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A evolução da linguagem ao redor do mundo

Apesar das diversas teorias propostas por intelectuais e estudiosos importantes, os cientistas não chegaram a um consenso sobre as origens e a evolução da linguagem

A evolução da linguagem ao redor do mundo
Os paleoantropólogos não sabem quando ou por que o homo sapiens decidiu usar seu cérebro para falar (Foto: Wikimedia)

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Em 1866, os estatutos de criação da Société de Linguistique de Paris incluíram uma proibição curiosa: “A Société não aceitará trabalhos acadêmicos sobre a origem da linguagem ou da criação de uma linguagem universal.” Darwin havia publicado Sobre a origem das espécies há sete anos e ficou intrigado com os paralelos entre a linguística e a evolução física. Porém a sociedade, com seu viés católico, não estava interessada no tema.

Por mais de um século, pouco foi estudado a respeito da evolução da linguagem, embora a evolução fosse a explicação padrão para quase todos os fenômenos biológicos, tanto físicos quanto comportamentais. Hoje, a discussão é acalorada. Mas ainda não há um consenso sobre como, quando ou por que a linguagem evoluiu. Ou nem mesmo uma concordância se houve uma evolução, no sentido de ter sido o resultado específico da gradual seleção natural.

No início Noam Chomsky, o linguista e filósofo americano, se destacou nas discussões sobre o tema. Durante anos, esse especialista renomado no campo da linguística moderna, recusou-se a teorizar a respeito das origens da linguagem, com o argumento que embora tivesse surgido por meio da evolução no sentido mais amplo, era impossível conhecer seu processo de evolução em detalhes.

A fala não deixa fósseis. Os paleoantropólogos sabem quando o cérebro humano começou a crescer até atingir o tamanho atual, mas não quando ou por que o homo sapiens decidiu usar seu cérebro para falar. Stephen Jay Gould, um biólogo evolucionista muito elogiado por suas pesquisas e publicações, entrou no debate ao chamar a linguagem de “tímpano”. Gould usou um termo da arquitetura, em que o tímpano é o espaço entre dois arcos, mas que ao longo do tempo passou a ter características decorativas próprias.

Do mesmo modo, segundo Gould, os grandes cérebros e uma inteligência mais aguçada eram a característica original. Assim como no processo de evolução do tímpano, os seres humanos transformaram essa característica em um sistema complexo e abstrato de comunicação.

Em 1990, Steven Pinker e Paul Bloom, ambos pesquisadores do MIT, publicaram um artigo com uma proposta polêmica. Na opinião deles, a linguagem teve uma evolução semelhante à teoria de Darwin: lenta, no início como resultado de uma mutação genética aleatória, porém que aos poucos deu aos seres humanos primitivos uma vantagem de sobrevivência.

Com a comunicação oral, os seres humanos não precisavam aprender informações importantes por meio da experiência direta, e sim pelo conhecimento adquirido por gerações anteriores, como recomendações a respeito de alimentos que deveriam ser ingeridos ou não, avisos de animais perigosos, ou instruções sobre como fazer um machado. Embora não se possa identificar as etapas entre os gritos básicos e a sintaxe complexa moderna, Pinker e Bloom acreditam que houve uma evolução gradual.

Mais tarde Chomsky fez uma sugestão mais inusitada, ou seja, que uma única mutação em um ser humano lhe deu uma capacidade de “fusão”. Essa aptidão referia-se ao pensamento e não à comunicação. Assim, pensamentos simples associavam-se a pensamentos mais longos e complexos, que garantiam uma vantagem de sobrevivência. A capacidade de inserir pequenas unidades sintáticas (palavras e frases) em estruturas gramaticais maiores (uma ou mais orações) era, nessa concepção, um subproduto útil da “fusão”. Nessa linha de raciocínio, embora não seja uma palavra usada por Chomsky, é possível dizer que a fala é o tímpano, enquanto o pensamento é o arco original.

É também interessante observar que alguns elementos da linguagem são compartilhados por animais. As aves usam pequenas unidades de sons para compor diferentes séries de cantos, assim como os homens fazem com as palavras. Chimpanzés e outros macacos aprendem centenas de sinais de mãos e conseguem combiná-los de uma forma simples, mas criativa.

Segundo Michael Corballis, um psicólogo da Universidade de Auckland, o gesto foi fundamental para o desenvolvimento da linguagem complexa, uma teoria que descreveu em The Truth about Language, que será publicado em 2017. As linguagens de sinais são tão complexas como as faladas, e crianças surdas “tagarelam” com as mãos, assim como crianças com audição perfeita fazem com a boca.

O fato de grandes intelectuais e estudiosos, como Pinker, Chomsky e Gould terem dado interpretações tão diferentes à evolução da linguagem, pode ser visto como um fracasso científico. Ou pode ser um indício que mesmo que a ciência tenha criado mitos e explicações pouco convincentes sobre a origem evolucionária da linguagem, alguns problemas como consciência e linguagem são difíceis de solucionar, porque fazem parte das características dos seres humanos. Ninguém disse que estudar a mente humana fascinante, porém imperfeita, seria uma tarefa fácil.

Fontes:
The Economist-You tell me that it’s evolution?

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2 Opiniões

  1. André Vinícius Vieites disse:

    Ai morena, deixa de judiação, achas uma revelação estar sabendo da tua mente e o teu coração, pois bem, entanto, até bom fica a participação do que aquilo não existia e passou a existir.
    Tipo a filosofia do vir a ser, é que durante a travessia da ponte do rio que cai, podes vir a não ser nada. É também interessante observar que alguns elementos da linguagem são compartilhados por animais. As aves usam pequenas unidades de sons para compor diferentes séries de cantos, assim como os homens fazem com as palavras. Chimpanzés e outros macacos aprendem centenas de sinais de mãos e conseguem combiná-los de uma forma simples, mas criativa.
    Aí é que está eles possuem espírito, alma e são o que são, por isso se tornam únicos, essa é a minha simples opinião de filho único.

  2. André Vinícius Vieites disse:

    Respostas: O medo e a mediocridade inverteu a lógica que passou a ser: Anúncios pagam salários de jornalistas, Record versus Globo. E o cenário avassalador das diferentes constatações, sobre ser ou ter mediapress. Foi bom relembrar por aqui mesmo…mercado em transição.

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