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TURQUIA

Como Erdogan seduz migrantes turcos na Europa?

Com habilidade o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, toca nos pontos fracos da integração da comunidade turca na Europa para conquistar apoio político

Como Erdogan seduz migrantes turcos na Europa?
Erdogan é o primeiro líder turco a destacar a importância da diáspora do povo turco (Foto: Wikimedia)

As relações entre a Europa e a Turquia têm sido um misto de fascínio, dependência e desconfiança. Depois de visitar Constantinopla em 1898, o cáiser Guilherme II da Alemanha escreveu ao seu amigo o czar Nicolau II: “Se eu não tivesse uma religião ao visitar Constantinopla, com certeza teria me convertido ao islamismo!” Mas, hoje, o autoritarismo paranoico do presidente Recep Tayyip Erdogan transformou a Turquia em um lugar bem menos sedutor. Jean-Claude Juncker, presidente da Comissão Europeia, disse na última semana de agosto que a Turquia está se afastando da Europa com “passos gigantescos”.

Os vínculos econômicos e militares que unem a Turquia à Europa e, sobretudo, os mais de 6 milhões de turcos que vivem em países europeus, a maioria na Europa Ocidental, tornam a relação ainda mais complexa. Durante anos, Erdogan promoveu grandes comícios em cidades como Colônia, incentivando os turcos a construírem suas vidas nos países de adoção, mas sem assimilar a cultura e os hábitos deles.

Erdogan é o primeiro líder turco a destacar a importância da diáspora do povo turco e tem sido recompensado por essa atitude. Em um referendo em abril, 59% dos turcos que vivem na Europa apoiaram suas propostas controversas de ampliar os poderes presidenciais, em comparação com pouco mais da metade na Turquia. O interesse de Erdogan em manter contato com os turcos na Europa tem três objetivos, disse Sinan Ulgen, um analista de Istambul: promover interesses turcos no exterior, seduzir nacionalistas na Turquia e conquistar votos em seu país extremamente polarizado.

As relações da Turquia com os países europeus, em especial com a Alemanha, se deterioraram ainda mais com a perseguição de Erdogan aos seguidores do teólogo exilado, Fethullah Gülen, após a tentativa fracassada do golpe de Estado no ano passado. Em julho, a polícia turca prendeu seis ativistas de direitos humanos, entre eles um cidadão alemão. Antes do referendo, Erdogan acusou os governos da Holanda e da Alemanha de terem uma postura “nazista” depois que proibiram os ministros turcos de fazer campanha para angariar votos. E pediu aos migrantes turcos que tivessem pelo menos cinco filhos para combater a “vulgaridade” da União Europeia (UE).

A era moderna dos vínculos entre a Alemanha e a Turquia começou com a assinatura do Tratado para Recrutamento de Trabalhadores Turcos em 1961 em meio a um cenário de escassez de mão de obra na Alemanha. Na primeira versão do acordo os trabalhadores turcos teriam de voltar para a Turquia depois de dois anos de trabalho, mas essa cláusula foi revogada e os trabalhadores começaram a trazer suas famílias para a Alemanha e a construir uma vida no país que os havia acolhido.

Muitos turcos na Europa interessam-se pouco pelos acontecimentos em seu país natal. No entanto, os políticos continuam preocupados com o sucesso de Erdogan na conquista de votos dos turcos no exterior. “É lamentável que pessoas que cresceram em países democráticos tenham votado nas mudanças constitucionais de Erdogan”, disse Serap Güler, filha de imigrantes turcos, e atual secretária de Estado para a Integração na Renânia do Norte-Vestfália, que abriga um terço da população turca da Alemanha.

Detlef Pollack, um sociólogo que estuda a população turca da Alemanha, interpreta o apoio a Erdogan não como uma rejeição à democracia, mas como uma expressão de desafio, de crise de identidade e talvez de ressentimento. A mensagem do voto é: “Somos democratas, mas não segundo a concepção europeia.” Mas as pesquisas realizadas pelo Centro de Estudos Turcos, com sede na cidade alemã de Essen, indicaram uma tendência crescente entre os alemães de origem turca na Renânia do Norte-Vestfália de se referirem à Turquia como “lar”.

O governo de Angela Merkel está diante de um difícil equilíbrio entre enfrentar o regime autocrático da Turquia sem perder o apoio da comunidade turca leal a Erdogan. Há pouco tempo, o ministro das Relações Exteriores, Sigmar Gabriel, publicou uma carta no jornal Bild, na qual disse que as tensões entre o governo alemão e Ancara não prejudicam a integração dos turcos que vivem no país. Mas, para muitos deles, essa mensagem chegou tarde demais.

Fontes:
The Economist-How Recep Tayyip Erdogan seduces Turkish migrants in Europe

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