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Disputa por língua oficial desencadeia crise em Camarões

País registra centenas de mortes e detenções por conta da disputa entre anglófonos e francófonos

Disputa por língua oficial desencadeia crise em Camarões
Protestos pacíficos se tonaram violentos depois da repressão do governo (Foto: AFP/Getty Images)

Camarões vive uma crise gerada pela disputa de identidade e língua oficial do país entre anglófonos e francófonos.

Em janeiro do ano passado, o advogado e ativista pelos direitos dos falantes de língua inglesa Felix Agbor Nkonho foi preso por participar da organização de protestos pacíficos.

Nkonho poderia pegar pena de morte pelas novas leis antiterrorismo, mas foi solto oito meses depois, pelo presidente camaronês, Paul Biya, que o absolveu de todas as acusações.

A prisão de ativistas anglófonos, como Nkonho, é parte da tentativa do governo de Camarões de reprimir protestos nas duas regiões anglófonas  de Camarões, que ameaçam se emancipar para criar um novo país, a Ambazonia.

Os protestos tiveram início como uma demanda para que a língua inglesa fosse usada em tribunais e escolas públicas, mas evoluíram para uma crise de identidade nacional, que já resultou na morte de centenas de pessoas e na prisão de inúmeros manifestantes. Outras milhares de pessoas escaparam para a vizinha Nigéria.

Início dos protestos

Há um ano, advogados de Bamenda (capital de uma das regiões anglófonas) foram às ruas em protesto após um grupo de falantes de francês ser indicado para tribunais anglófonos.

Logo em seguida, professores se juntaram aos advogados. Eles alegavam que francófonos com pouco conhecimento de inglês estavam sendo contratados nas escolas públicas anglófonas.

Os protestos começaram pacíficos, mas ficaram violentos quando o Estado entrou com a força de segurança, segundo Maximilienne Ngo Bem, diretora da Redhac, coalizão a favor dos direitos humanos na África Central.

Após meses, o presidente Paul Biya disse que o diálogo era a melhor forma de resolver a crise e prometeu descentralizar o poder. Mas ele disse que aquelas pessoas que usavam armas deveriam ser combatidas e parabenizou as forças de segurança por sua “bravura, determinação e profissionalismo”.

Biya não mencionou as 40 pessoas mortas e os outros cem que ficaram feridos durante os protestos pacíficos de 1° de outubro de 2016, quando a Frente Unida dos Camarões do Sul declarou a independência simbólica das duas regiões anglófonas, formando a Ambazonia. O governo fechou as fronteiras antes de colocar em ação uma unidade de força que geralmente luta contra o Boko Haram.

A repressão em outubro ao longo da fronteira com a Nigéria fez com que cerca de 20 mil fugissem para o país vizinho. A Agência para Refugiados das Nações Unidas aguarda a chegada de mais 40 mil pessoas. Ativistas estimam que mil pessoas estejam detidas e mais de 100 tenham sido mortas, uma estimativa bem mais alta que a oficial.

Entenda o contexto

Quando a corrida colonial apara a África começou, a Alemanha conseguiu dominar o que chamou de “Kamerun”, mas depois da Primeira Guerra Mundial, o território foi confiscado pelos franceses e ingleses. Os franceses assumiram a maior parte.

Na independência de 1961, as Nações Unidas fizeram um referendo, dando aos anglófonos de Camarões a escolha de ficar na Nigéria ou em Camarões francófono. Sem opção pela independência, eles escolheram ficar com os francófonos para, juntos, formarem uma República. Mas logo os anglófonos se deram conta de que a situação não seria igualitária. A ideia da Ambazonia surgiu na década de 1980, mas ganhou força nos últimos meses.

Fontes:
The Guardian-Deaths and detentions as Cameroon cracks down on anglophone activists
University of Notre Dame-Human rights lawyer Felix Agbor Nkongho, ’06 LL.M., released from prison in Cameroon

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1 Opinião

  1. André Luiz.'. disse:

    Enquanto isso, em países bilíngues/trilíngues como Canadá, Bélgica, Suíça e outros segue a normalidade (se bem que tanto no Canadá como na Bélgica de vez em quando separatistas levantam a bandeira de estados independentes — na francófona Quebec em um caso, e no norte flamengo da Bélgica de outro…!)
    Se o Brasil goza de unidade nacional em toda sua extensão territorial, se deve em grande parte ao Marquês de Pombal, que conseguiu impôr o português como idioma oficial em todo o país! Isso foi realmente um grande feito!

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