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Cinecittà tenta recapturar glórias do passado

Lendário estúdio cinematográfico romano celebra seu jubileu de diamante lutando contra o declínio do cinema italiano, e buscando formas de atrair produtores estrangeiros

Cinecittà tenta recapturar glórias do passado
Elizabeth Taylor e Richard Burton durante as filmagens de 'Cleopatra', em 1963 (Keystone-France)

O diretor francês Jean Renoir e a atriz Anna Magnani no set de 'A Comédia e a Vida', em maio de 1952 (Mickey Knox/AP )

Alessandro De Angelis representa a quarta geração de sua família a fazer adereços no ateliê de escultura do lendário estúdio cinematográfico da Cinecittà, em Roma, e ele espera que sua filha de 16 anos siga sua profissão. O nome de De Angelis é sinônimo de qualidade em toda o setor cinematográfico, mas ele teme que a feroz concorrência internacional do dinheiro das produções hollywoodianas, o lento declínio do cinema italiano, e os avanços na tecnologia acabarão deixando artesãos como ele desempregados. Atualmente, a família já não pode mais depender apenas de filmes para se manter – De Angelis compensa sua renda fazendo cópias de estátuas para museus. “Quase ninguém mais bate na nossa porta para aprender o ofício”, diz ele.

Estúdios da Cinecittà em 1953: a estrela Ingrid Bergman recebe os últimos retoques na maquiagem antes de uma cena (ANSA/Corbis)

O período difícil de De Angelis reflete as dificuldades da Cinecittà, que comemorou seu 75º aniversário no último sábado, 28, e é hoje apenas uma sombra de seu passado glamouroso. Benito Mussolini construiu o maior estúdio cinematográfico da Europa na década de 1930 em busca de uma máquina de propaganda fascista em celuloide. O estúdio levou 457 dias para ficar pronto – muito menos tempo do que o gasto corrigindo muitos buracos na Roma do século XXI – e nos seis anos após a sua inauguração em 28 de abril de 1937, sob o lema Il cinema è l’arma piu forte (“O Cinema é a arma mais forte “), produziu cerca de 300 filmes. O apogeu do estúdio veio durante as décadas de 1950 e durante o boom econômico da Itália nos anos 1960, quando Federico Fellini e Marcello Mastroianni realizaram obras-primas como La Dolce Vita e . Os incentivos fiscais também atraíram os produtores de Hollywood para filmes épicos como Ben-Hur e filmes românticos como A Princesa e o Plebeu.

Henry Fonda (esq.) fotografa Audrey Hepburn e Mel Ferrer, no set de 'Guerra e Paz', em agosto de 1955 (Mario Torrisi/AP)

Atores e diretores italianos dos dias atuais dizem que é tudo parte de um passado distante. A produção cinematográfica italiana começou a declinar na década de 1980, antes de entrar em queda livre nos anos 1990, em parte – acreditam profissionais do ramo – devido à monopolização da produção pelo império midiático do ex-primeiro-ministro Silvio Berlusconi, pelo Ministério da Cultura e pela emissora estatal RAI. Para piorar a situação, produções estrangeiras também começaram a abandonar os estúdios da Cinecittà, e buscar opções mais acessíveis na Europa Oriental. Em 1997, a Cinecittà estava à beira da falência, e escapou apenas quando o governo vendeu a propriedade a investidores privados, incluindo o dono da empresa de calçados de luxo Tod, Diego Della Valle. Centenas de filmes eram produzidos anualmente nos seus estúdios, mas no ano passado, apenas oito filmes italianos e seis séries de televisão foram filmadas lá.

Charlton Heston e seu filho Fraser cumprimentam o diretor William Wyler no set do premiado 'Ben-Hur' (Bettmann/Corbis)

“A Cinecittà deveria se chamar Telecittà. Era algo mítico, mas agora só filmam programas de TV”, diz Laura Morante, uma das atrizes mais admiradas da Itália. Morante, que tem cerca de 90 filmes e programas de televisão no currículo, acredita que políticos italianos deixaram o cinema e a “cultura em geral” de lado nos últimos anos, e essa teria sido uma das principais razões para a queda do estúdio. Por exemplo, ela lutou por mais de sete anos para encontrar investidores italianos para sua estreia como diretora, uma comédia romântica chamada Ciliegine (“Pequenas Cerejas”), mas no final, foi forçada a fazer o filme no exterior. “Ninguém me ligou de volta. Eu acho que o meu projeto ficou preso na burocracia. No entanto, os franceses me pediram para fazê-lo”, diz ela, que incentiva os talentos frustrados a seguirem seu exemplo: “Vão para o exterior. É muito difícil aqui”.

