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Camboja reprime sistematicamente dissidentes

Governo do Camboja intensifica a repressão à dissidência política e à liberdade de imprensa antes das eleições gerais, previstas para julho

Camboja reprime sistematicamente dissidentes
Os ativistas ambientais que denunciam os danos causados ao meio ambiente também são alvo de perseguições (Foto: AP)

“A abordagem lógica”, disse Naly Pilorge, da LICADHO, uma organização sem fins lucrativos de defesa dos direitos humanos, “é continuar protestando”. Naly referia-se às medidas adotadas em agosto pelo primeiro-ministro Hun Sen, há 32 anos no poder e que pretende continuar no cargo por mais dez anos, de repressão a todas as formas de dissidência política. Além da proibição da atividade política do principal partido da oposição, o primeiro-ministro está perseguindo sindicatos, ONGs, ativistas ambientais e quem quer que critique o governo.

A escala da repressão é sem precedentes, observou Ou Virak, um analista político que trabalhou no Cambodian Centre for Human Rights, que o governo ameaçou fechar há pouco tempo. As reuniões com mais de cinco pessoas são proibidas. Segundo uma ordem do Ministério do Interior divulgada em outubro, todas as entidades não governamentais e associações precisam notificar as autoridades locais antes de organizar qualquer tipo de atividade.

A lei que regulamenta o funcionamento dos sindicatos, aprovada há cerca de 20 meses, praticamente impossibilita o registro de empresas independentes no Camboja. Porém, sem registro, os sindicatos não podem defender os interesses de seus membros em disputas no Conselho de Arbitragem.

Sar Mora da Cambodian Food and Service Workers’ Federation, uma federação com mais de 4 mil membros, descreveu outras formas de intimidação. Nas reuniões, os funcionários do governo tiram fotografias e exigem cópias da agenda. A polícia invade os escritórios dos sindicatos quando veem muitas lambretas estacionadas na porta. “Às vezes, convocamos uma reunião, mas as pessoas têm medo de comparecer”, acrescentou.

Os ativistas ambientais que denunciam os danos causados ao meio ambiente também são alvo de perseguições. De 2001 a 2014, a exploração ilegal de madeira, a mineração de ouro e a derrubada de árvores para plantação de seringueiras provocaram um desflorestamento no Camboja sem paralelo com outros países. Mas o governo reprime com brutalidade qualquer crítica dos ambientalistas. Dois membros da ONG Mother Nature foram presos em setembro depois de filmarem navios suspeitos de envolvimento na extração ilegal de areia.

Nos últimos quatro meses, em uma série de medidas contra a liberdade de imprensa, as autoridades do Camboja fecharam 19 estações de rádio independentes. A decisão afetou todas as emissoras que tinham na programação informações das rádios Free Asia e Voice of America, ambas financiadas pelos EUA. O governo também fechou o Cambodia Daily, um dos principais jornais independentes do país, com a justificativa de não pagamento de uma suposta dívida fiscal. Muitos jornalistas fugiram; outros bebem cerveja barata nos bares de Phnom Penh à espera de um novo emprego. Dois jornalistas, Uon Chhin e Yeang Sothearin, foram condenados a 15 anos de prisão por fornecer informações que “prejudicaram a defesa nacional”.

Diversas organizações e pessoas perseguidas ​​pelo governo têm algum tipo de relação com os EUA. Em protesto contra a repressão das liberdades civis e políticas no Camboja, em 6 de dezembro os EUA impuseram restrições a vistos para qualquer pessoa considerada “prejudicial à democracia cambojana”.

Hun Sen não tem muitos motivos para se preocupar com seu futuro político. A economia do país é próspera, a arrecadação fiscal está aumentando e o apoio da China lhe garante estabilidade diplomática e financeira. As empresas chinesas, a maior fonte de recursos externos, investiram US$12 bilhões no país até o final de 2016. Seu partido é o favorito para vencer as eleições em julho.

No entanto, em longo prazo, Alex González-Davidson da Mother Nature tem uma visão mais otimista. A adesão ao seu “exército de opositores ao regime” aumentou um terço após as prisões dos que filmaram os navios transportando areia. Os cambojanos não têm meios para protestar contra o governo, porém isso não significa que sejam cegos ou tolerantes com suas falhas.

Fontes:
The Economist-Cambodia is systematically squashing all forms of dissent

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