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AMÉRICA LATINA

A disputa pela supremacia no triângulo do lítio

Chile, Argentina e Bolívia detêm 54% da reserva global de lítio, mas têm abordagens bem distintas em relação à exploração do recurso

A disputa pela supremacia no triângulo do lítio
O chamado ‘triângulo do lítio’, envolve Argentina, Bolívia e Chile (Foto: miningpress)

O lítio é uma commodity cobiçada. Ele é o recurso essencial para a produção de baterias para smartphones, carros elétricos e ouros dispositivos eletrônicos. Segundo Joe Lowry, presidente da Global Lithium, a demanda pelo recurso vai triplicar até 2025.

Em contraponto a esse aumento, a oferta de lítio está encolhendo, o que levou ao aumento do preço da commodity. Somente em 2017, o preço para contratos de compra do recurso dobrou, segundo o jornal Industrial Minerals, periódico especializado em commodities.

Esse cenário está atraindo investidores de diferentes partes do mundo para o chamado “triângulo do lítio”, que envolve Argentina, Bolívia e Chile. Juntos, esses países concentram 54% da reserva global de lítio. Porém, os três não compartilham a mesma abordagem em relação à exploração do recurso.

Entusiasta do livre mercado, o Chile está em posição de vantagem, enquanto a Argentina tenta avançar sua produção. Já a Bolívia mal começou a explorar suas reservas. Essa diferença de abordagem dá um vislumbre de como os três países sul-americanos tratam o empreendedorismo e o investimento.

O Chile domina o mercado de lítio há décadas. O deserto do Atacama guarda a reserva de lítio mais extensa e de maior qualidade do mundo. Para completar, o Chile está muito melhor que seus vizinhos em rankings que avaliam a facilidade em fazer negócios no país, os níveis de corrupção e a burocracia.

Porém, a posição chilena de produtor mundial de lítio é ameaçada pela ascensão da Austrália na exploração do recurso. Isso porque, apesar de ser bem mais inclinado ao livre comércio do que seus vizinhos, o Chile é menos liberal quando se trata de lítio, do que em relação ao cobre, o principal produto de exportação do país. Tal fato se deve a leis criadas nas décadas de 1970 e 1980, que colocaram o lítio no rol de recursos estratégicos para serem usados em futuros programas nucleares.

Além disso, o controle da produção de lítio é uma questão de proteção aos frágeis ecossistemas dos desertos chilenos. Somente duas empresas, a chilena SQM e a americana Albemarle, são autorizadas a explorar as reservas chilenas sob um contrato de concessão feito na década de 1980. O contrato determina uma cota máxima de exploração do recurso.

A Argentina, por sua vez, tenta se desvencilhar da antiga política protecionista de Cristina Kirchner e se tornar um mercado atraente para a exploração de lítio. Atualmente, pela Constituição do país, as províncias, não o governo federal, são donas dos recursos minerais encontrados em seu território. Esse método joga os investidores em uma confusa teia de legislações que muda de acordo com cada província. O atual presidente Mauricio Macri tentou desbloquear o acesso aos investidores em vários ramos, o que inclui a exploração de lítio. Logo que chegou ao poder, ele iniciou uma investida para flexibilizar o controle cambial e remover taxas sobre as exportações. Tal fato deu aos governos das províncias estímulo, e eles passaram a autorizar de forma mais rápida a permissão para extração e exploração de lítio em seus territórios. O próximo passo será harmonizar a legislações das províncias.

Quando foi fundada, no século XVI, no alto da Planície Andina, a cidade de Potosí, no sudeste da Bolívia, foi declarada “um tesouro do mundo, rainha de todas as montanhas e alvo de inveja de todos os reis”. Suas amplas reservas de prata financiaram por muito tempo o império espanhol. Hoje, as reservas de lítio são o alvo da cobiça, mas o governo boliviano é menos receptivo aos exploradores do que no período colonial. O governo do presidente Evo Morales nacionalizou partes das empresas de petróleo e gás e companhias de telecomunicações e de energia.

Esse controle é ainda mais rígido em relação ao lítio, principal produto de exportação do país. Desde 2010, o acesso à exploração das reservas de lítio é restrito ao governo. As empresas privadas não podem fazer mais do que observar de longe a reserva de lítio de Uyuni. Localizada próximo a Potosí, ela é considerada a maior do mundo.

O governo boliviano espera fechar parcerias com empresas privadas para produção de produtos de valor agregado, como baterias e carros elétricos. A parceria seria feita através da empresa estatal Yacimientos de Litio Bolivianos. Porém, a insistência do governo em manter uma participação na exploração desencoraja investidores.

Apesar disso, o governo Morales vem tomando algumas medidas para atrair investidores. Uma lei implementada em 2014 autorizou contratos bilaterais entre o governo e empresas privadas (embora a lei não contemple o lítio). Outra lei determina as regras para mediar disputas entre investidores estrangeiros e o Estado, o que reduz a incerteza gerada após a retirada da Bolívia de acordos internacionais.

Ainda falta um longo caminho até que a Bolívia consiga competir com a Argentina e o Chile pela supremacia no triângulo do lítio. Mas, se o governo continuar com a abertura, pode ser que um dia Potosí retome os dias de glória vividos no século XVI.

Fontes:
The Economist-A battle for supremacy in the lithium triangle

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2 Opiniões

  1. laercio disse:

    A premissa é que qualquer sustenta produtivo tem que trazer ocupação e renda para o povo!
    Não serve ser o maior dono da reserva se não houver benefício para a população.
    Vemos o drástico exemplo do Brasil, um país continental, com rios, muita terra, grande litoral e verão praticante todo ano, mantém uma população de joelhos, a cada dia cresce o número de moradores de rua, usuários de drogas, prostituição, aumento do número de presidiários, etc…
    A maior riqueza que um país pode ter é sua relação de seriedade com o povo, punindo quem deve ser punido e auxiliando os esforçados.

  2. Sergio Becker disse:

    Produzir, não importa quem o faça com a condição que sirva ao povo. Ou em palavras do povo : produzir batatas , não importa quem o faça desde que seja para alimentar ao povo.

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