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Doenças mentais deixam de ser tabu na China

Na China, os doentes mentais e as pessoas que sofrem de problemas crônicos como depressão eram vistos como uma ameaça à sociedade

Doenças mentais deixam de ser tabu na China
A maioria das pessoas com doenças mentais na China não recebe tratamento (Foto: Pexels)

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No ano passado, Li Tian (um nome fictício) ficou internada um mês em um hospital para doentes mentais. Ela sofria de depressão há anos, mas a sensação de prostração física ou abatimento moral era moderada. Porém Hangzhou, a cidade onde Li vive na região leste da China, começou a se preparar para receber a visita de líderes mundiais que iriam participar da conferência de cúpula do G20.

Li controla a doença com medicação, mas de acordo com as autoridades ela era mentalmente “instável”, porque havia passado três meses internada em um hospital psiquiátrico para tratamento de depressão pós-parto há alguns anos.

O governo queria evitar qualquer manifestação pública que prejudicasse a organização de um evento tão importante. Então, “alguém da comunidade” visitou seu pai, disse Li, e “sugeriu” que ela deveria ser internada em um hospital psiquiátrico. Os doentes mentais ou pessoas com problemas psíquicos ainda são vistos como uma ameaça à sociedade na China.

Mas Li Tian tem sorte de manter seu distúrbio psíquico sob controle com medicamentos. A maioria das pessoas com doenças mentais na China não recebe tratamento. Existe um estigma associado a essas doenças. Alguns pensam que os doentes mentais estão possuídos por espíritos malignos. Muitos veem os distúrbios mentais como um sinal de fraqueza socialmente contagioso. O parente de alguém com um problema mental tem dificuldade de casar. Às vezes, as famílias enviam os parentes doentes para serem tratados em lugares distantes, a fim de esconder a “vergonha” de sua doença, ou os mantêm escondidos em casa. Até estudantes de medicina receiam que seus colegas que atendem pacientes psiquiátricos possam ser contaminados pela doença deles, disse Xu Ni da It Gets Brighter, uma ONG de atendimento a doentes mentais em Pequim.

Mas Li consulta um médico duas vezes por ano. Ela participa de reuniões diárias no Chaoming Street Rehabilitation Centre, um centro de atendimento a pessoas com problemas psiquiátricos. Lá, Li fala sobre sua doença, compartilha suas experiências e aprende novos conhecimentos.

Porém o centro é um dos poucos locais desse tipo na China. O país tem condições péssimas de tratamento de doenças mentais. O sistema psiquiátrico perdeu o apoio do Estado e desestruturou-se depois que os comunistas assumiram o poder em 1949. Durante o governo de Mao, as pessoas com sintomas de depressão eram muitas vezes vistas como traidoras da causa socialista que, em tese, deveria ser um motivo de entusiasmo geral.

Essa atitude está começando a mudar à medida que as pessoas têm mais percepção da gravidade da doença mental no país. Os tratamentos ambulatoriais aumentaram em mais de 10% no período de 2007 a 2012. O uso de antidepressivos está aumentando com rapidez. Os jovens urbanos instruídos usam cada vez mais a internet como fonte confidencial de ajuda e orientação para seus problemas psíquicos.

O governo também está fazendo um esforço maior para lidar com o problema. Em 2004, as autoridades lançaram um programa destinado a aumentar o número de postos de atendimento psiquiátrico, com médicos à disposição dos pacientes, ao contrário do centro Chaoming. Algumas províncias dão medicamentos grátis para pessoas com esquizofrenia, transtorno bipolar e outros distúrbios. Em 2012, depois de anos de discussões, a China aprovou sua primeira lei referente à saúde mental.

A lei prevê a criação de mais clínicas e postos de atendimento, com mais funcionários e uma maior conscientização do problema da saúde mental em escolas, universidades e locais de trabalho. A lei se opõe à internação de pacientes sem o consentimento deles. Segundo estimativas, quando a lei foi aprovada, cerca de 80% dos pacientes de hospitais psiquiátricos tinham sido internados contra a vontade.

Fontes:
The Economist-China wakes up to its mental-health problems

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