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COLETA ILEGAL DE DADOS

Facebook vive o maior escândalo de sua história

Rede social não tomou medidas após detectar a coleta ilegal de dados de 50 milhões de usuários por consultoria que atuou na campanha de Trump

Facebook vive o maior escândalo de sua história
Parlamentares dos EUA querem convocar Zuckerberg para depor no Senado (Foto: Flickr/b_d_solis)

O Facebook registrou na última segunda-feira, 19, a maior queda em apenas um dia já registrada em quatro anos pela empresa na bolsa de valores eletrônica NASDAQ, que reúne grandes empresas de tecnologia do mundo. Segundo o jornal Valor Econômico, Em apenas 24 horas, o valor de marcado da rede social na bolsa caiu US$ 35 bilhões (cerca de R$ 115,5 bilhões). As ações da empresa fecharam o dia em queda de 6,8%.

A queda vertiginosa é fruto do escândalo envolvendo a coleta e o uso ilegal de dados de mais de 50 milhões de usuários da rede social revelado no último fim de semana, em uma reportagem conjunta dos jornais New York Times e Observer. A reportagem revelou como uma consultora americana chamada Cambridge Analytica, que tem laços com o Partido Republicano, obteve e manipulou dados de usuários para influenciar as eleições presidenciais de 2016.

Fundada em 2013, pelo magnata republicano Robert Mercer, um dos principais financiadores da campanha de Donald Trump, a Cambridge Analytica comprou, em 2014, informações pessoais de usuários do Facebook, sem autorização prévia dos mesmos. Na época, a empresa era presidida por Steve Bannon, que atuou como estrategista chefe da Casa Branca no primeiro ano de mandato de Trump.

Como os dados foram coletados?

Os dados obtidos pela Cambridge Analytica foram coletados por Aleksandr Kogan, psicólogo, pesquisador e professor da Universidade de Cambridge, no Reino Unido – que não tem relação com a consultora Cambridge Analytica.

Kogan obteve do Facebook permissão para coletar dados com fins acadêmicos através de um aplicativo chamado ThisIsYourDigitalLife (“Esta é sua vida digital”, em tradução livre). Kogan contou com um financiamento de US$ 800 mil (cerca de R$ 2,60 milhões) da Cambridge Analytica. Com a verba ele pagou 270 mil usuários do Facebook para que respondessem a um teste de personalidade que pedia permissão para coletar seus dados para fins acadêmicos.

Porém, os temos de uso do aplicativo, que na maioria das vezes são ignorados pelo usuário, também previam a coleta de informações do perfil de amigos das pessoas que responderam ao teste, sem a permissão prévia dos mesmos. Com isso o número de usuários que tiveram os dados acessados saltou de 270 mil para mais de 50 milhões.

Na reportagem conjunta do ‘NYT’ e do Observer, o ex-funcionário da Cambridge Analytica, Christopher Wylie, revelou que as informações obtidas com o aplicativo foram vendidas para a empresa de consultoria. A venda ocorreu de forma ilegal, já que a política do Facebook na época permitia apenas que dados de amigos fossem utilizados somente para aprimorar a experiência do usuário. A venda ou uso para propaganda eram vetados.

Entre outras coisas, os dados comprados pela Cambridge Analytica incluíam detalhes da identidade de usuários do Facebook, publicações, curtidas e rede de amigos. Munida destas informações, a consultoria passou a trabalhar na campanha presidencial de Trump de 2016, usando as informações para influenciar eleitores.

Como foram utilizados os dados coletados?

O esquema consiste em usar as interações do usuário para direcionar, de forma personalizada, conteúdos como anúncios, artigos ou propaganda política. Por exemplo, uma pessoa que tenha relatado no Facebook ter sido vítima de violência pode receber mensagens de um candidato relativas à segurança pública. Além de veicular conteúdo verídico, há evidências de que essas consultorias veiculam boatos, acusações e notícias falsas sobre candidatos adversários.

No fim de semana, em meio à repercussão do caso, um comunicado assinado pelo vice-presidente do Facebook, Paul Grewal, admitiu que a empresa tomou conhecimento da venda dos dados em 2015, mas apontou Kogan como culpado. “Em 2015, soubemos que Kogan mentiu e violou nossas políticas de plataforma ao passar dados de um aplicativo utilizado pelo Facebook Login à empresa SCL/Cambridge Analytica, uma companhia que realiza trabalho político, governamental e militar em todo o mundo”, disse o comunicado.

Porém, entre os documentos apresentados por Christopher Wylie em sua denúncia ao ‘NYT’ e ao Observer, está uma carta enviada a ele, em 2016, por advogados do Facebook, pedindo para que os dados comprados fossem destruídos. “Porque os dados foram obtidos e usados sem permissão e porque a GSR (empresa criada por Kogan para obter os perfis de quem fez o teste) não estava autorizada a compartilhar ou vender o material a você, ele não pode ser usado legitimamente no futuro e deve ser deletado imediatamente”, dizia a carta.

No entanto, o Facebook não tomou qualquer medida para assegurar que a destruição ocorresse. “O que mais me impressionou foi isso. Eles esperaram dois anos e não fizeram absolutamente nada para checar se os dados foram apagados. Eles só me pediram para preencher com x uma pergunta e postar de volta o documento”, disse o ex-funcionário da Cambridge Analytica. No fim de semana, a rede social suspendeu a conta da consultoria.

O que acontece a partir de agora?

Diante do escândalo, parlamentares americanos vêm pressionando para que o cofundador e CEO do Facebook, Mark Zuckerberg, deponha no Senado dos EUA para dar mais informações sobre o caso. Além disso, os parlamentares americanos querem mais informações do diretor-executivo da Cambridge Analytica, Alexander Nix, sobre a atuação da empresa de consultoria na campanha presidencial de Trump.

Além de atuar nas eleições presidenciais dos EUA de 2016, a Cambridge Analytica também trabalhou na campanha pró-Brexit do Reino Unido. O governo britânico solicitou à Justiça um mandado de busca e apreensão em escritórios da empresa em Londres. De acordo com o jornal Financial Times, o deputado britânico Damian Collins também pretende chamar Zuckerberg para depor.

Além de atuar nos EUA e no Reino Unido, a Cambridge Analytica estava prestes a atuar no Brasil, nas eleições presidenciais deste ano, através de sua sócia no Brasil, a consultora política Ponte CA. Porém, o dono da consultora brasileira, André Torretta, informou que rompeu o acordo após as revelações.

 

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1 Opinião

  1. Markut disse:

    Como diz a fábula,”O aprendiz do feiticeiro” não sabe mais como interromper a mágica nefasta.
    O desastre prossegue, cada vez com mais vigor.

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