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TRAGÉDIAS

Diante da dor dos outros neste mundo em tudo desigual

Uma regra não escrita sobre a pragmática do jornalismo e outra, semelhante, sobre o respeitável público, não necessariamente nessa ordem

Diante da dor dos outros neste mundo em tudo desigual
Presidente do México, Enrique Peña Nieto, visita áreas afetadas pelo pior terremoto em no país em quase 100 anos (Foto: Presidencia de la Republica)

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Ao contrário do que se previa, o furacão Irma atravessou furioso, pero no mucho, o estado americano da Flórida. O fenômeno foi perdendo força à medida que parecia exauri-las também das ilhas do Caribe, sobre as quais passou classificado na categoria cinco, com ventos de quase 300 quilômetros por hora, deixando pelo menos 38 mortos e mergulhando, literalmente, e da noite para o dia, vários países e territórios em uma dramática crise humanitária.

Quando começou a envergar as palmeiras de Flórida Keys, o Irma acabara de ser rebaixado à categoria quatro, com os ventos girando, literalmente, em torno de 200 quilômetros por hora. Logo depois caiu para a categoria três, dois, e antes de chegar à cidade de Tampa já havia descido à categoria um.

Quem acompanhou os telejornais, os jornais e os canais jornalísticos da TV paga brasileira, os que nunca desligam, pôde notar, entretanto, que o furacão Irma foi perdendo força na proporção inversa da escalada do noticiário sobre seus efeitos e sua rota.

A julgar pela cobertura da imprensa nacional (mas também da internacional) sobre o Irma, confirma-se mais uma vez uma regra jamais escrita — pelo menos não claramente — do jornalismo tal e qual ele se conformou como forma de conhecimento que é imagem, sim, mas também espelho desse mundo em muito contraditório e em tudo desigual: importa menos o tamanho da desgraça do que a latitude onde ela pode ocorrer.

Na falta da grande catástrofe que o Irma poderia ter causado nos EUA — para além de imensos transtornos, grandes prejuízos, 12 mortos e um massivo deslocamento populacional — o resultado foi um contraste um tanto insólito entre as imagens amadoras de absoluta devastação, pânico e luta pela sobrevivência que chegavam do caribe e as reportagens profissionais com curiosidades sobre as famílias brasileiras que tiveram férias frustradas na Disney, sobre as variações dos preços dos hotéis nos estados americanos vizinhos da Flórida e até sobre uma convocatória pelo Facebook para que os americanos tentassem repelir à bala o poderoso furacão, para não falar da polêmica selfie da correspondente da Rede Globo Sandra Coutinho sorrindo na Ocean Drive, em Miami, com o furacão chegando atrás de si.

O insólito contraste aumenta quando se lembra (e alguém ainda se lembra, apesar de ter sido há poucos dias?) que a costa sul do México foi devastada pelo maior terremoto que atingiu o país em quase 100 anos, deixando cerca de 100 pessoas mortas. Trata-se de um tipo de incômodo traduzido e sintetizado no título de uma reportagem publicada em meio a todas essas e outras tormentas pelo jornal El Pais: “Por que nos esquecemos das vítimas de catástrofes da Índia e do continente africano?”.

‘Qual o pior inferno?’

Na reportagem, a jornalista Gemma Solés I Coll lembra que: “De acordo com a Organização Mundial de Saúde, os desastres naturais exacerbados pela mudança climática provocam 60.000 mortes por ano, com uma incidência maior nos países com índices mais baixos de desenvolvimento. Segundo um índice anual elaborado pela universidade norte-americana Notre Dame, os países mais vulneráveis à mudança climática são a República Centro-africana, Chade, Eritreia, Burundi e Sudão, seguidos pelo Iêmen, Afeganistão e a República Democrática do Congo. E tal como alerta a Iniciativa de Crescimento da África, do Brookings Institution, o continente tem sete dos 10 países mais vulneráveis à mudança climática”.

Nada de novo no olho do Hurricane, no epicentro do sismo ou no front, tendo em vista que aquela regra jamais explicitada em qualquer manual de pragmática do jornalismo vale para as catástrofes ditas “naturais” como para as tragédias demasiado humanas. O mesmo tipo de incômodo emerge sempre que atentados terroristas na Europa suscitam ampla atenção midiática e comoção planetária (necessariamente nessa ordem?) enquanto a cada dia banalizam-se mais e mais as carnificinas em países como Iraque e Síria. Nem mesmo a imagem chocante do menino branco e calçado Alan Kurdi como que dormindo, mas afogado, morto numa praia da Turquia, foi capaz, como se cogitou à época, de mobilizar o mundo para pôr termo ao desespero em seu país natal.

Em um precioso ensaio intitulado Diante da Dor dos Outros, a americana Susan Sontag contou como certa vez um fotógrafo profissional indignou os habitantes de Sarajevo quando resolveu organizar na cidade uma exposição com fotos do sofrimento deles próprios, os habitantes de Sarajevo, durante os anos de sítio, lado a lado com fotos da desgraça humanitária na Somália: “Pôr seus sofrimentos lado a lado com os sofrimentos de outro povo significava compará-los (qual o pior inferno?), rebaixar o martírio de Sarajevo a mero exemplo. As atrocidades ocorridas em Sarajevo nada tinham a ver com o que se passava na África, exclamavam eles”.

Sontag pondera que certamente havia um viés racista na indignação daquela gente, mas não apenas: “Eles também teriam protestado se fotos de atrocidades cometidas contra civis na Tchetchênia ou no Kosovo, na realidade em qualquer outro país, tivessem sido incluídas na exposição. É intolerável ter o próprio sofrimento comparado ao de outra pessoa”.

Em suma: diante da dor dos outros, antes de tudo queremos saber da nossa, ou, na falta dela (na falta de nossos próprios terremotos e furacões) daquela de quem, assim supomos, mais se parece com a gente, está mais próximo do respeitável público que somos, independentemente de latitudes e de apartheids como política ou como metáfora. É uma regra não escrita sobre nós, imagem, sim, mas também espelho que somos desse mundo em muito contraditório e em tudo desigual.

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1 Opinião

  1. jan disse:

    Interessante, essa regra foi descrita por Adam Smith vários seculos atras no livro A Teoria dos Sentimentos Morais, na verdade o livro mais importante dele mas que foi ofuscado pelo Uma Investigação sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações. Infelizmente Adam Smith tem sido esquecido causando um grande prejuízo ao mundo moderno.

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