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RAÍZES DO JIHADISMO

Como a URSS contribuiu para a radicalização islâmica

Perseguição do governo soviético ateu à religião islâmica fortaleceu e popularizou o discurso de líderes muçulmanos radicais

Como a URSS contribuiu para a radicalização islâmica
Perseguições do século passado se refletem na atual guerra ao terror (Foto: Flickr/EricAllenBell)

Em 1929, o líder soviético Mikhail Kalinin apresentou seus planos para a Ásia Central: “ensinar a população residente das estepes de Kirghiz, uma pequena região de cultivo de algodão do Uzbequistão, e os fazendeiros do Turcomenistão os ideais dos trabalhadores de Leningrado”.

Tratava-se de uma missão difícil, especialmente no quesito religião. Cerca de 90% da população local era muçulmana, mas o ateísmo era a religião oficial da União Soviética. Diante disso, no início da década de 1920, o governo soviético proibiu o islã na Ásia Central.

Livros escritos em árabe foram queimados e muçulmanos foram proibidos de exercer funções públicas. Tribunais regidos pelo Corão e centros de estudos islâmicos foram fechados e se tornou quase impossível conduzir rituais muçulmanos. Em 1912, havia 26 mil mesquitas na  Ásia Central. Em 1941, esse número caiu para 1 mil.

Tais esforços tiveram efeito contrário. Em vez de enfraquecer o islã, eles apenas radicalizaram os seguidores da crença. Essa tendência seguiu pelo século passado e se reflete na atual guerra ao terrorismo. Hoje, muçulmanos residentes da Ásia Central estão se radicalizando a uma velocidade alarmante. Milhares se juntaram ao Estado Islâmico (Isis). Segundo a mídia turca, o suspeito de ter matado 39 pessoas em uma boate em Istambul era da etnia árabe Uighur, que provém do Quirquistão.

Quando, em 1930, o governo soviético seguiu o combate ao islã, silenciando imãs e líderes moderados, líderes fundamentalistas agiram paralelamente, cooptando seguidores em mesquitas improvisadas e centros de estudos islâmicos clandestinos. Um dos mais famosos foi Shami-damulla, do Uzbequistão, que tinha uma visão extremista e ultraconservadora do islã. Ele foi preso em 1932, mas deixou milhares de discípulos que espalharam seus ensinamentos.

Quando Joseph Stalin relaxou as leis anti-islã, foram esses radicais que assumiram governos e cargos públicos. O número de mesquitas na região saltou.

Em 1980, mais uma ação russa contribuiu para a radicalização. A invasão do Afeganistão e implementação de um governo laico no país colocou muitos muçulmanos da Ásia Central contra a Rússia. Eles foram beneficiados por leis de imigração mais flexíveis e pelo aumento no fluxo de informação.

Quando a União Soviética chegou ao fim, os radicais muçulmanos já haviam construído uma sólida rede em seus países recentemente livres. Com milhares de seguidores, eles criaram grupos como o Movimento Islâmico do Uzbequstão, por exemplo, que se uniu ao talibã e outros grupos jihadistas para combater tropas da coalizão ocidental no Afeganistão e promover ataques no Paquistão.

Fontes:
The Washington Post-How the USSR’s effort to destroy Islam created a generation of radicals

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1 Opinião

  1. Rene Luiz Hirschmann disse:

    Como Bush contribuiu para o nascimento do EI?.

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