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CRISE NOS EUA

Da legalidade à ilegalidade: a crise dos opioides

EUA intensificam o combate aos opioides, responsáveis pela morte de 64.070 pessoas somente em 2016

Da legalidade à ilegalidade: a crise dos opioides
Usuários buscam opioides ilegais após fim de receita médica (Foto: Flickr)

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A cada ano que passa, as mortes por opioides – categoria que vai de analgésicos até a heroína – têm crescido ainda mais, e sem perspectiva de melhora. Nas últimas duas décadas, as overdoses, normalmente fatais neste tipo de droga, quase quadruplicaram. Com isso, não apenas o governo dos Estados Unidos, como outros ao redor do mundo, têm prestado mais atenção em um dos maiores vilões: o fentanil.

Com 64.070 mortes causadas por uso excessivos de drogas apenas nos Estados Unidos em 2016 – quase o dobro das mortes ocorridas em decorrência de acidentes de trânsitos ou armas no país – os EUA começaram a se dedicar ainda mais ao combate aos opioides. Inclusive, a Agência de Controle de Drogas americana (DEA) celebrou publicamente quando a China, uma das maiores produtoras de fentanil, proibiu, em março deste ano, a produção de quatro variantes da droga: carfentanil, furanil fentanil, acrilfentanil e valeril fentanil.

O fentanil, como droga, é considerado o opioide mais potente de todos. Estima-se que a substância seja 50 vezes mais potente que a heroína e até 100 vezes mais forte do que a morfina, normalmente utilizada em tratamentos médicos para diminuir o sofrimento de um paciente em coma. Ademais, apenas 2 mg do material é o suficiente para provocar overdose em um usuário.

Além de ser mais barato e menor, sendo fácil de ser transportado, o fentanil ainda dá uma grande margem de lucro para os traficantes, e para os próprios usuários, que se passam por revendedores. Em média, um quilo do material custa cerca de US$ 4 mil na China, rendendo lucros de até US$ 1,6 milhão nos Estados Unidos.

Custo x “benefício”

Uma pesquisa do Journal of the American Medical Association (Jama), publicada em 2014, levou em conta as respostas de 2.797 pessoas que encontravam-se internadas em centros e clínicas de reabilitação.

O estudo mostrou que os mais velhos começaram a usar drogas na década de 1960, já sendo iniciados diretamente com a heroína. Enquanto isso, os mais jovens, fizeram um caminho diferente, entrando no mundo dos opioides através de medicamentos prescritos por médicos. A “onda” foi um dos fatores mais importantes, segundo os entrevistados, para a escolha da heroína como uma das principais drogas, mas o determinante era a facilidade de acesso ao material.

A facilidade para que o fentanil seja fabricado também contribui para o fácil acesso de usuários à substância. O Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), apontou, em um relatório, que materiais e equipamentos para a produção da droga são facilmente obtidos pela internet, e abaixo custo, contribuindo ainda mais para a proliferação de medicamentos ilegais.

Crise dos opioides

Estima-se que mais de 2 milhões de americanos são viciados em opioides, fazendo com que o problema deixe de ser apenas relacionado à criminalidade ou ao controle de fronteiras, mas diretamente ligado à saúde pública.

Ademais, números de 2013 mostram que pelo menos 8 mil crianças nasceram com sintomas de abstinência em opioides. Enquanto isso, em 2015, 650 mil receitas prescrevendo a droga foram entregues diariamente para pacientes.

Quando é falado em opioides ou fentanil, não é apenas a esse tipo de substância que as pessoas se referem. O médico e pesquisador da Universidade de Toronto, David Juurlink, em entrevista publicada no site da Vox, em outubro de 2017, destacou que o nome “fentanil” passou a ser usado para falar de outras drogas com ações similares. “Há, literalmente, dúzias de compostos em circulação que realmente pertencem a uma classe chamada de fentanis — fentanil no plural”, disse Juurlink.

A dificuldade em lidar com opioides não chama a atenção apenas nos Estados Unidos. Na Austrália, um grupo de pesquisadores observaram grupos de usuários de drogas, sempre sob supervisão médica. Através desse monitoramento, a pesquisa concluiu que a overdose pela injeção de fentanil ocorria com uma frequência oito vezes maior do que pessoas que injetavam opioides prescritos. Se observado em comparação com a heroína, o risco de overdose foi duas vezes maior.

Já na Europa, de acordo com um relatório do Observatório Europeu da Droga e da Toxicodependência, desde 2009 foram encontrados 25 novos opiaceos no mercado de drogas, sendo que 18 eram derivados do Fentanil.

Rota das drogas

Enquanto a China é a maior produtora do fentanil encontrado nos Estados Unidos, o México é o principal provedor e responsável por fazer com que essa droga chegue até o solo americano.

De acordo com a DEA, os mexicanos controlam as rotas de tráfico de drogas para os Estados Unidos, principalmente na parte sudoeste da fronteira entre os países. Ainda segundo a agência, seis são os cartéis que têm o maior poder no mercado de drogas: o Cartel de Juaréz, Los Zetas, Cartel Nova Geração de Jalisco, Cartel do Golvo e a organização dos Beltrán-Levya.

Histórico do Fentanil nos Estados Unidos

Entre os anos 1970 e 1990, o mercado das drogas chamou a atenção por iniciar a venda ilegal de produtos que continham fentanil e substâncias similares, causando um número significativo de overdoses.

Um relatório de 2016 do Centro de Controle de Doenças (CDC) também chamou a atenção para o histórico da utilização de opiaceos desde 1999 até 2016. “A primeira onda de mortes começou em 1999 e incluiu as mortes envolvendo os opiaceos de prescrição. Ela foi seguida por uma segunda onda, com início em 2010, e caracterizada pelas mortes envolvendo a heroína. A terceira onda começou em 2013, com mortes envolvendo opiaceos sintéticos, particularmente o fentanil fabricado ilegalmente. O fentanil agora está sendo utilizado em combinação com heroína, pílulas falsificadas e cocaína”.

Fontes:
Washington Post-Wave of addiction linked to fentanyl worsens as drugs, distribution, evolve
Nexo - A nova droga na epidemia de overdoses nos EUA. E a situação no Brasil
IstoÉ - Cartéis do México controlam tráfico de drogas nos EUA
OnuBR - Risco de overdose por fentanil é duas vezes mais alto que por heroína, diz ONU

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