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Em carta, pai conta ao filho o que é ser um negro americano em 2015

Em seu livro recém-lançado 'Between the World and Me', Coates escreve ao filho adolescente. A carta começa com a infância do autor em Baltimore, no auge da epidemia de crack

Em carta, pai conta ao filho o que é ser um negro americano em 2015
Coates escreveu um livro poderoso, em que relata os pesadelos noturnos que o atormentam por ser pai de um adolescente negro nos EUA (Foto: Wikipedia)

O massacre de negros em uma igreja em Charleston, a morte de um negro por asfixia cometida por um policial de Nova York por ele ter vendido cigarros sem impostos, os tiros de diversos policiais em homens negros desarmados, os tumultos em Baltimore e em Ferguson, Missouri, depois da morte de um jovem negro por policiais: esses acontecimentos provocaram momentos de intensa reflexão nos Estados Unidos sobre o preconceito racial.

Em 2014, no ensaio ‘The Case for Reparations’ publicado em Atlantic Monthly, uma revista literária e cultural, Ta-Nehisi Coates descreve como as cidades do norte onde os negros refugiaram-se durante a grande migração do sul, imaginaram maneiras de dificultar a vida dos recém-chegados. Em seu livro recém-lançado Between the World and Me, Coates escreve uma carta ao filho adolescente sobre o que significa ser negro nos EUA, em 2015.

A forma epistolar não é o único detalhe arcaico do livro de Coates. Ele escreve com a indignação torrencial de um defensor de direitos humanos vitoriano. A prosa é loquaz, repetitiva e, às vezes autoindulgente, mas a leitura é instigante. A carta começa com a infância do autor em Baltimore, no auge da epidemia de crack. Todos têm um medo constante. Esse medo é o resultado de 250 anos de maus-tratos, chicotadas, queimaduras, tiros e prisões, disse o autor.

Coates não exime de culpa as pessoas bem-intencionadas por sua participação na mutilação de corpos de negros, mesmo que seja indireta. Em um trecho que, com certeza, lhe dará certa notoriedade, ele descreve como olhou as nuvens de fumaça que cobriam Manhattan em 11 de setembro, pouco depois de um conhecido da faculdade, que estava desarmado, ter sido morto por um policial à paisana. “Não vi diferença entre o policial que o matou e a polícia que morreu, ou dos bombeiros que morreram. Eles não eram seres humanos. Negros, brancos, ou qualquer que fosse a cor ou a raça, eram ameaças da natureza, que poderiam, sem justificativa, destruir meu corpo”. A honestidade merece elogios, mas não o que revela.

Coates pede ao filho que não se esqueça que a escravidão não era uma massa indefinível de carne, e sim ‘uma escrava que amava a mãe, apesar dos sentimentos ambíguos, achava que a irmã falava alto demais e tinha uma prima preferida’. O mesmo podia ser dito dos escravocratas. Com essa ideia de culpa tão disseminada, Coates apazigua as consciências dos que prendiam as correntes, apertavam o nó e batiam com cassetetes nos escravos e as pessoas que davam as ordens que eles cumpriam.

Coates escreveu um livro poderoso, em que relata os pesadelos noturnos que o atormentam por ser pai de um adolescente negro nos EUA sob ameaça constante. Ele tem razão em dizer que ainda há ecos de escravidão nos EUA. Mas são ecos, não um fato real e, portanto, existe esperança que a violência recente contra os negros, que estimulou a publicação deste livro, possa também ser abolida.

Fontes:
The Economist-Letter of despair

4 Opiniões

  1. Ludwig Von Drake disse:

    Os negros precisam se reconciliar com a própria história. A escravidão da era moderna foi um empreendimento africano que ainda perdura em África. Os brancos apenas lucraram mais porque eram mais organizados. Os negros vivem dificuldades praticamente em todos os lugares e mais ainda em seu berço, a Mãe África. Contudo, parece evidente que eles vivem melhor nos USA do que em qualquer outro lugar do mundo. O único modo deles conquistarem o respeito mundial é assumindo seu destino e parando de culpar os outros pelas suas tragédias.

  2. Henrique de Almeida Lara disse:

    Espero que esse livro seja traduzido e publicado no Brasil. Rapidamente, pois, aqui também existem os horrores do preconceito, da discriminação, da violência e da injustiça.

  3. Roberto1776 disse:

    Os pesadelos que atormentam Coates por ser pai de um adolescente negro nos EUA, provavelmente atormentam todos os pais de adolescentes brasileiros, independente de raça, cor ou religião, em 2015, exceto os pais desligados, pois a morte, mais do que nunca, está à espreita em nosso Brasil politicamente correto.

  4. Vitafer disse:

    Isso num país dos mais civilizados do mundo…

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