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ACORDO

Entendendo a tentativa de negociação de Trump

Em um projeto ambicioso, visto por muitos com ceticismo, os Estados Unidos propõem um acordo de paz duradouro entre israelenses e palestinos

Entendendo a tentativa de negociação de Trump
O governo dos EUA não revela detalhes de seu plano (Foto: Wikimedia)

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O presidente Donald Trump orgulha-se de ser um excelente negociador. Mas se mostra menos confiante quando o assunto refere-se à paz entre Israel e a Palestina. É uma “questão complexa”, a “negociação mais difícil de todas”, disse Trump em setembro. Ainda assim, ele julga que suas chances de sucesso são “muito, muito boas”.

Um plano de paz do governo dos EUA para a região, previsto para ser apresentado em setembro, foi adiado para janeiro. O genro e conselheiro de Trump, Jared Kushner, está à frente de uma equipe de negociação de paz composta por Jason Greenblatt, enviado especial dos EUA para o Oriente Médio, David Friedman, embaixador em Israel e Dina Powell, conselheira adjunta de Segurança Nacional. Os três primeiros são judeus ortodoxos que não escondem suas simpatias pró-Israel.

A equipe, inicialmente criticada como um grupo de neófitos, conquistou os céticos com seu interesse em ouvir o que os outros têm a dizer. Os palestinos admiram a iniciativa do grupo em escutar depoimentos em campos de refugiados, não só de políticos. Eles acham que a equipe é mais amável e interativa do que os “burocratas” de Barack Obama. Greenblatt, o principal negociador, se opôs aos movimentos unilaterais de Israel e recebeu com entusiasmo a notícia do acordo de reconciliação entre o grupo nacionalista Fatah que controla a Cisjordânia e o Hamas, um movimento de resistência islâmica, que domina a Faixa de Gaza.

O governo dos EUA não revela detalhes de seu plano, mas, segundo um negociador palestino, assemelha-se a “um mapa rodoviário sem uma estrada definida”. As etapas iniciais consistem em medidas de fortalecimento da confiança. Os problemas mais difíceis, como a delimitação de fronteiras, a questão do retorno dos refugiados e da soberania de Israel na cidade de Jerusalém, serão discutidos mais tarde. Não se sabe se o objetivo do plano inclui a criação dos dois Estados que está no centro dos esforços de paz há muito tempo. A falta de informações claras e precisas é vista como uma tática para manter todos em suspense.

Os Estados Unidos contam com o apoio da Arábia Saudita. Kushner iniciou uma amizade com o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman. Embora a política externa do príncipe seja alvo de críticas, ele convenceu Kushner que pode ajudar a reformular a geopolítica do Oriente Médio segundo os interesses dos EUA. A pedido de Trump, o príncipe pediu que o presidente octogenário da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas, fosse a Riad no início de novembro para conversarem sobre seu apoio ao plano dos EUA.

Outros países árabes também têm interesse em reiniciar as negociações de paz. O governo do Egito sob a presidência de Abdel-Fattah al-Sisi assumiu um papel mais ativo no processo de paz e, há pouco tempo, participou das conversas diplomáticas que encerraram a disputa entre o Hamas e o Fatah. A Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos apoiam Sisi em seu projeto de cortar as relações do Hamas com o Irã e o Catar.

O primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, resiste à ideia de negociar a paz com os palestinos. Mas prefere um processo sem um cronograma definido do que negociações com etapas e prazos que o obrigaria a assumir uma posição. Netanyahu também quer demonstrar gratidão a Trump por ser menos intransigente do que Barack Obama.

Os palestinos têm restrições quanto ao plano de paz dos EUA. Mas temem um acordo em que caberia a Israel o controle militar da Cisjordânia. “Apesar da aparente neutralidade de Netanyahu e de Abbas em relação ao plano americano, o interesse deles em sua viabilização é nulo”, disse Jon Alterman, do Centre for Strategic and International Studies, um instituto de pesquisa com sede em Washington, DC.

Na região, de acordo com membros do governo e de pessoas envolvidas nas negociações, as chances de sucesso são mínimas. “Eles não encontrarão formas de fazer com que o círculo fique quadrado depois de tantas outras tentativas”, disse um diplomata israelense. “Ambos os lados estão buscando uma maneira de dizer não a Trump”, comentou um negociador palestino. Nesse ponto, pelo menos, eles concordam.

 

Fontes:
The Economist-Decoding Donald Trump’s efforts to draw a road map for Israel and Palestine

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