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XADREZ POLÍTICO

EUA e Rússia vivem uma nova Guerra Fria na Síria?

Xadrez político entre Washington e Moscou na Síria cria um cenário nebuloso no qual a única certeza é o sofrimento do povo sírio

EUA e Rússia vivem uma nova Guerra Fria na Síria?
As implicações do embate são de grave importância para todo o planeta (Foto: Flickr/Jordi Bernabeu Farrús)

A escalada de tensão entre EUA e Rússia chegou a sua primeira “crise dos mísseis”. Na última sexta-feira, 13, a coalizão liderada pelos Estados Unidos na Síria bombardeou instalações militares sírias nos arredores de Damasco, entre elas um centro de pesquisa que, segundo o Pentágono, estaria ligado à produção de armas químicas.

O bombardeio é o mais recente episódio do enfrentamento entre Washington e Moscou, que vem se intensificando desde 2014. EUA, França e Reino Unido afirmam que o bombardeio é uma resposta enérgica e direta ao governo de Bashar al-Assad, a quem acusam de ter promovido o ataque químico a Douma em 7 de abril.

Moscou, por sua vez, afirma que o ataque foi encenado. Semanas antes do ataque, o chefe do Estado-Maior russo, o general Valery Gerasimov, alertou em uma entrevista que o governo americano e seus aliados preparavam um ataque encenado para servir de pretexto para um bombardeio a Damasco. Não é a primeira vez que a Rússia aponta ser vítima de uma conspiração ocidental. Dias antes, o país negou envolvimento com o envenenamento do ex-espião russo Sergei Skripal e disse tratar-se de uma campanha para demonizar Moscou.

No entanto, as cenas do ataque a Douma que circularam na internet, com crianças sofrendo por intoxicação, tornam as declarações de Gerasimov uma afronta, bem como a tentativa de apontar como “cúmplices” da encenação os “capacetes brancos”, como são chamados os voluntários que prestam os primeiros socorros na Síria.

Analistas questionam se, de fato, o mundo estaria diante de uma “nova Guerra Fria”. Em um artigo publicado na revista Foreign Policy, Dmitri Trenin, diretor do Carnegie Moscow Center, aponta as diferenças entre o contexto atual e o vivido durante a Guerra Fria. “A Guerra Fria original é diferente do atual confronto entre Washington e Moscou. Não há mais simetria e equilíbrio ou respeito entre as partes. Também não há um temor intenso em relação a um Armageddon nuclear, o que tem o efeito paradoxal de tornar bem mais fácil deslizar para além do ponto sem retorno”, escreve Trenin.

Segundo Trenin, vencer a Rússia se tornou para os EUA a continuação da guerra ao terror, com Vladimir Putin “fazendo as vezes” de Saddam Hussein. Para Trenin, tal fato excluí a possibilidade de qualquer negociação ou acordo de compromisso estratégico, uma vez que, para os EUA, comprometer-se com seu adversário indigno seria comprometer-se a si mesmo.

Em contraponto, para a Rússia, o enfrentamento direto seria o pior dos cenários. Moscou entende a supremacia militar americana e o fato de que o enfrentamento direto levaria a uma derrota humilhante. Além disso, a guerra não é a intenção do Kremlin, que já vem desgastado por sanções econômicas e pelo envolvimento na anexação da Crimeia. Ao entrar no conflito sírio, a Rússia tinha um objetivo claro: proteger um aliado crucial de seus interesses no Oriente Médio. No entanto, há divergências entre Assad e o governo de Moscou.

Enquanto a Rússia busca uma solução política para o conflito sírio, considerando até mesmo a transição de governo no país, Assad vê na guerra uma resposta e não cogita abdicar do poder. Para o líder do regime sírio, a negociação com rebeldes é algo fora de questão, enquanto a Rússia enxerga nisso uma possibilidade. Assad tira proveito de ser um aliado crucial da Rússia para “cruzar a linha vermelha”, sabendo que mesmo que seus atos contem com reprovação, seu governo não será abandonado por Moscou. Desta forma, promover ataques químicos para eliminar rebeldes em enclaves, ignorando o alto impacto sobre civis, é uma opção. Ao que tudo indica, foi o que aconteceu em 2013 – quando quase 1.500 pessoas morreram em um ataque químico em um reduto rebelde nos arredores de Damasco – e no início deste mês em Douma.

No momento, a coalizão americana deu resposta moderada, com bombardeios cirúrgicos e restritos a alvos militares sírios, mas poupando alvos russos, que, se atacados, poderiam levar a relação entre Washington e Moscou a um patamar ainda mais baixo. No entanto, não há indícios de que a escalada de tensão esteja perto do fim e o desenrolar deste cenário é de grave importância para todo o planeta. E o fato de Washington ter uma agenda pouco clara para o conflito torna o cenário ainda mais sombrio.

Em meio à incerteza, está o povo sírio, o mais afetado por este xadrez político. Desde 2011, a população síria atravessa anos de sofrimento que, segundo estimativas de organizações que monitoram o conflito, já ceifaram a vida de cerca de 500 mil pessoas.

 

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