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ECONOMIA DA INFORMAÇÃO

Como regular as gigantes de tecnologia?

Leis antitrustes precisam ser revisadas para se adequarem a uma era onde a informação se tornou mais valiosa que petróleo

Como regular as gigantes de tecnologia?
Abundância de informações mudou a natureza da concorrência (Foto: Wikimedia)

Uma “nova commodity” vem alimentando um setor tão lucrativo e crescente que levou agentes de fiscalização antitruste a agir para conter aqueles que a controlam. Um século atrás, o produto em questão seria o petróleo. Hoje, uma atenção similar está sendo dada às empresas de tecnologia, cuja principal atividade é a transação de informações, o “petróleo da era digital”.

Gigantes como Amazon, Apple, Google, Facebook e Microsoft parecem incontroláveis. Elas estão no topo das empresas mais valiosas do mundo e seus lucros continuam subindo.

Tamanho monopólio do setor tem gerado apelos para que essas empresas sejam fragmentadas da mesma forma que a antiga gigante americana do petróleo Standard Oil foi no início do século XX, numa série de medidas antitrustes da época.

É notório que o tamanho de uma empresa não é crime. Essas gigantes da tecnologia cresceram prestando serviços que beneficiam o consumidor. Raras são as pessoas hoje dispostas a viver sem a ferramenta de busca do Google, o feed de notícias do Facebook ou a entrega com prazo de um dia da Amazon.

Porém, há razão para preocupação. O controle de informações das empresas voltadas para a internet dá às mesmas um enorme poder. As antigas formas de competição, originadas na era do petróleo, parecem ultrapassadas quando comparadas à chamada “economia da informação”. Logo, uma nova abordagem é necessária.

Os smartphones e a internet tornaram o fluxo de informações mais abundante e onipresente do que nunca. Hoje, praticamente qualquer ação do cotidiano deixa um rastro digital. E com a conexão dos objetos com a internet (a chamada “internet das coisas”) isso será ainda maior.

Enquanto isso, técnicas de inteligência artificial, como os algoritmos de aprendizado de máquina, que procuram padrões dentro de um conjunto de dados, extraem cada vez mais valor das informações. Hoje, os algorítimos são capazes de prever quando um cliente está para comprar um produto, quando um motor precisa de reparos e até quando uma pessoa tem riscos de desenvolver uma doença.

Essa abundância de informações muda a natureza da concorrência. Há muito as empresas de tecnologia se beneficiam do chamado efeito de rede. É o caso do Facebook: quanto mais pessoas se conectam ao Facebook, mais atraente fica entrar para a rede social. Ao coletar mais dados, a firma tem a possibilidade de aprimorar seus serviços, o que atrai mais usuários, aumentando o fluxo de informações.

O acesso à informação também protege as empresas da concorrência. A competição entre as empresas de tecnologia é sanguinária por conta do constante risco de ter o posto tomado por uma startup de garagem ou uma mudança tecnológica inesperada. Diante disso, supervisionar o usuário se torna uma arma crucial para tolher a concorrência: o Google supervisiona o que as pessoas estão buscando, o Facebook supervisiona o que elas compartilham e a Amazon o que elas compram. São como divindades, cuja visão é onipresente em seus negócios e além deles.

Diante desse cenário, são necessárias novas formas de leis antitrustes. Duas sugestões podem ser adotadas. Primeiro, as autoridades antitrustes devem sair da era industrial e entrar no século XXI. Por exemplo, quando os agentes fiscalizam uma fusão, eles se atêm ao tamanho da empresa. Eles precisam passar a analisar a extensão dos ativos de informação da empresa na hora de assimilar o impacto de uma fusão. Também é necessário analisar o valor pago por uma empresa para adquirir a outra. Altas quantias indicam que uma empresa está tentando comprar uma concorrente recém-criada. Foi o que aconteceu quando Facebook pagou US$ 22 bilhões para adquirir o WhatsApp, que na época não tinha receita suficiente para recusar a proposta. A aquisição deveria ter gerado um alerta aos fiscais antitruste.

Outra medida eficaz seria diminuir o domínio que as empresas detêm sobre as informações, dando mais controle sobre as mesmas aos usuários que as fornecem. Mais transparência seria de grande ajuda: as empresas de tecnologia deveriam ser forçadas a revelar aos usuários que informações elas detêm sobre eles e quanto dinheiro ganham com elas.

Fontes:
The Economist-The world’s most valuable resource is no longer oil, but data

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