Início » Internacional » Direita questiona: ‘Há diferença entre transexual e transracial’?
Guerras culturais

Direita questiona: ‘Há diferença entre transexual e transracial’?

Nos EUA, conservadores irritam a esquerda com paralelo entre os casos da transexual Caitlyn Jenner e o da ex-loura que se identifica como negra, Rachel Dolezal

Direita questiona: ‘Há diferença entre transexual e transracial’?
Caitlyn Jenner na capa da Vanity Fair e Rachel Dolezal: 'se transgênero pode, por que não transracial', argumenta a direita (Foto montagem: Reprodução/Washington Post)

“Por que o transexual Caitlyn Jenner virou um herói cultural enquanto Rachel Dolezal, a mulher branca que se identifica como negra, é chamada de charlatã pela opinião pública americana?” “Se não há problema em ser transexual, o que há de errado em ser “transracial?”. Esses questionamentos foram lançados pela direita americana à esquerda neste último fim de semana, fazendo um paralelo entre dois casos que dominaram o noticiário do país: o de Caitlyn Jenner — atleta olímpico conhecido como Bruce antes de mudar de sexo e virar Caitlyn – e o da presidente regional da NAACP (a principal ONG americana em defesa dos direitos dos negros), que nasceu loura, mas se identifica como negra.  “Se a esquerda apoia o transexual, por que não a transracial?”, provoca a direita.

A esquerda mordeu a isca, e os casos de Jenner e Dolezal foram para sempre interligados. Na revista People, por exemplo, uma psicóloga se esforçou para explicar “por que o caso de Rachel Dolezal não pode ser comparado ao de Caitlyn Jenner.”

“‘A maioria das pessoas que é transgênera, o que pode acontecer a partir dos 4 ou 5 anos de idade, acredita ter nascido com a anatomia errada”, disse Asa Derald Sue. “Eu não vejo isso com Dolezal.”

Há sim uma diferença básica entre os dois casos aceita por todos : Dolezal se auto-identificou como “negra” para conseguir o cargo na NAACP e está sob investigação pelas autoridades locais por suposta fraude.  Ela alegou ter um pai negro, mas é filha de um casal branco de Montana que diz não entender a desonestidade da filha.  A história de Dolezal veio a público na semana passada, depois que ela se recusou a responder quando uma repórter indagou: “Você é afro-americana?”.

Jenner não mentiu sobre seu passado. E embora Dolezal possa ser “transracial”, este termo, que é muito menos aceito, pode não ter significado algum.

Por outro lado, essas duas figuras públicas são semelhantes no sentido de que acabaram se tornando algo muito diferente do que o que a maioria pensava que eram. E horas depois que a história de Dolezal estourou no noticiário, muitos estavam usando ela e Jenner como bucha de canhão nas guerras culturais americanas.

 O argumento da direita 

“Apenas na semana passada, o presidente dos Estados Unidos felicitou Bruce Jenner em sua corajosa decisão de fingir ser uma mulher, e toda a esquerda explodiu em espasmos de êxtase frente à decisão coletivamente insana de ratificar a noção de que os homens podem tornar-se magicamente mulheres”, escreveu Ben Shapiro no site conservador Breitbart, em um post intitulado sarcasticamente “Tudo o que você precisa saber sobre a herói transracial Rachel Dolezal“. “Hoje, toda a esquerda está lutando para explicar como uma mulher branca que se identifica como negra não é, de fato, negra. ”

O argumento da direita sobre Dolezal é uma resposta a uma sociedade que acabou de festejar a transformação de Jenner com uma entrevista muito elogiada e uma capa na revista Vanity Fair. Na visão conservadora, há uma verdade objetiva: Jenner é homem; Dolezal é branca. Como o primeiro pode ser elogiado enquanto a segunda, criticada?

“Não vejo ninguém famoso defendendo a bravura ou a coragem de Dolezal”, escreveu Sean Davis no site conservador thefederalist.com. “Isso, naturalmente, nos leva a Bruce/Caitlyn Jenner. Como, exatamente, o que Dolezal fez é diferente do que Jenner está fazendo atualmente? Rachel Dolezal não é negra, e Caitlyn Jenner não é uma mulher.”

“E, no entanto, a esquerda e os meios de comunicação querem nos fazer crer que Bruce Jenner pode se tornar uma mulher, mudando seu nome, seu guarda-roupa, sua maquiagem e seu cabelo. Como você pode conciliar logicamente a crença de que Jenner é um herói enquanto Dolezal é uma doente mental? Bem, você não pode “.

“Aqueles que são simpáticos a Jenner terão um problema prático se começarmos a levar a sério as reivindicações de pessoas que se sentem mais confortáveis ​​fingindo ser o que não são”, escreveu Charles CW Cooke no National Review, comparando Dolezal a Jenner. “Por quê? Bem, porque os nossos apelos atuais pela aceitação não se baseiam principalmente na integridade da verdade objetiva, mas na percepção da necessidade de agradar a pessoa que está fazendo a reivindicação. Na linha de frente dessas batalhas, a ciência torna-se, francamente, uma reflexão tardia.”

Fontes:
The Washington Post - The surprising ways Caitlyn Jenner and Rachel Dolezal are now linked

4 Opiniões

  1. Leonardo disse:

    “Na visão conservadora, há uma verdade objetiva: Jenner é homem; Dolezal é branca.”

    Na visão liberal, não é assim? Se a pessoa tem cromossomo Y, é homem. Pode fazer quantas cirurgias quiser, que ainda assim os cromossomos sexuais em todas as suas células continuará sendo o par XY. Ou seja, o sexo de Jenner é masculino. Se o “gênero” é feminino, aí é outra coisa, porque esse conceito não é biológico. Se inventarem um processo para substituir o cromossomo Y por X nas células das pessoas (e talvez fazer seu corpo desenvolver útero e ovário) aí eu concordo que um homem pode se tornar mulher.

  2. Roberto1776 disse:

    A esquerda sempre vai se dar mal porque é uma ideologia e como ideologia sempre pode ser questionada.
    Por outro lado, a direita nada mais é do que a representação da vida real.
    A vida real pode ser bem cruel, mas nada mais é do que a realidade, que tudo mundo, exceto os que tem os pés no chão, abomina.

  3. Ludwig Von Drake disse:

    Pierre Verge era um francês que escolheu Salvador para morar e foi feito sacerdote por uma tribo africana. Lamentava ser branco (um racionalista miserável, dizia ele). Era um legítimo afro-brasileiro com pedigree gaulês. Moral da história: a mente humana não está presa no corpo.

  4. Guilherme disse:

    Ótimo post. Por isso frequento este espaço, sempre há boas noticias que são esquecidas pelos grandes portais.
    È bom para refletir.

Sua Opinião

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados *