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Como o LinkedIn se mantém uma zona livre de controvérsias?

Enquanto Twitter e Facebook lutam para conter fake news e discurso de ódio, o LinkedIn parece blindado de conteúdos do tipo

Como o LinkedIn se mantém uma zona livre de controvérsias?
Por ser uma rede social voltada para o mercado de trabalho, usuários costumam ser mais comedidos (Foto: Flickr/Alice Heiman)

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Nos últimos anos, uma série de controvérsias envolvendo o Twitter e o Facebook forçaram os donos das duas redes sociais a promoverem alterações nas políticas de suas respectivas empresas, para preservar os dados de usuários e impedir o alastramento de fake news, conteúdos violentos e discurso de ódio. Porém, uma rede social permanece um oásis em meio às controvérsias: o LinkedIn.

A plataforma foi lançada em 2003, como uma alternativa aos bancos de dados de empregos, e se estabeleceu firmemente como um ramo das redes sociais voltado para o mercado de trabalho. Como outras redes, o LinkedIn foi, em seus primeiros anos, um espaço para acompanhar as pessoas e instituições com as quais você se conectou. Em 2010, com o sucesso dos feeds do Twitter e do Facebook como pano de fundo, o serviço criou seu próprio espaço para compartilhar notícias e atualizações da vida. Em 2016, quando foi comprado pela Microsoft, o LinkedIn confirmou sua dupla identidade: era um site de rede para contratar e ser contratado, mas também um lugar para “profissionais” (ou seja, qualquer pessoa com uma conta no LinkedIn) para compartilhar links e ideias.

Hoje, um feed de notícias no estilo do Facebook, com os botões para curtir, comentar e compartilhar, geralmente é a primeira coisa que os usuários veem quando acessam o LinkedIn. A equipe editorial da empresa, que escreve e cuida do conteúdo de negócios, tem 65 funcionários. Eles são acompanhados por uma enorme lista de influenciadores – líderes empresariais, especialistas em áreas temáticas e gurus de marketing – que compartilham postagens regularmente. Os mais populares têm milhões de seguidores cada um.

No final de 2018, a empresa disse que, em apenas um dia, “mais de 2 milhões de posts, vídeos e artigos passam pelo feed do LinkedIn”. Agora, o LinkedIn afirma ter mais de 645 milhões de usuários, dos quais 180 milhões residem na América do Norte. No ano passado, produziu mais de US$ 5,3 bilhões em receita para a Microsoft. Para comparar, a cifra representa cerca de um décimo da receita da Facebook Inc., cerca de metade da receita do Instagram e quase o dobro da receita do Twitter.

Considerando o tamanho e o alcance social, o LinkedIn tem sido um personagem notavelmente secundário em grandes narrativas sobre os perigos das redes sociais. A plataforma não foi envolvida em campanhas de desinformação, nem é um palco óbvio para a prática de assédio virtual. É único entre seus pares de rede social.

“Você fala no LinkedIn da mesma maneira que fala no escritório”, disse Dan Roth, editor-chefe do LinkedIn. “Há certas fronteiras em torno do que é aceitável. A crítica dos posts de outros usuários, tende a ser comedida e os usuários muitas vezes explicitam as várias normas da plataforma, quando eles sentem que é necessário”.

“Isso [o comportamento na rede] é algo que seu chefe vê, seu futuro chefe, pessoas com quem você quer trabalhar no futuro”, disse Roth.

No contexto das mídias sociais, isso pode soar um pouco ameaçador. No contexto do escritório moderno, é perfeitamente normal.

Ideias sobre como falar e se comportar em um escritório podem ser valiosas, mas também equivocadas e, às vezes, individualmente e institucionalmente contraproducentes como explica Amy C. Edmondson, professora da Harvard Business School, que estudou a comunicação no local de trabalho. “Todos no trabalho têm dois empregos, e o outro é o trabalho de ter uma boa aparência”, disse ela.

O LinkedIn não é um lugar para se organizar um sindicato. Sua missão é mediar e facilitar um processo fundamentalmente desigual. Tópicos que podem ser arriscados para os trabalhadores comuns debaterem no escritório, como desigualdade salarial, diversidade ou assédio no local de trabalho, tendem a se desdobrar no LinkedIn como um debate organizado pelo setor de recursos humanos.

“Esse tipo de conversa sensível começa com pessoas no topo das empresas”, disse Roth, citando como exemplo o anúncio do executivo-chefe da Nielsen, David Kenny, no LinkedIn, de que assumiria o título adicional de diretor de diversidade. “Quando é um CEO falando sobre isso, você pode falar de uma forma mais segura”, explica Roth.

Nicholas Thompson, o editor chefe da revista Wired, é o que você pode chamar de um usuário assíduo do LinkedIn. Ele publica um vídeo a cada dia sobre tecnologia para seus mais de 1,3 milhão de seguidores no site. Material mais ácido ele deixa para publicar no Twitter.

“É muito mais difícil ser um ativista no LinkedIn ou disseminar a ideias sobre autocracia”, explica Thompson.

As postagens sobre negócios funcionam bem na rede social, assim como postagens sobre seu próprio trabalho e a indústria da mídia em geral. Violência armada? Não muito.

Candidatos às eleições presidenciais americanas de 2020 estão fazendo muitas contratações por meio do LinkedIn, mas não espere fazer campanha lá. Anúncios políticos são banidos da plataforma.

Como uma plataforma que depende de seus usuários para serem cuidadosos e calculistas na exposição de suas ideias, o LinkedIn propõe uma visão brutalmente honesta para as mídias sociais. A plataforma evita cuidadosamente a política, mas a ideologia corporativista dos EUA está presente em todas as notificações de usuários. Não há ilusão de igualdade de condições na rede social: o serviço que funciona melhor se você pagar por isso.

O LinkedIn nunca teve como objetivo “conectar o mundo”. Ele foi elaborado para conectar “os profissionais do mundo” e, especificamente, “para torná-los mais produtivos e bem-sucedidos”.

No LinkedIn, o ideal de liberdade de discurso tem de se acomodar com o fato de que é preciso pagar para enviar mensagens para pessoas com as quais você não tem conexão. Se o Facebook ou o Instagram enviassem uma notificação toda vez que você olhasse para o perfil do usuário, seria um escândalo; no LinkedIn, é um recurso essencial da plataforma. Em outras redes sociais, os usuários se preocupam com o fato de eventualmente terem suas postagens visualizadas por empregadores. No LinkedIn, todo o conteúdo postado é planejado tendo os empregadores em mente.

Fontes:
The New York Times-Why Aren’t We Talking About LinkedIn?

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