Início » Economia » Califórnia se prepara para a venda recreativa de maconha
VENDA LEGALIZADA

Califórnia se prepara para a venda recreativa de maconha

Vendas para usuários recreativos estão previstas para começarem neste mês

Califórnia se prepara para a venda recreativa de maconha
A maconha é legalizada para uso medicinal desde 1996 na Califórnia (Foto: Pexels)

Quando era criança, John Casali costumava ouvir os helicópteros que caçavam os produtores de maconha que migravam para um espaço remoto no norte da Califórnia conhecido como Triângulo Esmeralda. “Foi meio perturbador quando criança”, explica, cercado por grandes sequoias de sua pequena fazenda.

Aos 22 anos, em 1992, foi preso por oito anos por cultivar cannabis. Porém, com a mudança na Califórnia de como a maconha é vista perante a lei, o criminoso se tornou membro da câmara local de comércio, adquirindo uma licença para cultivar cannabis medicinal em sua fazenda. Além disso, Casali está em busca de uma licença do estado completa, que será adquirida em 2018.

O estado da Califórnia tem sido pioneiro quando o assunto é cannabis, sendo o primeiro a criminalizar a maconha em 1913 e o primeiro a legalizar o uso da droga medicinal em 1996. A Califórnia se tornou o mais recente estado dos EUA a legalizar completamente o uso recreativo de maconha por adultos, que poderá ser consumida a partir de janeiro de 2018.

A decisão completou a mudança cultural e política ao longo de toda a Costa Oeste dos Estados Unidos, onde o uso de maconha foi totalmente despenalizado, oferecendo a pessoas, como John Casali, uma oportunidade de negócio legítimo.

Novo mercado

Um potencial mercado de cannabis vale cerca de US$ 5 bilhões por ano, segundo Vivian Azer, analista do banco de investimentos Cowen, que está prestes a começar a operar na Califórnia. No entanto, muitos estão de olho no mercado de startups com capital de risco. Uma nova geração de empresas tem surgido para melhorar as condições dos usuários de maconha, substituindo cigarros e narguilés de vidro por vaporizadores discretos e de alta tecnologia, por exemplo.

Se a nova geração tem aproveitado o momento para investir em alternativas, os empreendedores mais antigos do ramo sentem que o estado arruinou as novas regras para o setor, deixando uma lacuna que pode permitir que grandes fazendas dominem os pequenos cultivadores, usando a experiência em procedimentos comerciais contra a inexperiência dos negócios não convencionais.

Com o regulamento final liberado apenas semanas antes do início da comercialização de cannabis, os produtores e operadores estão correndo contra o tempo para se preparar.

Substância ilegal

No âmbito nacional, a maconha continua sendo considerada uma droga no nível da heroína e o LSD. Isso significa que os produtores de cannabis da Califórnia não podem recorrer a instituições financeiras nacionais, sendo muitas vezes obrigados a lidar com o dinheiro por conta própria.

Aumentando ainda mais a incerteza, o procurador-geral dos Estados Unidos, Jeff Sessions, deixou claro que é contra a legalização do cannabis, afirmando que não acredita que a maconha tenha usos medicinais. Além disso, Sessions ameaçou ignorar um parágrafo da lei federal que impede que o governo nacional persiga usuários e produtores de maconha medicinal.

“Os estados podem aprovar as leis que eles escolherem, mas não tenho certeza de que seremos uma nação melhor e mais saudável se tivermos a venda de maconha em todos os supermercados na esquina”, afirmou Sessions, em uma ocasião em 2017.

Dessa forma, muitos dos produtores ainda estarão com medo quando a legalização se tornar realidade na Califórnia. “Só porque é legal com o estado, não significa que seja legal com o FBI”, disse Casali.

Se o governo federal invadir a fazenda de Casali, como fez em 1992, o produtor teria plantas suficientes para ficar preso o resto da vida. Esse risco ele conhece muito bem, pois durante os oito anos que permaneceu preso, sua mãe e padrasto morreram em um acidente de pesca.

Novos olhos

Com a maconha se preparando para entrar de vez no mercado californiano, muitos dos novos empreendedores acreditam que o primeiro passo é participar de um exercício de “reposicionamento de marca” para apresentar a cannabis com um apelo social parecido com o álcool.

“Eu acho que todos nós estamos fartos do usuário estereotipado”, destaca Evan Eneman, sócio-gerente da Casa Verde, uma empresa de capital de risco que investe em tecnologia de cannabis.

Em São Francisco, os outdoors azuis brilhantes citam os benefícios da cannabis para os trabalhadores da cidade com frases como: “Olá maconha, adeus ansiedade”, diz um anúncio da Eaze.com. Com um investimento de US$ 51,5 milhões, a Eaze quer ser uma espécie de “Uber da maconha”.

Novos impostos

Proprietário do dispensário da Green Cross, Kevin Reed está fechando o serviço de entrega que fundou, admitindo que não consegue mais competir com novatos como a Eaze.

Em uma recente reunião, Reed expressou alegria em relação à iminente legalização da maconha. Porém, o empreendedor está tentando ser otimista, pois as taxas e os impostos que vêm com a despenalização ameaçam dobrar os preços do produto.

Com uma combinação de vendas estatais e municipais com impostos especiais de consumo que podem exceder os 45%, alguns empreendedores acreditam que as operadoras legais não conseguirão competir com o tráfico ilegal da erva.

“Agora que nossa indústria está sendo forçada a lucrar, muita compaixão será absorvida em taxas e impostos”, diz Reed, que esteve na vanguarda da luta pela legalização da maconha no estado da Califórnia por dois anos.

John Casali, do norte da Califórnia, também criticou a possibilidade de novos impostos, afirmando que eles suplantariam os lucros da fazenda, que produz apenas uma pequena quantidade de cannabis.

Concorrência desleal

Uma mudança de última hora feita nos regulamentos da cannabis da Califórnia elevou o limite do número de licenças que um único operador pode ter. Isso deixou os pequenos agricultores preocupados com o fato de que as novas leis tornem-se ainda mais vulneráveis ​​à consolidação de grandes operações comerciais, criando fazendas comerciais em larga escala, cujo aumento na produção pode diminuir ainda mais os preços.

A mudança “desenrola o tapete vermelho para grandes corporações esmagarem o sustento de pequenos agricultores familiares, que devem ter uma chance justa de ter sucesso em um mercado regulamentado”, escreveu o senador da Califórnia Mike McGuire, em uma carta ao governo do estado da Califórnia.

Por outro lado, os funcionários defenderam os planos, afirmando que os regulamentos promoverão um setor de cannabis comercial mais equilibrado, com espaço para grandes e pequenas empresas.

Lori Ajax, chefe do Departamento de Controle de Cannabis, vai contra a ideia de que o novo regulamento vai alimentar ainda mais o mercado ilegal, com os produtores tentando evitar novos impostos. “As pessoas procuram poder ir a uma loja legal, comprar o produto, fazer perguntas, saber que é testado e seguro”, explicou Ajax, acrescentando que as taxas de licenciamento são impostas de acordo com o tamanho do negócio.

Regulamentação

A agência de Ajax é uma das três que regulamentam a cannabis – o Departamento de Saúde Pública está regulando os fabricantes, enquanto o Departamento de Alimentos e Agricultura (FDA, na sigla em inglês) está de olho nos cultivadores. Com o número de produtores de cannabis crescendo, fabricando e vendendo seu próprio produto, eles têm uma série de processos para concluir, o que ocorre depois de terem passado por um processo completamente separado para garantir licenças ao nível do condado.

“Nós não esperamos que todos tenham uma licença estadual em 1º de janeiro”, diz Ajax. Segundo ela, os produtores terão uma chance justa de obter a licença. “Se quisermos minimizar o mercado ilegal, acho que devemos dar tempo para a transição das pessoas”, diz Ajax.

Os novos regulamentos são minuciosos. Em um sistema de rastreamento, o estado da Califórnia pretende explicar o paradeiro do produto de cada planta de cannabis – desde a semente sendo plantada até todo o caminho para uma pequena quantidade de erva seca em um brownie – tudo em tempo real.

“Esses encargos são maiores do que eu já vi em qualquer setor. A maioria das pequenas empresas tem problemas para pagar a folha salarial e impostos”, diz Ben Curren, diretor executivo da Green Bits, um sistema de software que visa simplificar a conformidade para os negócios de cannabis.

Mesmo assim, Lori Ajax está otimista de que a regulamentação promoverá uma economia comercial de cannabis, semelhante a que ocorre na indústria de álcool da Califórnia – a qual ela já supervisionou anteriormente -, onde o consumo é conduzido pela marca.

Os consumidores “vão querer saber sobre quem é o cultivador. Eu acho que você vai encontrar um mercado de consumidores experientes, que vai querer ir a essas lojas”, destaca Ajax.

Fontes:
Financial Times - Californian growers and retailers brace for cannabis competition

Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião deste site

1 Opinião

  1. Daniela Villa disse:

    Até hoje nunca vi um maconheiro bem-sucedido na vida.
    O usuário vai dizer:
    Ahh!, mas tem tantos artistas, universitários e a elite toda…
    Eu respondo: não foi a droga que deu o que eles tem.

Sua Opinião

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados *