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Anatomia nazista

Como Hitler ainda assombra a ciência moderna

Corpos de judeus preservados em laboratórios universitários para fins de pesquisa, estudos e até um prestigiado atlas anatômico fazem parte de um legado científico enraizado no nazismo

Como Hitler ainda assombra a ciência moderna
Importante atlas de anatomia pode conter imagens de pessoas executadas pelo regime de Hitler (Reprodução/Slate)

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E se grande parte da pesquisa médica da era nazista não foi como as atrocidades praticadas por Josef Mengele (o “anjo da morte” que usava pessoas vivas como cobaias), mas como o caso de Henrietta Lacks (doadora involuntária de células cancerígenas que resultaram na primeira linhagem cultivada em laboratório), em que circunstâncias antiéticas levaram a um legado científico duradouro? De acordo com o novo artigo de Emily Bazelon na revista Slate, “Os anatomistas nazistas”, essa segunda tese está mais próxima da verdade.

Bazelon examinou diversos estudos da era nazista e constatou que os corpos que os alemães executaram “continuam a assombrar a ciência alemã e austríaca”, ressurgindo de maneiras que variam desde amostras de tecidos preservadas em laboratórios universitários a um respeitado atlas anatômico produzido por um médico nazista. Os cadáveres assombram os americanos também, escreve Bazelon, mesmo que indiretamente, influenciando teses direitistas como a de que uma mulher não pode engravidar depois de um estupro.

Quando a Segunda Guerra Mundial terminou, em 1945, anatomistas alemães já haviam

Atlas anatômico produzido por médico nazista (Reprodução/Slate)

armazenado os corpos de milhares de pessoas assassinadas pelo regime de Hitler. A partir de 1933, todos os 31 departamentos de anatomia nos territórios ocupados pelo Terceiro Reich, incluindo a Polônia, Áustria e República Checa, bem como Alemanha, preservavam estes cadáveres para fins de pesquisa.

Mas, diferentemente das pesquisas dos próprios nazistas, obcecados pela ideia da superioridade da raça ariana, muitos estudos de pesquisadores nos territórios ocupados não foram parar na lata de lixo da história. As origens torpes destas pesquisas, que tiraram proveito de “doações” de partes de corpos oferecidas pelo regime nazista, continuam a assombrar a ciência alemã, austríaca e polonesa. Universidades nestes países ainda lidam com a provável presença de restos mortais – células, ossos e tecidos – de vítimas de Hitler preservados em seus laboratórios.

Cobaias no corredor da morte

O chefe do Instituto de Anatomia da Universidade de Berlim nos anos 1940, Hermann Stieve, focou sua pesquisa no efeito do estresse sobre o sistema reprodutivo feminino. Ele observou, por exemplo, se galinhas põem ovos quando uma raposa enjaulada é colocada à vista. Stieve também estudou úteros e ovários humanos obtidos de uma prisão nazista, onde mulheres eram executadas regularmente. Ele conseguia obter todo o histórico médico das mulheres pré-execução, incluindo informações sobre seus ciclos menstruais e reações ao ambiente carcerário, bem como o impacto na saúde após receber a sentença de morte.

O pesquisador Hermann Stieve durante uma aula de anatomia em 1943 (Reprodução/CreativeCommons)

Stieve publicou 230 trabalhos anatômicos. Com os registros médicos que obteve, bem como os tecidos e órgãos que colheu e estudou, ele pôde traçar o efeito da iminência de uma execução na ovulação. Stieve constatou que as mulheres condenadas à morte iminente tinham ovulações menos previsíveis e, por vezes, experimentavam o que ele chamou de “sangramentos causados por choque”. Usando o terror provocado pela proximidade de uma execução como uma variável científica em suas pesquisas, Stieve tirou conclusões que continuam a ser citadas, entre as quais a ideia de que o estresse crônico inibe o sistema reprodutivo feminino.

Baseando-se (sem saber, provavelmente) nas pesquisas de Stieve, em agosto de 2012, o então deputado americano Todd Akin, um republicano do Missouri, disse que as mulheres podem prevenir a gravidez depois de um “estupro legítimo”. O deputado provocou a ira de muitos de seus colegas e perdeu sua chance de concorrer ao Senado. Mas outros republicanos adotaram o seu discurso, argumentando que o estupro raramente resulta em gravidez para justificar por que eles se opõem a uma exceção nas leis que restringem o acesso ao aborto para vítimas de estupro.

Atlas nazista

O Atlas Pernkopf, uma obra de reconhecida importância científica usada por médicos e pesquisadores no mundo todo foi produzida pelo médico nazista Eduard Pernkopf. O livro inclui fotos de homens de cabeças raspadas que muitos suspeitam serem retratos de judeus. Símbolos nazistas aparecem no atlas, junto às assinaturas dos artistas. Até agora, as imagens do livro não puderam ser atribuídas a vítimas específicas do nazismo, mas muitos historiadores acreditam que há uma grande probabilidade de que os desenhos retratem pessoas executadas pelo regime de Hitler.

 

Fontes:
Slate - The Nazi Anatomists

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