O cineasta italiano Roberto Rosselini conversa com a roteirista indiana Sonali Das Gupta durante as filmagens de 'De Crápula a Herói', em julho de 1959 (Mike Stern Jr/AP)

Evidências de abandono cultural por parte do governo italiano não são algo muito difícil de encontrar. Nos últimos anos, o governo cortou drasticamente o financiamento para as artes, na tentativa de controlar a quarta maior dívida do planeta – para a ira de diretores, atores, artistas e do público. Sandro Bondi, o antigo ministro da Cultura, que em 2010 acusou publicamente o cineasta norte-americano Quentin Tarantino, presidente do júri no Festival de Cinema de Veneza naquele ano, de ser a personificação “de uma cultura elitista, relativista e esnobe”; se indignou no ano passado, quando o governo cortou o financiamento para o arquivo estatal da Cinecittà de 29 milhões para 7,5 milhões de euros, ameaçando o futuro das instalações. “O financiamento é absolutamente insuficiente”, declarou Bondi na ocasião. O Museu de Arte Contemporânea Casoria, em Nápoles, por sua vez, pôs em prática um protesto bastante dramático para os cortes neste mês, e passou a queimar suas obras. O museu, que não depende de financiamento público, vai queimar três pinturas por semana até que sua coleção inteira esteja em cinzas – “ou até que as autoridades nos interrompam”, diz Antonio Manfredi, diretor do museu. “Para um país que deveria ser a vanguarda das artes, a atenção que a Itália dá à cultura é absolutamente inadequada”, diz ele.

Rock Hudson e Sandra Dee no set de 'Quando Setembro Vier', filmado na Cinecittà no outono de 1960 (AP)

Sem surpresa, o pessimismo sobre o futuro do cinema italiano é abundante. Enzo Monteleone, que escreveu o roteiro para Mediterraneo, filme premiado com o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1991, diz que o país ainda produz cerca de “20 bons filmes” por ano, mas acredita que o estado geral da indústria é “trágico”. Ele reclama que a dominação do setor cinematográfico pela tríade dos meios de comunicação do império de Berlusconi, da emissora estatal RAI e do Ministério da Cultura, impediu cineastas independentes de conseguirem financiamento e os jovens diretores de desenvolverem seus talentos. O governo precisa seguir o exemplo da França e ter um interesse sério no financiamento de filmes, diz ele. “Na Europa, você não pode depender apenas do setor privado. Aqui, o cinema é considerado uma arte, não apenas entretenimento”.

John Wayne (esq.) e Kirk Douglas se divertem durante as filmagens de 'À Sombra de um Gigante', em janeiro de 1965 (Keystone-France)

Existem algumas luzes no fim dos túneis, no entanto. Os italianos ainda estão entre os melhores do mundo em cenografia e construção, uma razão pela qual a HBO decidiu filmar sua série Roma, na Cinecittà, em meados da década passada. Marco Valerio Pugini, co-proprietário da Panorama Films, que ajudou a produzir Roma, diz que também houve um lado positivo da crise econômica – no ano passado, o governo italiano decidiu tornar permanente a redução de impostos de três anos para empresas estrangeiras e domésticas que produzissem filmes na Itália. Pugini diz esperar que tais incentivos tragam de volta as produções estrangeiras que partiram para locais mais baratos na Europa Oriental. “Temos os mesmos custos que tínhamos cinco ou 10 anos atrás. Mas os custos estão subindo lentamente no leste. Haverá sempre algum lugar mais barato, mas temos um grande conjunto de talentos”, diz ele.

O cineasta Federico Fellini (no centro) e o elenco de 'Amarcord', nos estúdios da Cinecittà, em julho de 1973 (AP)

A Cinecittà também tenta ressuscitar o interesse no estúdio através da construção de um parque temático de € 500 milhões chamado World Cinecittà, em uma propriedade de 370 hectares que possui na costa do Mediterrâneo. O parque, que será parcialmente aberto no final de 2013, está sendo projetado pelo diretor de arte Dante Ferretti, três vezes premiado com o Oscar, e contará com atrações baseadas em mega-produções hollywoodianas produzidas na Cinecittà, como Ben-Hur. O estúdio também está ponderando um investimento de € 90 milhões para construir um hotel, escritórios, e um novo estúdio no seu lote em Roma. O diretor-geral da Cinecittà, Giuseppe Basso, acredita que o estúdio está pronto para um retorno, impulsionado pelo talento italiano, o fascínio das filmagens em Roma, e os novos serviços oferecidos pela Cinecittà. No mínimo, diz ele, os dias sombrios do estúdio ficarão para trás. “Se você consegue sobreviver neste setor por 75 anos, isso é motivo para celebrar”.

Fontes:
TIME Magazine - On Its 75th Anniversary, Italy's Cinecittà Studio Attempts to Recapture Its Former Glory

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1 Opinião

  1. Helio Rosa disse:

    O TEMPÓ PASSA – Quando a Europa nos brindava com boas peliculas – História simples – infelizmente os grandes estudios do EEU, nos apresentava as grandes produções – responsáveis pelo deblaque com seus fracassos – e afastamentos do públicos dos cinemas, que volte novamente os filmes Italianos, franceses, alemãos para nossa satisfação.

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