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EM BUSCA DE MODERNIZAÇÃO

Cultura russa trava guerra contra conservadorismo

Apesar do conservadorismo de Vladimir Putin e da influência da Igreja Ortodoxa, o movimento cultural de vanguarda russo defende seus ideais

Cultura russa trava guerra contra conservadorismo
Balé 'Nureyev' foi substituído por 'Don Quixote' pouco dias antes da estreia (Foto: Pixabay)

Os cartazes do balé “Nureyev” já haviam sido impressos e a maioria dos ingressos vendidos, quando poucos dias antes da estreia, em julho, o diretor do Bolshoi, Vladimir Urin, com o pretexto que os bailarinos ainda não estavam preparados para encenar o espetáculo, substituiu-o por uma apresentação do balé tradicional “Don Quixote”.  Os vídeos dos ensaios do balé “Nureyev”, uma homenagem a Rudolf Nureyev, nos quais os bailarinos apareceram dançando com sapatos de saltos altos, foram considerados modernos demais para os padrões da atual cultura russa.

Os críticos, indignados, disseram que era uma censura aos temas homossexuais da peça. A mídia estatal alimentou essa especulação, citando fontes anônimas que disseram que a ordem do cancelamento do balé havia sido dada pelo ministro da Cultura, Vladimir Medinsky, um defensor do classicismo e dos valores tradicionais da cultura russa. Mas com o apoio de patronos poderosos do Bolshoi, Urin quer estrear o balé “Nureyev” em dezembro. Porém, independente de quem tenha sido a decisão de suspender a apresentação, a mensagem é clara. “O que acontece no Bolshoi reflete os acontecimentos no país”, disse alguém próximo à direção do teatro.

Nesse caso, o imbróglio no Bolshoi é um reflexo do momento em que a Rússia se prepara para a eleição presidencial em 2018. Embora sem uma declaração oficial do Kremlin, o clima é de expectativa de reorganização da equipe do governo e de redefinição de uma agenda política para que Putin cumpra seu quarto e último mandato como presidente, a menos que mude a Constituição. Nessa expectativa o país encontra-se dividido não entre os membros do governo e a oposição, disse Alexander Baunov do Carnegie Moscow Centre, mas sim entre “os que veem a Rússia integrada na modernidade global e os que resistem a essa modernidade”.

Kirill Serebrennikov, diretor de “Nureyev”, é uma figura atuante no movimento de vanguarda cultural na Rússia. Seu teatro, o Centro Gogol, é um dos mais modernos de Moscou. Há anos, um público fiel acompanha as interpretações experimentais de clássicos russos e de trabalhos com novos conceitos e ideias apresentados no teatro. O talento de Serebrennikov como diretor de teatro e cinema é reconhecido em toda a Europa. Seu filme mais recente, The Student, ganhou o Prêmio François Chalais no Festival de Cinema de Cannes em 2016.

No entanto, na Rússia ele enfrenta a oposição dos conservadores que, desde o início do terceiro mandato presidencial de Putin, em 2012, defendem o retorno aos valores tradicionais conservadores e da crescente influência da Igreja Ortodoxa na cultura do país. Em 22 de agosto, Serebrennikov foi acusado de desvio de dinheiro público para a realização de espetáculos teatrais e aguarda julgamento em prisão domiciliar. Muitos veem essa acusação como uma manobra para silenciar um crítico veemente do regime.

Mas a Rússia moderna não é um palco no qual Vladimir Putin atua sozinho, nem é seu teatro de marionetes pessoal, onde os personagens se movem de acordo com sua vontade. Ao contrário, é um cenário onde clãs e atores perseguem objetivos com frequência conflitantes. E a cultura é um reflexo dessa batalha de interesses.

Fontes:
The Economist-Russian culture wars take centre stage

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