Início » Internacional » Concerto apresenta músicas feitas em campos de concentração
CULTURA

Concerto apresenta músicas feitas em campos de concentração

Apresentadas em Israel, obras são fruto de uma pesquisa de 30 anos do compositor e pianista italiano Francesco Lotoro

Concerto apresenta músicas feitas em campos de concentração
Lotoro viajou o mundo, procurando as músicas em livrarias, porões e arquivos (Foto: Divulgação)

No último domingo, 15, o concerto Notas de Esperança, em Israel, apresentou, pela primeira vez, músicas compostas em campos de concentração. O concerto contou com a presença de sobreviventes e de seus descendentes. As 11 peças apresentadas no concerto são fruto de uma pesquisa de 30 anos de Francesco Lotoro, compositor e pianista italiano que procurou centenas de músicas, sinfonias e óperas da época do Holocausto.

Aviva Bar-On, de 85 anos, cantou para uma plateia de 3 mil pessoas, uma música que decorou quando foi prisioneira de um campo nazista aos 9 anos de idade. Há mais de sete décadas, ela foi prisioneira no campo Theresienstadt (agora Terezín), na Tchecoslováquia, que na época estava ocupada pelos nazistas. A música é uma composição do poeta e músico judeu Ilse Weber, que foi morto na câmara de gás em Auschwitz.

As letras e melodias foram escritas em pedaços de papel ou memorizadas. Alguns prisioneiros eram forçados a cantar enquanto seus companheiros iam para as câmaras de gás. “Algumas [músicas] foram escritas em cadernos, sacos de carvão, embrulhos de comida e tickets”, disse Lotoro. Uma ópera de cinco atos foi encontrada em folhas de papel higiênico.

Lotoro viajou o mundo, procurando as músicas em livrarias, porões e arquivos. Além disso, entrevistou sobreviventes do Holocausto. Ele recuperou e gravou 8 mil músicas, mas diz que “mas ainda há mais de 10 mil esperando para serem decifradas”.

Depois da liberação dos campos, um pequeno caderno contendo as letras de Ilse Weber foi encontrado. Lotoro, no entanto, ficou frustrado porque ali não constava a melodia da música. Mas foi aí que a memória de Aviva Bar-On entrou na história. Afinal, muitas músicas só ficaram guardadas nas memórias dos sobreviventes, que hoje estão com 80 anos ou mais.

Apesar das circunstâncias das composições, a maioria das músicas era para cima. Zitra (Amanhã), composta por Joseph Roubicek para uma jovem prisioneira, Manka, falava sobre um “dia em que todos seriam felizes”. Num vídeo gravado no Yad Vashem (memorial do Holocausto em Israel), e mostrado no concerto, Manka disse que “cantar era algo que fazia esquecer a fome”. “No campo, as pessoas queriam ser otimistas, nós estávamos sempre procurando algo positivo porque a vida era muito terrível. A morte acontecia todos os dias”, disse a sobrevivente.

No campo Westerbork, nos Países Baixos, Max Ehrlich, um proeminente intérprete da Berlim pré-guerra, se juntou com o músico Willy Rosen para criar o Grupo Teatral do Campo Westbork. “De repente, o melhor cabaré na Europa podia ser encontrado num campo de concentração. As músicas deles viraram hits em Westerbork, com os prisioneiros constantemente cantarolando as músicas”, disse Alan Ehrlich, sobrinho do intérprete.

Max Ehrlich foi deportado para Auschwitz em 1944, quando foi reconhecido por um guarda nazista e obrigado a cantar antes de ser morto. Nascido sete meses antes da morte de Max, o sobrinho Alan passou décadas pesquisando a vida e os trabalhos do tio. Em 1998, foi descoberta uma pasta com letras, scripts e instruções de palco. Novamente, as músicas dependeram da memória de outro sobrevivente, Louis de Wijze, que participava do grupo.

O concerto faz parte da celebração do aniversário de 70 anos da fundação do Estado de Israel, que ocorre no mês que vem. “Nos campos, havia uma explosão de criatividade. Quando sua vida está em risco, você cria mais como um testamento para um futuro”, disse Lotoro.

 

Leia também: Exposição na ONU reúne retratos de sobreviventes do Holocausto

Fontes:
The Guardian- 'The best cabaret in Europe' - Nazi prisoners' music premieres, 70 years on
JNF-Notes of Hope Concert

Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião deste site

Sua Opinião

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados *