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Ásia Central

Depósitos de urânio abandonados ameaçam a saúde da população no Quirguistão

Uma grande região sofre com o legado radioativo da antiga União Soviética

Depósitos de urânio abandonados ameaçam a saúde da população no Quirguistão
Habitantes da região de Mailuu-Suu convivem com resíduos radioativos (Foto: Flickr)

“Você tem um medidor de radiação?” perguntou a médica Emilkhan Osekeeva, enquanto caminhava pela rua de terra de Engels Street. “A mulher que morava nesta casa morreu de câncer de estômago”, disse apontando para uma casa de tijolos à direita. “O filho mais novo morreu de leucemia antes de fazer 30 anos. Na casa à esquerda uma mulher também morreu de câncer de estômago. Mais à frente uma mulher morreu de câncer de útero.”

Dra. Osekeeva exerce a medicina há 38 anos neste vale com uma paisagem idílica no sul do Quirguistão, onde já presenciou centenas de mortes. “Os casos de câncer estão aumentando e acho que sei o motivo,” disse a médica. Enterrado no rio que percorre Mailuu-Suu, uma cidade com cerca de 20 mil habitantes, esconde-se o legado venenoso das primeiras bombas atômicas da antiga União Soviética: 2 milhões de metros cúbicos de resíduos radioativos misturados ao sistema de abastecimento de água da cidade.

Mailuu-Suu ficou fechada por algum tempo ao contato externo. Seus trabalhadores bem remunerados eram tratados como membros da elite e tinham privilégios como cerveja de graça ou férias nas praias da Crimeia. Através dos anos, eles extraíram 10 mil toneladas de minério de urânio pronto para ser convertido em carga físsil de bombas atômicas. O urânio era enviado para lugares distantes como a Alemanha Oriental e a Checoslováquia para ser processado nesses países.

Com o colapso da União Soviética e da indústria local em 1991, os especialistas partiram. A supervisão dos 23 depósitos de resíduos radioativos da cidade passou a ser esporádica. As cercas e os sinais de alerta foram transformados em sucatas de metal. Hoje, as vacas pastam em cima dessa ameaça invisível. As cabras dormem dentro de uma mina de urânio abandonada. Os laticínios e a carne vendidos no mercado local não têm uma procedência segura; das torneiras das pias das cozinhas saem a água do rio lodosa misturada com metais pesados.

 

Fontes:
The Economist-Poisoned legacy

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