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ENCONTRO EM MONTREAL

Canadá conclui cúpula de ministras do Exterior

Ministras do Exterior de 17 países se encontraram em Montreal para discutir o fortalecimento do papel das mulheres na diplomacia global

Canadá conclui cúpula de ministras do Exterior
Mulheres têm papel crucial na promoção da paz e economia global (Foto: Josie Desmarais)

Quando os direitos das mulheres são respeitados, suas vozes são ouvidas e elas têm liberdade para exercer liderança, as comunidades se tornam mais prósperas, pacíficas, seguras e unidas.

Este foi o pensamento que levou o Canadá a sediar, no último fim de semana, a primeira Cúpula de Ministras do Exterior (WFMM, na sigla em inglês), uma iniciativa que reuniu mulheres que comandam a diplomacia em diferentes países.

Atualmente, há no mundo 30 ministras do Exterior. Deste total, 17 estiveram presentes no encontro, que ocorreu em Montreal, entre os dias 21 e 22. As participantes vinham de países como Indonésia, Japão, África do Sul, Quênia, Gana, Costa Rica e Noruega, entre outros.

O encontro foi liderado pela ministra das Relações Exteriores canadense Chrystia Freeland, e contou com a participação da alta representante da Comissão Europeia, Federica Mogherini. Na cúpula, Freeland reiterou o comprometimento do Canadá no avanço do papel das mulheres na diplomacia.

Ao longo de dois dias, as ministras participantes discutiram pontos da agenda Mulheres, Paz e Segurança (WPS, na sigla em inglês), uma iniciativa que tem como base a resolução 1325, adotada no ano 2000, pelo Conselho de Segurança da ONU. A resolução reconhece as mulheres como agentes de mudança comprovadas e exige a participação delas em processos de construção de paz, proteção das violações dos direitos humanos, e a promoção do acesso à justiça e aos serviços para enfrentar a discriminação.

Um dos temas levantados por Mogherini foram os obstáculos que travam a educação e ascensão feminina. “Algumas de nós somos as primeiras mulheres a terem um diploma em nossa família. Muitas de nós somos a primeira ministra do Exterior da história de nosso país”, disse Mogherini.

O encontro em Montreal foi exaltado em um artigo da revista Foreign Policy, que classificou a cúpula como “historicamente sem precedentes” na discussão do poder feminino no cenário global. No entanto, o artigo ressalta que conquistas simbólicas não são suficientes e que é necessário garantir que o encontro resulte em avanços na chamada política externa feminista.

O conceito de uma agenda feminina global ganhou popularidade em 2014, pela ministra do Exterior sueca Margot Wallstrom, que estava presente na cúpula. Wallstrom descreve a política externa feminista como o enfrentamento “da subordinação sistemática e global das mulheres”.

Ao final da cúpula, Freeland anunciou mais de US$ 25 milhões em financiamento para fortalecer a participação ativa das mulheres em processos de paz; apoiar investigações de crimes sexuais e de gênero; construir a paz sustentável e inclusiva; e promover o empoderamento das mulheres e a igualdade de gênero em países em desenvolvimento.

“Nos últimos dois dias, mulheres ministras do Exterior de todo o mundo reuniram-se em Montreal para discutir questões globais urgentes. As mulheres são agentes poderosos para a mudança e para a paz. Estou muito feliz por ter dado as boas-vindas às minhas colegas no Canadá, e aguardo com expectativa a nossa colaboração contínua nos próximos dias e meses”, disse a ministra canadense, ao encerramento da cúpula.

Agenda feminista enfrenta resistência

A promoção da agenda feminista enfrenta resistência ao redor do mundo, incluindo no Canadá, país que tem uma posição de vanguarda no tema – em 2015, o primeiro-ministro canadense, o liberal Justin Trudeau, apostou na igualdade de gênero ao compor seu governo com 15 ministérios comandados por homens e 15 por mulheres. Muitos políticos canadenses se queixam da dificuldade em aprovar projetos que contêm o termo “feminista”, incluindo Trudeu, um autoproclamado feminista.

A promoção dos direitos das mulheres também encontra resistência em outros países, como no Brasil. Em maio deste ano, o país foi apontado no relatório “Mulheres, Empresas e o Direito 2018”, do Banco Mundial, como um dos que necessitam aprimorar a inclusão social e econômica das mulheres.

O documento lembra que as mulheres brasileiras recebem salários 25% menores e representam apenas 37,8% dos cargos de gerencia e 10,5% da representação na Câmara. A instituição também alertou para a questão da violência. “Embora o Brasil tenha um bom arcabouço jurídico contra a violência doméstica devido à promulgação da Lei Maria da Penha em 2006, ainda existem lacunas na proteção legal de mulheres e meninas contra diferentes tipos de violência”, diz o texto.

No mês passado, o evento “Elas por Elas“, realizado pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), discutiu as questões que travam a ascensão das mulheres na política e na sociedade. Participaram do encontro mulheres que exercem cargos de autoridade no Poder Judiciário, executivas do setor privado e nomes proeminentes das artes e do entretenimento.

No encontro a ministra Rosa Weber, do Supremo Tribunal Federal (STF) chamou atenção para a sub-representação feminina na política brasileira. Ela lembrou que as mulheres compõem a maior parte do eleitorado e têm um papel decisivo no pleito deste ano. O Brasil tem 147,3 milhões de eleitores, sendo 73,3 milhões mulheres e 69,9 milhões homens. No entanto, apenas 30,7% dos registros de candidaturas para estas eleições são de mulheres. “Há uma desproporcionalidade entre o número de mulheres candidatas e o número de mulheres politicamente ativas aptas a votar e serem votadas”. Na ocasião, a ministra convocou as eleitoras brasileiras  a exercerem o direito do voto para promover a democracia.

“Façamos, mulheres, ao exercer todas nós esse direito essencial da cidadania, que é o voto, a diferença para o fortalecimento do Estado democrático de direito, conquista diária e permanente de todos nós, com a consciência de que em nossas mãos está o destino do país, na construção de uma sociedade igualitária, justa e inclusiva”, disse Weber.

Eleitorado feminino se movimenta contra Bolsonaro

Nos últimos dias, um movimento liderado por eleitoras brasileiras vem ganhando destaque no Brasil e no exterior. Intitulado “Mulheres Unidas Contra Bolsonaro”, o movimento convoca eleitoras a se unirem para impedir a eleição de Jair Bolsonaro, candidato ao Planalto pelo PSL cuja agenda é considerada um retrocesso para o direitos das mulheres, bem como dos negros e gays.

Entre as críticas a Bolsonaro está o fato de ele ser contra a criação de iniciativas do Estado para garantir a igualdade salarial entre homens e mulheres, o que, segundo ele, deve ser um assunto da Justiça. Além disso, ele é criticado por ter comparado estupro a merecimento, em um episódio envolvendo uma discussão com a deputada Maria do Rosário, e por declarar que mulheres ganham menos porque engravidam.

O movimento já reúne mais de 2 milhões mulheres e o fenômeno ganhou destaque em reportagens de veículos como BBCBloomberg e Guardian. Artistas nacionais e internacionais, como a atriz Madeline Brewer, da série Handmaid’s Tale, vêm aderindo à hashtag #EleNão, criada pelo movimento.

 

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