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EM ASSEMBLEIA DA OMS

EUA tentaram boicotar resolução pró-aleitamento materno

Pressão contra a resolução ocorreu na última assembleia-geral da OMS, ocorrida em maio, em Genebra

EUA tentaram boicotar resolução pró-aleitamento materno
Medida vem na esteira de outras ações similares da gestão Trump (Foto: Pixabay)

A revelação de que o governo dos Estados Unidos tentou boicotar uma resolução em prol do aleitamento materno durante a última assembleia-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), ocorrida em maio, em Genebra, e revelada na semana passada, chocou a comunidade internacional.

Com base em décadas de estudos, a resolução afirma que o leite materno é o alimento mais saudável de todos para bebês e exorta países a limitar a comercialização equivocada ou enganosa de substitutos do leite materno.

Porém, atendendo aos interesses de fabricantes de fórmulas para a alimentação de bebês, a delegação americana iniciou um esforço para boicotar a resolução. Primeiro, tentaram remover do texto da resolução um trecho que convocava governos a “proteger, promover e apoiar a amamentação” e outro que exortava parlamentares a restringir a promoção de produtos alimentícios que muitos especialistas afirmam ser danosos à saúde.

Segundo fontes ligadas às negociações ouvidas pelo New York Times, uma vez quer tais esforços falharam, a delegação recorreu a ameaças. O Equador, que planejava apresentar a resolução, foi o primeiro alvo. A delegação americana foi franca: se fosse adiante, seria punido pelo governo americano com sanções comerciais e perderia auxílio militar crucial para o país. A delegação do governo equatoriano aquiesceu.

A ameaça foi repetida a dezenas de outros países, a maioria pobres ou emergentes da América Latina e da África. Ativistas da causa da amamentação materna se esforçaram para encontrar outro país disposto a apresentar a resolução.

“Ficamos espantados, chocados e também tristes. O que aconteceu equivale à chantagem, com os Estados Unidos tomando o mundo como refém e tentando derrubar um consenso de quase quarenta anos sobre a melhor maneira de proteger a saúde de bebês e crianças”, disse Patti Rundall, diretora do grupo britânico Baby Milk Action, que participa das reuniões da assembleia da OMS desde o fim da década de 1980.

Durante a negociação, alguns membros da delegação americana chegaram a sugerir o corte da contribuição dos EUA à OMS, que somente no ano passado representou 15% do orçamento da organização.

A questão somente se resolveu quando a Rússia se ofereceu para apresentar a resolução – sem sofrer qualquer pressão ou ameaça por parte da delegação americana. “Não estamos tentando ser um herói aqui, mas sentimos que é errado quando um grande país tenta pressionar países pequenos, especialmente em uma questão que é tão importante para o resto do mundo”, disse um integrante da delegação russa ao New York Times, que pediu anonimato por não ter autorização para falar com a mídia.

No final, os esforços da delegação americana falharam. O texto final da resolução foi aprovado praticamente igual ao original. Dominado por indústrias dos EUA e da Europa, o setor de alimentação de bebês vem experimentando uma queda nas vendas em países ricos, onde os esforços pró-aleitamento materno vêm ganhando força. Em contraponto, a venda desses produtos em países pobres e emergentes cresceu 4% no ano passado.

Segundo o New York Times, a tentativa de boicotar a resolução vem na sequência de outras medidas da gestão de Donald Trump que alinham os EUA a interesses corporativos em inúmeras questões de saúde e meio ambiente, desde o Acordo Climático de Paris até a resolução pró-aleitamento materno.

Na mesma reunião em Genebra que aprovou a resolução, por exemplo, a delegação dos EUA conseguiu remover um trecho que apoia impostos sobre consumo de refrigerantes de um documento que aconselha países a lidar com as crescentes taxas de obesidade.

Além disso, em conversas para renegociar os termos do Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (Nafta), representantes americanos pressionam para limitar a capacidade de Canadá e México em colocar selos de alerta em rótulos de bebidas açucaradas e junk food (alimentos pouco nutritivos, mas com alto teor de açúcar, gordura ou sal).

O governo americano também tentou, sem sucesso, minar um esforço da OMS destinado a ajudar países pobres a obter medicamentos cruciais para salvar vidas. Há anos Washington se opõe a modificar as leis de patentes de medicamentos, como forma de proteger sua indústria farmacêutica. No entanto, segundo o New York Times, ativistas envolvidos em tais negociações afirmam que tal pressão contrária aumentou após a chegada de Trump à Casa Branca.

 

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