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Democracia dos EUA tem pouco a ensinar para a China

A visita do presidente Hu Jintao a Washington ocorre num momento em que muitos chineses veem seu gerenciamento da crise financeira como uma reivindicação do próprio sistema político chinês. Por Francis Fukuyama do Financial Times

Democracia dos EUA tem pouco a ensinar para a China
Hu Jintao e Barack Obama se reuniram nesta quarta-feira, 19, em Washington (Fonte: Reuters)

Na primeira década do século XXI, houve uma reversão dramática do prestígio atribuído aos diferentes modelos políticos e econômicos. Dez anos atrás, na véspera do estouro da bolha da internet, os EUA estavam no topo do mundo. Sua democracia era amplamente imitada, quando não idolatrada; sua tecnologia varria o mundo, e o capitalismo “anglo-saxão” levemente regulado era visto como a onda do futuro. Mas os EUA conseguiram desperdiçar esse capital moral em um período surpreendentemente curto: a guerra do Iraque e a estreita associação entre invasão militar e a promoção da democracia norte-americana manchou a reputação da última, enquanto a crise fincanciera de Wall Street pôs fim à ideia de que a auto-regulação dos mercados pode ser confiável.

Em contraste, a China avança a todo vapor. A rara visita do presidente Hu Jintao a Washington esta semana ocorre num momento em que muitos chineses veem seu gerenciamento da crise financeira como uma reivindicação do próprio sistema chinês, e como o início de uma era na qual as ideias liberais norte-americanas não serão mais dominantes. As empresas estatais estão em voga e foram os mecanismos escolhidos por Pequim para administrar incentivos fiscais maciços. A admiração automática por todas as coisas norte-americanas, que muitos chineses sentiam poucos anos atrás, deu lugar a uma visão muito mais crítica das deficiências dos EUA —  beirando, para alguns, até de desprezo. Assim, não é surpreendente que as pesquisas de opinião mostrem que cada vez mais chineses acreditam que seu país está indo na direção certa enquanto os EUA ficam para trás.

Mas qual é o modelo chinês? Muitos observadores casualmente o definem casualmente como uma espécie de “capitalismo autoritário”, semelhante ao que se vê na Rússia, no Irã e em Cingapura. Mas o modelo chinês é sui generis; seu modo específico de governar é difícil de descrever ou imitar, razão pela qual não está facilmente disponível para exportação.


 
A vantagem mais marcante do sistema político chinês é a sua capacidade de permitir que decisões complexas sejam tomadas rapidamente e executadas relativamente bem, pelo menos no que diz respeito à política econômica. Isso  fica ainda mais evidente no setor de infraestrutura, uma vez que a China tem conseguido erguer aeroportos, barragens, trens de alta velocidade e sistemas de distribuição de água e eletricidade para alimentar sua crescente base industrial. Compare isso com a Índia, onde cada novo investimento está sujeito a bloqueios por parte de sindicatos, grupos de lobby, associações de camponeses e tribunais. A Índia é uma democracia governada por leis, em que pessoas comuns podem se opor aos planos do governo; mas são os governantes da China que conseguem retirar mais de um milhão de pessoas de planícies inundadas por barragens sem que elas precisem fazer muito esforço. 

A qualidade do governo chinês é também muito maior do que os governos russo, iraniano, ou de outros regimes autoritários com os quais muitas vezes a China é confundida, precisamente porque os governantes chineses sentem algum grau de responsabilidade sobre sua população. Essa responsabilidade não é, evidentemente, processual.  A autoridade do Partido Comunista Chinês não é limitada por um Estado de Direito, ou por eleições democráticas. Mas, na medida em que os líderes chineses tentam conter as críticas públicas, eles também se esforçam para evitar o descontentamento popular, e ajustam suas políticas para alcançar esse objetivo. Eles estão mais atentos à classe média urbana e aos poderosos interesses comerciais que podem gerar empregos. Também reagem quando há indignação com casos flagrantes de corrupção ou incompetência de funcionários de baixo escalão do partido.

Na verdade, o governo chinês muitas vezes exagera na sua resposta ao que  acredita ser o anseio popular, precisamente porque, como observou um diplomata residente em Pequim, não há institutos– como eleições livres ou uma imprensa independente — para medir a sua dimensão. Em vez de nutrir uma relação comercial sensata com o Japão, por exemplo, a China reagiu com exagero em um caso de detenção do capitão de um barco de pesca no ano passado – aparentemente antecipando o popular sentimento anti-japonês dos chineses.

Transição democrática é improvável

Os norte-americanos esperam há muito tempo que a China possa passar por uma transição democrática, à medida que se torna mais rica e antes que fique poderosa o suficiente para se tornar uma ameaça estratégica e política para os EUA. Isto, entretanto, parece improvável. O governo chinês sabe como atender aos interesses das elites chinesas e das classes médias emergentes, alimentando o medo generalizado do populismo. É por isso que há pouco apoio para a criação de uma genuína democracia multipartidária. As elites veem o exemplo da democracia na Tailândia — onde a eleição de um primeiro-ministro populista levou a conflitos violentos entre seus partidários e o establishment — como um aviso do que poderia acontecer a eles.

Ironicamente, para um país que ainda afirma ser comunista, a China tem se tornado muito mais desigual nos últimos anos. Camponeses e trabalhadores braçais usufruem muito pouco do crescimento do país, enquanto outros são explorados impiedosamente. A corrupção é generalizada, o que agrava as desigualdades existentes. A nível local, existem inúmeros casos em que o governo conspira com especuladores imobiliários para tirar as terras de pobres camponeses. Isso contribuiu para a raiva reprimida que explode a cada ano em milhares de atos de protesto, muitas vezes violentos.

O Partido Comunista parece pensar que pode lidar com o problema da desigualdade social aprimorando a sua própria capacidade de responder às pressões populares.  A grande conquista histórica da China durante os últimos dois milênios foi ter criado um governo centralizado de alta qualidade, que é muito melhor do que a maioria de seus pares autoritários. Hoje, o governo chinês está canalizando os gastos com programas sociais para as regiões negligenciadas do interior, impulsionando o consumo e evitando uma explosão social. Tenho dúvidas se sua abordagem vai mesmo funcionar: qualquer sistema centralizado enfrenta dificuldades para monitorar áreas mais remotas. A obrigação de membros representativos de prestar contas a instâncias controladoras ou a seus representados só pode vir através de um processo de decentralização, ou aquilo que conhecemos como democracia. Este não é, na minha opinião, o caminho que a China seguirá a curto prazo. A longo prazo, no entanto, em face de uma eventual recessão econômica devastadora, ou da ascensão de líderes menos competentes ou mais corruptos, a frágil legitimidade do sistema poderia ser abertamente desafiada. As vantagens da democracia costumam ficar mais evidentes durante os momentos de adversidade.

Entretanto, para um modelo democrático, voltado para o livre mercado, prevalecer na China, os norte-americanos precisam reconhecer seus próprios erros e falsos juízos. Durante a última década, a política externa de Washington foi muito militarizada e unilateral, conseguindo apenas gerar um antiamericanismo destrutivo. Na política econômica, o reaganismo sobreviveu muito além de seus sucessos iniciais, produzindo apenas déficits orçamentários, cortes de impostos impensados e uma regulação financeira inadequada.

Estes problemas estão, em certa medida,  sendo reconhecidos. Mas há um problema mais profundo com o modelo norte-americano que não está nem perto de ser resolvido. A China se adapta rapidamente, toma decisões difíceis e as implementa de forma eficaz. Os norte-americanos se orgulham de pesos e contrapesos constitucionais, com base em uma cultura política que desconfia de um governo centralizado. Este sistema tem assegurado a liberdade individual e um setor privado dinâmico, mas agora tornou-se ideologicamente polarizado e rígido. Atualmente a democracia norte-americana mostra pouco apetite para lidar com os desafios orçamentários de longo prazo enfrentados pelo país. A democracia norte-americana pode ter uma legitimidade intrínseca que o sistema chinês não tem, mas não servirá de exemplo para ninguém se o governo estiver dividido e não conseguir governar. Durante os protestos de 1989 na Praça Tiananmen, em Pequim, os manifestantes ergueram uma pequena réplica da Estátua da Liberdade para simbolizar as suas aspirações. Se alguém na China vier a fazer o mesmo em alguma data futura dependerá de como os norte-americanos vão decidir encarar os seus problemas no presente.

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Fontes:
Financial Times - US democracy has little to teach China

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5 Opiniões

  1. jaderdavila the small shareholder disse:

    CUSTO.
    esta palavra define tudo na vida.
    o bolso nao tem ideologia,
    quando vc está no supermercado, vc quer é o mais barato e fim.
    qualque sistema de governo é bom, se o produto chegar mais barato na tua mao.
    a china conseguiu o custo mais barato do planeta.
    nao é pra imitar o governo deles, é pra imitar de que jeito que eles conseguem ser barato.

  2. Carlos U. Pozzobon disse:

    A China está em uma fase de transição que ninguém consegue antever com clareza os resultados do modelo. Mas o articulista não consegue separar as relações nas esferas governamentais entre EUA-CHINA da esfera do business. Por exemplo, não existe este desprezo chinês pelos americanos, porque eles sabem muito bem que devem sua revolução comercial e industrial aos EUA. Será que poderiam chegar a um ponto de ma-fé tal que possam achar que tudo o que possuem seja invenção deles mesmos? Especialmente quando sabemos que a China ainda é uma copiadora voraz de tudo o que é inventado no Ocidente.
    Fukuyama ignora o papel da integração Ocidente-Oriente no desenvolvimento chinês, e da dependência da China do Ocidente, muito mais do que o Ocidente deles. Embora a China tenha mais de 750 Institutos de pesquisa e hoje já dá mostras de capacidade de desenvolver novas patentes, ainda assim a iniciativa global no mercado de inovação é do Ocidente. Por isso, apesar de seus resmungos de superpotência, de sua autoconfiança arrogante, eles sabem que não lideram a inovação. E como a própria noção de tecnologia de consumo implica em um conjunto de conhecimentos que não tem valor isoladamente, alguém precisa dizer aos chineses que as coisas que eles fazem só tem sentido se contar com a nossa aceitação. O que significa baixar o tom de onipotência e soberba.

  3. Peter Pablo Delfim disse:

    Então onipotentes e soberbos somos todos pois os verdadeiros descobrimentos começaram lá com os homens da pedra lascada. Nas áreas da quimica e da medicina existem uma verdadeira revolução em matéria de descobertas mas que somente estão disponiveis a quem for muito rico. Até que esse conhecimento seja compartilhado com o comum dos mortais ainda se fará necessário muito tempo. O tempo necessário para que se alcance os volumes desejados em lucros. Portanto os meritos em realidade se resumem aos lucros pois pagamos por qualquer descoberta que supostamente venha a facilitar nossas vidas. Muitas dessas descobertas facilitam por um lado mas abrem espaços para complicaçoes por outro. Uma questão de manutenção de mercado. Fora a hipocrisia que cerca a questão nos resta os meritos de cepas duvidosas.De nada valem determinados meritos se inexistirem lucros, e lucros significam adequação de preços frente a um consumo impulsionado pelo baixo custo e lucro alto. A China resolveu bem a equação. Fez o dever de casa e agóra tem o direito de fabricar dinheiro embaixo da cama tal qual os EE.UU fazem a muitas décadas mas proibem que outros façam. Desta forma é uma temeridade das mais escabrosas e pouco adequada afirmar que a China deva algo aos EE.UU, somente insiste quem confunde China com Japão ou desconheça os fundamentos econômicos dos EE.UU.

  4. FRANCISCO J.B.SÁ disse:

    UM SISTEMA CENTRALIZADO É EFICIENTE NA PROPORÇÃO QUE O PAÍS E A SOCIEDADE NÃO SE TORNA MAIS E MAIS COMPLEXOS.
    A RIQUEZA E AS PROPORÇÕES DO PAÍS ATENDEM AS NECESSIDADES DE UMA CLASSE DIRIGENTE DENTRO DE SEU PARADIGMA,MAS NÃO PROVA QUE O POVO ESTÁ REALIZADO E FELIZ!SÃO MULTIPLAS AS NECESSIDADES DO HOMEM,
    MAS NA PROPORÇÃO QUE UMA SOCIEDADE SE DIFERENCIA E SE TORNA COMPLEXA – A CENTRALIZAÇÃO É FORÇADA A SE TORNAR FLEXÍVEL,SENÃO AS PARTES SE AFASTAM DO CENTRO CONTROLADOR!
    DISCORDO QUE A DEMOCRACIA É MAIS VÁLIDA NOS MOMENTOS MAIS CRÍTICOS.nÃO ACONTECEU ISTO COM A ALEMANHA,ORIGINANDO O NAZISMO E O DESASTRE DA 2ªGUERRA.NO BRASIL A DEMOCRACIA CAÍU EM 64 QUANDO AS CONTRADIÇÕES E AS NECESSIDADES DA SOCIEDADE COBRARAM MAIS DAS ELITES -GERANDO VINTE ANOS DE DITADURA E DE ATRASO E CRESCIMENTO DOS PROBLEMAS SOCIAIS.
    A DEMOCRACIA NECESSITA DE UMA RELATIVA PARTICIPAÇÃO E INTEGRAÇÃO PARA DAR CERTO.
    A CHINA E SUA HISTÓRIA É UMA HISTÓRIA DE DOMINAÇÃO E CARÊNCIAS.A DOMINAÇÃO PELO ESTADO ASSENTOU-SE EM UMA CULTURA TRADICIONALMENTE DOMINADA,POR ISSO VINGOU!
    A RESPOSTA DO FUTURO DA CHINA NÃO ESTÁ EM SUA EFICIÊNCIA ECONÔMICA PRESENTE,MAS NA INCÓGNITA QUE REPRESENTA AS SUAS NECESSIDADES FUTURAS APÓS A SATISFAÇÃO ECONÔMICA DO SISTEMA CENTRALIZADO!QUALQUER CONSIDERAÇÃO É PRECOCE EM TERMOS HISTÓRICOS E CEDO DO PONTO DE VISTA CULTURAL!

    FRANCISCO J.B.SÁ
    PESQUISADOR E ALUNO ESPECIAL EM ANTROPOLOGIA(UFBA)

  5. Peter Pablo Delfim disse:

    Pela Santa Sé, meu caro pesquisador e aluno especial em antropologia! Mas qual da histórias não é uma história de dominações e carências? Centralização sempre foi e será, evidentemente, inversamente proporcional ao crescimento. Entretanto outra coisa é acessar necessidades e responder as mesmas quando em seu unuverso existem 1.300.000 de pessoas. Um núcleo de decisões, competente e aparelhado tem de se fazer sentir mesmo via câmaras setoriais com seus núcleos em escolas, bairros ou estados. O atendimento das necessidades inerentes aos seres humanos que compõe esta sociedade fatalmente alcançará um patamar identico aos alcançados por outras sociedades assim como EE.UU, európa e nem por isso se tece qualquer duvida sobre seus desdobramentos. A civilização é generosa em exemplos tanto em tempos antigos como o faz modernamente. Transformações são a tônica do desenvolvimento e a discriminação o erro basico. Do contrário sempre será cedo ou tarde demais para qualquer ação no estabelecimento do reinado da palavra. Quem tenta, se alinha e trabalha no sentido da modernidade são os EE.UU enquanto a China é a inovação.

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