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A CRISE OCULTA

Como as doenças crônicas prejudicam os refugiados

Difícil acesso a tratamentos para doenças crônicas afeta refugiados e impede o início de uma nova vida no país acolhedor

Como as doenças crônicas prejudicam os refugiados
O acolhimento deve contemplar todas as necessidades de um refugiado (Foto: UNHCR)

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Em uma noite fria de janeiro, uma família de dez refugiados sírios senta em silêncio em um apartamento de um quarto em Istambul, na Turquia, perto da Praça Taksim. Sem qualquer móvel no apartamento, os poucos alimentos da família apodrecem dentro de uma caixa, em um canto da sala.

Um dos integrantes da família, Mohammed, de 18 anos, se balança para frente e para trás, em um movimento contínuo e repetitivo. Sua avó, Fatimah, diz que ele parou de falar após o trauma da travessia da família de Aleppo, na Síria, para Istambul, onde hoje vivem como refugiados. No percurso, Mohammed foi atingido por tiros e viu amigos serem mortos. Fatimah, por sua vez, não consegue mais andar: complicações decorrentes do diabetes incapacitaram os movimentos das pernas e problemas no coração causam falta de ar, pois impedem que o órgão bombeie sangue o suficiente para fornecer oxigênio.

Mohammed e Fatimah são apenas dois entre os milhões de refugiados que sofrem de doenças crônicas não transmissíveis – como diabetes, câncer e transtornos mentais – que não são contagiosas, mas podem ser devastadoras se não forem tratadas. A história de ambos foi divulgada em um artigo da revista Foreign Affairs, como exemplo de uma crise silenciosa e pouco falada.

Países que acolheram refugiados vêm falhando em conceder tratamentos para doenças crônicas não transmissíveis. Tais males costumam gerar altos custos para os sistemas de saúde. Logo, se nada for feito para mudar esse cenário, em longo prazo o problema ficará ainda maior e mais caro. Mas essa não é a pior parte: tais doenças impedem que os refugiados construam uma nova vida, se tornem produtivos e capazes de se sustentar na nova comunidade onde vivem.

Muitos dos refugiados provêm de países com altos índices de doenças não transmissíveis. Nas últimas duas décadas, elas afetaram 90% da população síria, da qual 5,5 milhões deixaram o país desde 2011. No Afeganistão, desde a invasão americana em 2001, o número de mortes causadas por doenças não transmissíveis cresceu 12%.

Geralmente, para ter acesso ao sistema de saúde no país acolhedor, os refugiados precisam de documentos emitidos por estes países. E para retirar tais documentos, normalmente são exigidos outros documentos, emitidos no país de origem do refugiado. O problema é que muitos refugiados chegam ao novo país sem documentos, ou porque perderam na travessia ou porque não conseguiram pegar antes da fuga. Como resultado, eles precisam esperar por meses até obter novos documentos no país acolhedor.

A situação também é critica entre os que vivem em campos para refugiados. Segundo a Foreign Affairs, raramente os campos oferecem tratamento voltado para doenças crônicas não transmissíveis. E em muitos deles não há médicos disponíveis para atender a demanda. Os que sofrem com tais doenças e deixam os campos e vão para as cidades em busca de melhores trabalhos, escolas e tratamentos médicos, acabam indo morar em comunidades carentes, onda a escassez de alimentos e infraestrutura acaba por agravar seu quadro clínico.

Tratamentos para doenças crônicas são caros. E os refugiados, geralmente, não têm dinheiro. Segundo registros do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) de julho de 2016, 70% dos refugiados sírios viviam abaixo da linha da pobreza.

A falta de dinheiro não é o único problema. Muitos refugiados não compreendem o idioma do país acolhedor nem como funciona seu sistema de saúde, o que atrapalha na hora de buscar ajuda. A família de Mohammed e Fatimah, por exemplo, não fala turco. Quando são acolhidos, eles costumam priorizar outras necessidades, como a busca por alimentos, abrigo e emprego, ignorando condições crônicas que num primeiro momento não aparentam uma emergência.

Alguns governos questionam por que deveriam gastar dinheiro com tratamentos de doenças crônicas de refugiados, enquanto a população de seu próprio país sofre com problemas similares. Primeiramente, porque há a questão humanitária: o acolhimento deve contemplar todas as necessidades de um refugiado. Se esse motivo não for suficiente, há o fato de que muitos refugiados não deixarão o país acolhedor tão cedo. E somente quando eles têm acesso à saúde podem contribuir para a nova sociedade da qual fazem parte. Quanto mais eles conseguem evitar a pobreza e a doença, menos chances têm de se radicalizar ou de recorrer à violência.

Logo, prover aos refugiados o acesso à saúde em longo prazo para tratar doenças crônicas não transmissíveis beneficia tanto os próprios refugiados quanto a comunidade que um dia eles chamarão de sua.

Fontes:
Foreign Affairs-The Hidden Refugee Health Crisis

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