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INVESTIGAÇÃO NA TURQUIA

Consulado onde jornalista desapareceu passa por inspeção na Turquia

O jornalista saudita Jamal Khashoggi, que vivia exilado nos EUA, desapareceu no último dia 2 de outubro, após entrar no consulado saudita na Turquia

Consulado onde jornalista desapareceu passa por inspeção na Turquia
Suspeita é de que Khashoggi foi assassinado dentro do local (Foto: POMED/Flickr)

Autoridades turcas realizaram nesta segunda-feira, 15, uma inspeção no consulado da Arábia Saudita em Istambul, na Turquia. O local está sob suspeita desde o último dia 2 de outubro, quando o jornalista saudita Jamal Khashoggi, de 59 anos, desapareceu depois de ter sido visto entrando na embaixada.

O caso tem atraído a atenção mundial e  tensionado as relações entre EUA e Arábia Saudita, dois aliados de longa data. Nesta segunda-feira, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, revelou ter ligado para o rei saudita, Salman bin Abdulaziz, para questioná-lo sobre o desaparecimento do jornalista.

“Acabei de falar com o rei da Arábia Saudita, que nega qualquer conhecimento do que possa ter acontecido ‘ao nosso cidadão da Arábia Saudita’. Ele disse que eles estão trabalhando em estreita colaboração com a Turquia para encontrar resposta. Estou enviando imediatamente o nosso secretário de Estado [Mike Pompeo] para se encontrar com o rei!”, escreveu Trump.

Aos jornalistas, Trump afirmou que o desaparecimento de Khashoggi também pode ter sido culpa de “assassinos desonestos, quem sabe?”. Críticos internacionais temem que a declaração do presidente americano sobre uma não participação do governo saudita pode ajudar o reino a se livrar de possíveis acusações.

Acredita-se que o jornalista foi morto no consulado, conforme revelou Yasin Aktay, conselheiro do presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, à Reuters no último dia 7 de outubro. Jamal Khashoggi é um grande conhecedor da família real saudita, e estava vivendo no estado americano da Virginia, escrevendo para o jornal americano Washington Post, desde o ano passado, quando Mohammed Bin Salman ascendeu ao posto de príncipe-herdeiro.

Khashoggi estava vivendo exilado da Arábia Saudita. No entanto, no último dia 2 de outubro, foi até o consulado do país na Turquia para pegar um documento referente ao seu divórcio. Khashoggi iria se casar no último dia 3 de outubro com a sua noiva turca.

No último dia 11 de outubro, a ONG de direitos humanos Humans Right Watch (HRW), solicitou que o reino saudita revele todas as informações sobre o desaparecimento do jornalista. Ademais, a ONG ainda afirmou que potências aliadas à Arábia Saudita, como Estados Unidos, Reino Unido e União Europeia, precisam reconsiderar sua relação com a nação.

“Há uma montanha de evidências que implicam a Arábia Saudita no desaparecimento forçado e potencial assassinato de Jamal Khashoggi, e com o passar dos dias, as negativas da Arábia Saudita estão se tornando acusações em si mesmas”, afirmou a diretora da HRW no Oriente Médio, Sarah Leah Whitson.

O receio mundial é que o desaparecimento do jornalista seja mais um avanço da forte repressão saudita aos críticos e opositores do governo. Desde o fim do ano passado, o reino tem tomado ações para, possivelmente, silenciar a oposição. Em maio, por exemplo, o governo reprimiu ativistas dos direitos das mulheres.

Já no ano passado, sob o pretexto de combater a corrupção, Salman ordenou a prisão de mais de 200 pessoas, entre elas dissidentes, adversários políticos ativistas de direitos humanos, clérigos, empresários e príncipes. E apenas nos quatro primeiros meses deste ano, o país executou 48 pessoas.

Evidências apontam para a Arábia Saudita

Em uma reportagem do último dia 9 de outubro, o Washington Post revelou que homens sauditas estariam esperando pelo jornalista no último dia 2 de outubro. Segundo o texto, os homens teriam partido de Riad, capital da Arábia Saudita, e se hospedaram em dois hotéis de Istambul antes de irem para o consulado. Mais tarde no mesmo dia, um grupo de 15 sauditas teria deixado Istambul em dois aviões.

Ao Washington Post, o governo saudita teria afirmado que Khashoggi deixara o consulado, mas um funcionário turco, que tem conhecimento da investigação, disse que “está claro que ele não saiu” do local. O reino saudita, no entanto, nega que tenha enviado uma equipe de 15 pessoas a Istambul no dia do desaparecimento. No último dia 10 de outubro, porém, o jornal turco Daily Sabah publicou uma reportagem com a foto dos 15 suspeitos sauditas.

Já no último sábado, 13, o Daily Sabah revelou que o jornalista saudita pode ter gravado informações sobre a sua suposta morte. Isso porque Khashoggi portava um relógio da marca Apple, que pode ter feito uma transferência de um arquivo de áudio para o seu smartphone, que estava em posse da sua noiva do lado de fora do consulado. O “interrogatório, tortura e assassinato foram gravados em áudio e enviados para o telefone e para o iCloud”, afirmou o jornal. No entanto, analistas de segurança digital duvidam da possibilidade disso ter ocorrido.

Uma ameaça ao reino?

De acordo com uma reportagem do New York Times desta segunda-feira, agências de inteligência americanas já tinham interceptado comunicações entre sauditas que planejavam uma forma de atrair Jamal Khashoggi de volta ao reino.

O jornalista era reconhecido por ter um grande conhecimento sobre a Arábia Saudita, assim como a família real. Além disso, também possuía experiência internacional, já tendo atuado em embaixadas sauditas em Londres, no Reino Unido, e em Washington, nos Estados Unidos.

Mesmo quando trabalhava na imprensa saudita, era tido como um porta-voz não oficial do reino saudita. Sua proximidade com a cultura ocidental ainda permitia que diplomatas e jornalistas estrangeiros entrassem em contato com ele para saber mais sobre o funcionamento do reino e da família real.

Desde que ascendeu, Mohammed Bin Salman tem mostrado pouca tolerância aos críticos e opositores ao reino saudita. Por isso, segundo analistas internacionais, é possível crer que o príncipe herdeiro não era fã de Jamal Khashoggi.

 

Leia também: A repressão a imprensa internacional

Fontes:
Agência Brasil-Turquia revistará consulado saudita no caso de jornalista desaparecido
The New York Times-Jamal Khashoggi’s Disappearance: What We Know and Don’t Know
Al Jazeera-Who is Jamal Khashoggi?

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