Quando os grandes bagres começaram a ficar escassos na Amazônia, começamos a notar no Brasil a pesca de um peixe carniceiro chamado de piracatinga. Ninguém pescava a piracatinga na Colômbia, porque todo mundo sabe que ele come animais mortos – inclusive cadáveres humanos”, explica Trujillo.

Segundo o biólogo, um peixe chamado “el capaz” era muito consumido até o ano 2000, na Colômbia. No entanto, quando ele começou a sumir, os comerciantes passaram a vender piracatinga, dizendo ser “el capaz”.

Para pescar a piracatinga, usa-se o boto como isca. No Brasil, estima-se que a pesca comercial mate 1,5 mil botos a cada ano. “Com apenas um boto morto usado como isca, os pescadores conseguiam pescar 250 quilos de piracatinga, o que gerou crítica em vários países”.

O biólogo, então, começou a investigar o consumo de piracatinga. Como ele é um peixe carniceiro, ele come outros peixes mortos que podem estar contaminados pelo mercúrio (usado na exploração do ouro). O mercúrio se acumula e o organismo do peixe não consegue eliminá-lo.

“Para um quilo de ouro é necessário 1,32 quilo de mercúrio. Muitas vezes, entretanto, usa-se até 10 quilos de mercúrio para isolar um quilo de ouro. O desperdício de mercúrio é enorme”, conta Trujillo. A substância não é nada benéfica para o organismo de quem consome o peixe. “O mercúrio ataca o sistema nervoso central, fígado, rins, causa tremores e dores de cabeça agudas (…) Além disso, o mercúrio é uma substância que em altas concentrações pode ser teratogênica, ou seja, pode ocasionar malformações congênitas”, explica o biólogo.

Proibições e ameaças

Em 2014, o governo brasileiro proibiu a pesca do piracatinga por cinco anos. A caça aos botos então se intensificou em países como Peru, Bolívia e Colômbia. Em 2015, o governo colombiano proibiu o consumo do peixe e apenas em 2017, proibiu permanentemente sua captura e comercialização.

Trujillo sofreu ameaças após a proibição da pesca da piracatinga na Colômbia e chegou a usar um colete à prova de balas e proteção especial para voltar à região onde trabalhou por décadas.

Sustentabilidade na Amazônia

“Os cientistas ensinam que temos que estudar uma espécie e publicar artigos científicos, mas me dei conta que nossos políticos não leem artigos científicos (…) Estamos em um mundo complexo, e não podemos simplificar as coisas a partir do nosso próprio interesse. É preciso trabalhar com economistas, sociólogos, antropólogos, cientistas políticos, comunicadores, criando redes de trabalho para a busca de soluções para a Amazônia”, diz Trujillo.

Sua fundação, vários institutos e governos pesquisam alternativas econômicas para a Amazônia. A ideia é evitar o garimpo ilegal e a pesca predatória. “Estou comprometido a buscar alternativas econômicas para a região. Não estou interessado em acabar com a economia da área, mas sim fortalecê-la e torná-la sustentável”, completa Trujillo.

Fontes:
BBC-Como a luta para salvar botos revelou cadeia de contaminação e doenças na Amazônia

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