Início » Internacional » Como lutar uma guerra com soldados desnutridos?
COREIA DO NORTE

Como lutar uma guerra com soldados desnutridos?

Peripécias nucleares de Kim Jong-un perdem apoio na Coreia do Norte à medida que a seca coloca civis e militares em situação de fome

Como lutar uma guerra com soldados desnutridos?
Norte-coreanos estão insatisfeitos com o foco de Kim na produção de armas (Foto: KCNA)

A Coreia do Norte vai desenvolver um míssil balístico mais potente do que os utilizados em lançamentos recentes. A informação foi divulgada pela agência de notícias estatal do país, a KCNA, que publicou fotos de Kim Jong-un visitando um centro militar e disse que o líder norte-coreano ordenou a produção de mais motores propulsores de foguetes e ogivas nucleares.

O anúncio, porém, não teve o mesmo impacto que os anteriores entre os 25 milhões de habitantes do país. Isso porque eles vêm questionando o investimento pesado do governo em armas, enquanto a população sofre com a maior seca em 16 anos e com os efeitos das sanções impostas em retaliação ao programa nuclear do país.

Leia mais: Grave seca faz a Coreia do Norte sofrer com escassez
Leia mais: EUA x Coreia do Norte: quando a verborragia supera a razão

Este ano, a seca devastou colheitas e deixou o país incapaz de alimentar a população, incluindo soldados do exército tão exaltado pelo regime. Desde que Kim chegou ao poder, o padrão de vida da elite norte-coreana aumentou, enquanto a vasta camada mais pobre do país passou a sofrer com a estiagem, a falta de alimentos e o desemprego gerado pelas sanções econômicas.

Segundo o Daily NK, site comandado por desertores do regime, é nítido o descontentamento da população em relação ao foco do governo em produção de armas. Segundo o site, alguns norte-coreanos se sentem “desiludidos com o regime de Kim Jong-un, que gasta mais dinheiro desenvolvendo mísseis do que melhorando a vida da população”.

“Todos estão cientes de que sempre que o regime lança um míssil, sanções econômicas serão impostas. Não há nada para celebrar para os cidadãos comuns. No início, os residentes do país tinham orgulho do regime abertamente se opor aos EUA, com mísseis e o desenvolvimento de um programa nuclear, mas hoje o sentimento antiamericano enfraqueceu e o respeito pelo regime despencou”, disse ao Daily NK um morador da Coreia do Norte que não quis se identificar.

As mais recentes sanções anunciadas contra a Coreia do Norte prometem cortar em um terço a receita de R$ 3 bilhões anuais do país provenientes das exportações. Tal fato ameaça levar mais norte-coreanos à situação de miséria, pois ameaçam inúmeros postos de emprego do setor, incluindo na mina de Musan, a maior produtora de minério de ferro do país. Além disso, haverá sanções à exportação de frutos do mar, o que vai afetar pescadores cujo sustento depende da venda de peixes para a China.

A escassez de alimentos também ameaça as promessas de guerra de Kim. É o que diz Jiro Ishimaru, documentarista japonês que tem contatos com uma rede de jornalistas norte-coreanos que enviam informações através de celulares contrabandeados, algo extremamente arriscado na Coreia do Norte.

“Há muitos soldados para alimentar. E a corrupção impera. Depois que os oficiais superiores pegam sua parte de provisões para vender no mercado privado em busca de lucro, não sobra nada para os militares de baixa patente”, diz Ishimaru, que na semana passada testemunhou soldados norte-coreanos claramente desnutridos lavando seus uniformes no rio Yalu, próximo à fronteira com a China.

ONU alerta que cenário pode piorar

Em um alerta sobre a seca na Coreia do Norte, lançado no mês passado, a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) traçou um cenário nada otimista para o país.

“Se a seca persistir, a situação da segurança alimentar pode se deteriorar. […] A maioria da população do país depende criticamente da agricultura para sobreviver. Neste ponto, é vital que os agricultores recebam assistência agrícola apropriada e no tempo certo”, diz a FAO, que aprovou o envio de US$ 6,3 milhões em ajuda para conter a escassez de alimentos.

Fontes:
The Guardian-'Too many soldiers to feed': North Koreans fear more sanctions as drought threatens famine
The New York Times-North Korea Hints It Is Developing More Advanced Ballistic Missiles

Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião deste site

5 Opiniões

  1. Mario disse:

    São coisas de um regime totalitário cujo destino é levar o país a ruina mas duvido que vá cair e se reunificar com a Coreia do Sul, pois tem apoio dos chineses e russos. O mais provável é que um dia, o regime seja substituído por um outro mais suave.

  2. helo disse:

    A fome na Coreia do Norte é assustadora segundo fotos e relatos recentes de um exilado, livro ja traduzido.

  3. laercio disse:

    Esquecendo os problemas políticos norte coreanos, imaginemos o quanto o Brasil está atrasado, considerando que a Coréia do norte desenvolve tecnologia nuclear, de foguetes e balística!… Mesmo em meio a secas, num país frio, de terra pobre…
    No Brasil temos tudo; imaginem os senhores se tivéssemos o mesmo grau de estudo dos norte coreanos… Teríamos um Brasil repleto de tecnologias.

  4. laercio disse:

    Sabe, eu fico lendo essas notícias da Coreia do norte e me pergunto: mesmo diante mil problemas eles estão desenvolveu sua parafernália nuclear; imaginem se não houvesse comunismo por lá, existiriam várias fabricantes de automóveis, celulares e outras tecnologias…
    E o Brasil, sem problemas graves, muito ao, terras, rios, alimentos… Aonde estaríamos se houvesse o estudo por aqui…
    Seríamos

  5. Lucinda Telles disse:

    Criar galinhas e plantar uma roça de mandioca garante segurança alimentar e é tão simples que até os indígenas brasileiros aprenderam (politicamente incorreta a informação, mas verdadeira). Acho que dominar a população pela fome é algo intencional na Coréia do Norte.

Sua Opinião

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados *