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MEDO CONSTANTE

‘Charlie Hebdo’: sucesso nas vendas não cura trauma do ataque

Sobreviventes do jornal satírico sofrem com traumas do ataque que matou 12 membros da equipe em janeiro e com constantes ameaças de morte

‘Charlie Hebdo’: sucesso nas vendas não cura trauma do ataque
‘As pessoas se sentem autorizadas a nos enviar ameaças de morte’, diz Sourisseau (Foto: Flickr)

Há nove meses, a sede do jornal satírico francês Charlie Hebdo em Paris, França, foi alvo de um ataque de dois extremistas islâmicos que matou 12 membros da equipe. O ato chocou e uniu a França e a comunidade internacional em solidariedade ao jornal, além de ser repudiado por islâmicos em vários países do mundo, incluindo Brasil.

Após o imenso apoio mundial, que veio sob o slogan Je Suis Charlie (Eu sou Charlie, em francês), o jornal conseguiu superar o ocorrido, e as vendas nunca estiveram tão boas quanto agora. O jornal, que tinha uma tiragem de 30 mil exemplares por mês, hoje conta com 180 mil assinantes e outros 100 mil exemplares são distribuídos nas bancas. Hospedado na sede do Libération logo após o ataque, o Charlie Hebdo acaba de se mudar para uma nova sede.

Mas a volta por cima do jornal não é acompanhada da recuperação psicológica dos integrantes que sobreviveram ao ataque. Traumatizados eles sofrem com conflitos internos e depressão, além do constante temor de um novo ataque. Esses sentimentos negativos são alimentados por ameaças de morte de várias partes do mundo que são constantemente enviadas aos membros da equipe, somente no mês passado foram nove.

Em entrevista ao Financial Times, o atual editor do Charlie Hebdo, Laurent Sourisseau, descreveu a sensação de angústia entre os membros da equipe. “As pessoas se sentem autorizadas a nos enviar ameaças de morte, até mesmo por charges que não são de figuras religiosas. Fomos alvo de processo, de incêndio criminoso em 2011 e de tiros em 2015. Me pergunto o que  virá a seguir”.

Após levar um tiro no braço direito no ataque de janeiro e presenciar a execução de seus colegas de equipe, Sourisseau não consegue superar o trauma e teme pelo futuro por conta do histórico do jornal e das ameaças de morte que recebe. Prova disso é que chegou para entrevista na sede do ‘FT’ acompanhado de quatro guarda-costas e um policial à paisana, que chegou mais cedo ao endereço.

O trauma somado aos atritos internos sobre o funcionamento do jornal está afastando alguns dos sobreviventes do ataque. O cartunista Rénald Luzier, que desenhou o profeta Maomé chorando na capa da edição que circulou no dia seguinte ao ataque, deixou a equipe alegando fadiga.

Também deixará a equipe Patrick Pelloux, colunista que ligou do próprio celular para informar o presidente François Hollande sobre o ataque. Ele deixará o jornal no final deste ano. “Somos sobreviventes, sim e não. Uma parte de nós se foi com o ataque”, disse Pelloux em uma recente entrevista dada à rádio francesa Web7radio.

Humor politicamente incorreto fez jornal perder apoio

Para piorar a situação, alguns chargistas e acadêmicos vem reduzindo o apoio dado à liberdade de expressão do jornal, famoso por publicar charges e sátiras de conteúdo politicamente incorreto ao extremo.

A última polêmica foi no mês passado, com a charge da foto do menino Aylan, a criança de quatro anos que morreu afogada quando migrava para a Europa e teve a foto divulgada por vários jornais do mundo. Na charge, o corpo menino afogado na praia aparecia com uma tabela de cardápio do McDonalds ao fundo.

Segundo Sourisseau, o objetivo era retratar a hipocrisia da forma como os europeus tratam a crise de refugiados, além do desencanto dos que coneguem entrar na Europa. A crítica, no entanto, foi mal interpretada, e o jornal recebeu uma série de ameaças de morte.

Tudo isso lança uma dúvida: será que o Charlie Hebdo conseguirá sobreviver? “Nós continuamos fazendo o que sempre fizemos, mas nos questionamos onde isso vai dar. Poderemos publicar o Charlie Hebdo daqui a 20 anos? O tipo de humor que ele faz será aceito? Parace bem difícil”, diz Sourisseau.

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