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DISTOPIA DIGITAL

China quer usar rastros digitais para controlar a população

Novas ferramentas de controle virtual ameaçam a liberdade dos cidadãos chineses

China quer usar rastros digitais para controlar a população
Governo chinês preocupa-se com a instabilidade de uma sociedade desconfiada (Foto: Wikimedia)

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Com o colapso do comunismo na União Soviética há 25 anos, na visão de inúmeras pessoas o Partido Comunista da China caminhava inexoravelmente para o fim da centralização política. Mas em 1989, no episódio que ficou conhecido como o Massacre da Praça da Paz Celestial, os tanques e os soldados do governo encurralaram os manifestantes que reivindicavam mais liberdade política em Pequim, provocando um grande número de mortes. O poder repressor do partido parecia mais uma vez inabalável.

No entanto, o boom do crescimento da China iniciado um ano após o colapso soviético, afastou ainda mais o partido de seus fundamentos ideológicos. Em 1998, o presidente Bill Clinton disse que previa uma inevitável trajetória democrática para o país. E comentou com o presidente Jiang Zemin, que a China estava “do lado errado da história”.

Porém, enquanto o Ocidente sofreu com as consequências da crise financeira mundial e do fracasso da tentativa de promover a democracia no Oriente Médio, o Partido Comunista da China permaneceu firme em seu monopólio de poder. Sob a liderança do presidente Xi Jinping, o partido parece mais fortalecido do que há anos. Os cidadãos chineses usufruem de uma liberdade jamais sonhada há uma geração, com empreendimentos privados, viagens ao exterior e escolha de estilo de vida. Com o uso de técnicas ocidentais de relações públicas, o partido incute nos cidadãos comuns a ideia que, agora, graças ao consumo de massa a vida está muito agradável.

Mas apesar da prosperidade econômica e da maior liberdade no país, a situação política do partido é profundamente instável. Nos últimos anos foi preciso exercer uma repressão implacável aos dissidentes e seus defensores. Os ativistas em Hong Kong que desafiam a autoridade do partido estão incitando as minorias inquietas. O crescimento econômico rápido criou uma enorme classe média, que embora tenha oportunidade de enriquecer, desconfia de tudo que a cerca. Dos funcionários do governo que abusam da autoridade na questão dos direitos de propriedade, do sistema de saúde pública corrupto, das empresas que rotineiramente vendem produtos de má qualidade, de um sistema educacional em que as fraudes são a norma e de pessoas cujos antecedentes criminais e financeiros são impossíveis de avaliar.

O partido preocupa-se com a instabilidade de uma sociedade tão desconfiada. Portanto, está fazendo uma experiência inusitada para solucionar o problema. O governo criou um “sistema de crédito social”, ou seja, a ideia de aproveitar as informações digitais armazenadas para incentivar desde empresas com atividades duvidosas a pessoas que sonegam impostos e multas, a serem mais honestas.

É uma ideia interessante. Mas encobre uma política de “gestão social” do governo, isto é, do controle do comportamento das pessoas. O governo já tenta controlar a frequência das visitas dos chineses aos pais. Até que ponto as autoridades podem estender essa fiscalização a outras áreas? A avaliação dos cidadãos está associada ao número do documento de identidade. Muitos temem que as críticas resultem em sanções, como a negativa de um empréstimo bancário ou a permissão para comprar um bilhete de trem, mesmo por motivos políticos. Eles têm razão em se preocuparem. O governo decretou este ano que o sistema registraria delitos com uma definição vaga, como “iniciativas para perturbar a ordem social”.

Esse controle do comportamento social pode resultar em uma distopia digital. As autoridades do governo têm planos de criar um sistema em 2020 que “permitirá que as pessoas confiáveis circulem em liberdade em qualquer lugar, mas para as que não merecem confiança será difícil dar um único passo”.

Por enquanto, esse sistema está sendo testado em cerca de 30 regiões. O governo não decidiu ainda até que ponto irá estendê-lo. Há muitas discussões a respeito da adoção de medidas para impedir que os cidadãos manipulem suas avaliações. Além disso, as tentativas de usar o sistema para fortalecer o partido estão enfrentando oposição.

Fontes:
The Economist-China’s digital dictatorship

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