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TENSÕES ELEVADAS

Europa teme uma nova Guerra Fria

Mundo observa com atenção a crescente tensão entre Estados Unidos, Rússia e China

Europa teme uma nova Guerra Fria
Relação entre EUA e Rússia chama a atenção, enquanto China age nos bastidores (Foto: Shealah Craighead/White House)

As tensões entre Estados Unidos, Rússia e a China parecem ter se elevado ao longo do mês de outubro. Paralelamente a isso, diferentes países da Europa aumentam seus receios em relação à possibilidade de se tornarem, mais uma vez, reféns com uma nova corrida armamentista, ou uma nova Guerra Fria.

Os EUA anunciaram, neste mês, que estão abandonando o Tratado das Forças Nucleares de Alcance Intermediário (INF), firmado com a Rússia em 1987. O acordo já havia sido violado pela Rússia em 2014, quando foi revelado que os russos estavam aumentando o arsenal de armas. Mesmo assim, o pacto dava uma sensação de segurança aos países, mesmo que a China não o integrasse.

Segundo o New York Times, parte dos europeus vê a decisão de abandonar o INF como perigosa, mas uma parte da política de Trump de “America First” (“EUA em primeiro lugar”, em tradução livre). A possibilidade de finalizar o acordo expõe ainda mais o desgosto do presidente americano, Donald Trump, por pactos firmados por líderes anteriores.

Os Estados Unidos já anunciaram a saída do acordo climático de Paris, do pacto nuclear iraniano e renegociou o Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (Nafta), que passa a se chamar Acordo Estados Unidos-México-Canadá (USMCA). As constantes mudanças em tratados internacionais geram insegurança em líderes de outros países.

Ainda em outubro, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), na qual os Estados Unidos é o principal integrante, iniciou os seus maiores exercícios militares desde a Guerra Fria. O movimento teria sido visto, por autoridades russas, como uma resposta às suas manobras militares, que também foram as maiores desde o mesmo período, ocorridas em setembro.

Para Carl Bildt, um ex-primeiro-ministro da Suécia, caso os Estados Unidos confirmem o abandono do INF, a Europa estará mais exposta a “uma crescente ameaça nuclear”, já que “a Rússia pode rapidamente exibir novas armas”. Um ex-embaixador da Alemanha nos Estados Unidos também revelou estar “profundamente preocupado”, sugerindo que a China seja incluída em um novo acordo sobre armas nucleares.

E a China?

Apesar de não estar diretamente relacionada à Europa ou ao INF, os Estados Unidos já demonstraram tensões com a China na intensificação da guerra comercial, com sobretaxas em diferentes produtos de ambos os lados. Ademais, o governo Trump encara os chineses, assim como os russos, como “concorrentes estratégicos”.

Existe a possibilidade de que os Estados Unidos querem sair do INF para negociar um novo tratado. Porém, a ideia é inverossímil. Isso porque a Rússia teria poucos motivos para integrar um novo acordo, já que tem mísseis que vão de encontro com as proibições. A China, que não está inclusa no atual pacto, também não deve ter a intenção de participar, visto que boa parte dos seus mísseis se enquadra como armas proibidas pelo INF.

O fato da China ter se mostrado uma forte potência mundial, rica, em expansão e bastante nacionalista preocupa Washington. Por isso, autoridades americanas apontam que o país seria um dos principais motivos para que os Estados Unidos se retirem do INF. Em 1987, quando o acordo foi assinado por Ronald Reagan (EUA) e Mikhail S. Gorbachev (Rússia), a China ficou livre, nunca fazendo parte das negociações.

Tensão na Europa

Ainda não se sabe se os Estados Unidos, de fato, vão se retirar do INF, ou foi apenas uma estratégia adotada por Trump. No entanto, a declaração de que o presidente americano estava pronto para jogar o mundo em uma nova corrida armamentista dos anos 1950 pode gerar uma tensão entre os EUA e aliados da Europa, bem como a Otan.

Desde que anexou a Crimeia ao seu território, em 2014, a Rússia tem visto as tensões com os Estados Unidos e os países da Europa crescerem. Os pequenos países que integram a Otan, principalmente os bálticos, temem que possam ser os próximos em uma ofensiva russa.

Não é à toa que, durante os exercícios militares da organização, o comandante americano James G. Foggo, que supervisiona as manobras, afirmou que a Otan está prestando atenção na movimentação da Rússia e sua crescente frota naval e submarina nos oceanos Atlântico Norte e Ártico.

Em um comunicado no último dia 24 de outubro, o secretário-geral da Otan, Jens Stoltenberg, destacou que os exercícios militares, que se estendem até o dia 7 de novembro, não têm como objetivo planejar um ataque a nenhum país, mas se defender de possíveis ofensivas. Alguns críticos internacionais interpretaram que o recado poderia ser para os russos, que fizeram manobras militares no mês anterior.

“Trident Juncture [nome do exercício militar] envia uma mensagem clara as nossas nações e a qualquer potencial adversário: a Otan não procura confronto, mas estamos prontos para defender todos os aliados contra qualquer ameaça”, afirmou Stoltenberg.

Para manter a transparência e mostrar que os exercícios não são uma ameaça à segurança mundial, a Otan convidou observadores da Rússia para que pudessem acompanhar as manobras. Os russos, por sua vez, aceitaram o convite. De acordo com autoridades americanas, os russos também alugaram fazendas no interior da Noruega para investigar as táticas militares da aliança.

“Toda essa conversa da Otan sobre a Rússia não ser o alvo da Trident Juncture não se sustenta. […] Mesmo que a Otan diga o contrário, a Trident Juncture é realmente uma preparação para um conflito armado em grande escala nas regiões que fazem fronteira com a Federação Russa”, afirmou o tenente-general Valery Zaparenko, em entrevista a uma emissora de televisão russa financiada por Moscou, segundo noticiou o New York Times.

 

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