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POLÍTICA E RELIGIÃO

Como os pastores da Nigéria exercem poder político

A 'pentecostalização' da política nigeriana, que começou há 20 anos, continua inabalável e o processo democrático é moldado por poderosos pastores, que regularmente avaliam as eleições

Como os pastores da Nigéria exercem poder político
Os pentecostais representam 35% de todos os cristãos na África (Foto: Max Pixel)

Chris Okotie, um pop star dos anos 1980 que virou pastor pentecostal, concorre presidência da Nigéria pela quarta vez. No culto na igreja que fundou há 32 anos, ele mantém a congregação extasiada com uma mistura de seus maiores sucessos do evangelho, intercalados com oração, falando a língua dos anjos e com um sermão sobre as cinco virgens insensatas. A igreja é exuberante e as pessoas são bem vestidas.

Em 2003, Okotie tornou-se o primeiro pastor pentecostal a concorrer à presidência da Nigéria, que volta a escolher seu novo presidente neste sábado, 16. Desde então, as igrejas pentecostais – que dão ênfase especial a uma experiência pessoal direta de Deus – continuaram seu crescimento exponencial em todo o país e continente. Os pentecostais representam 35% de todos os cristãos na África, de acordo com o World Christian Database. Eles eram apenas 13% em 1970. Na Nigéria, seus líderes passaram a exercer grande poder político. Este ano, os dois candidatos presidenciais são ambos muçulmanos – o titular, Muhammadu Buhari, e o ex-vice-presidente, Atiku Abubakar.

Mas a “pentecostalização” da política, que começou há 20 anos, continua inabalável, dizem os especialistas, e o processo democrático é moldado por poderosos pastores, que regularmente avaliam as eleições. Alguns pastores até contam seus rebanhos para votar. Sem papa ou arcebispos para lhes dizer o que fazer ou dizer e, portanto, sem limite para suas atividades políticas, os pastores cresceram em suas ambições.

Tradicionalmente, o cargo mais alto do vasto país da África Ocidental alterna entre muçulmanos e cristãos. Embora os muçulmanos nortistas tenham tido apenas uma pequena vantagem, estando no cargo por cerca de 33 dos 58 anos desde a independência, a maioria dos nigerianos pensa que eles dominaram, e os pentecostais da Nigéria estão competindo cada vez mais com eles pelo poder do Estado.

Muitos cristãos nigerianos temem a “islamização” de seu país, apontando para a ascensão do Boko Haram no Nordeste na última década, a radicalização em muitos estados do Norte no início dos anos 2000 e ataques de pastores muçulmanos, que muitas vezes são injustamente percebidos como travando uma campanha jihadista contra agricultores cristãos. Pelo menos três padres foram mortos durante os anos da crise pastoral no Cinturão do Meio, e a aparente indiferença da presidência sobre o assunto colocou muitos cristãos contra o governo.

Na eleição deste sábado muitos nigerianos cristãos veem Atiku Abubakar como mais liberal que Buhari – e, portanto, mais amigável para eles, e mais propensos a lidar com essas ameaças.

Buhari, no entanto, tem ao seu lado Yemi Osinbajo, o vice-presidente e pastor da Redeemed Christian Church of God, que tem mais de 20 mil filiais em 198 países, assim como seus milhões de adeptos nigerianos.

Ao escolher Osinbajo, Buhari continuava a reconhecer a grande influência política do cristianismo pentecostal em seu país, que abriga algumas das maiores igrejas do mundo. Osinbajo e seu fiel rebanho podem ter sido um fator decisivo em sua vitória de 2015.

Fontes:
The Guardian-Gospel glamour: how Nigeria's pastors wield political power

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