Após se tornar sucesso de crítica e público na Europa, o filme italiano "Gomorra" exibe nas telas brasileiras a forma como a máfia se infiltrou em diversos ramos de atuação política e econômica no sul da Itália. O roteiro baseado no livro de Roberto Saviano mostra com habilidade um conjunto de histórias sobre as atividades da Camorra, a máfia napolitana, em que o destino de meninos da periferia se mistura com o tráfico de drogas, armas, produção de vestidos, política, despejo de lixo tóxico e até imigrantes chineses. A abordagem documental e crua da filmagem causou polêmica e conquistou os jurados de Cannes, fazendo com que "Gomorra" arrebatasse o disputado prêmio de melhor filme na mostra competitiva do festival em 2008.
Ao mesmo tempo em que o filme recebia os louros na França com seu olhar humano sobre a exploração dos trabalhadores chineses, o governo italiano organizou uma reunião em Nápoles para combater a violência gerada pela máfia e os danos causados pelos imigrantes ilegais. Neste evento do dia 22 de maio de 2008, o primeiro ministro italiano Silvio Berlusconi inaugurou um pacote de medidas contra a imigração ilegal na Itália. A nova legislação considera como crime a entrada e a permanência no país de estrangeiros sem visto, com uma punição de até quatro anos de prisão e encarceramento imediato dos contraventores por no máximo 60 dias em centros de detenção, até que se realizem os trâmites para expulsá-los do território italiano. As medidas também são aplicáveis a cidadãos europeus que, caso não possam comprovar uma renda para se manter na Itália por um mínimo de três meses, deverão retornar ao seu país de origem. Esta é uma clara demonstração do esforço do governo em controlar a entrada de ciganos e de romenos no país.
A repercussão destas iniciativas nos outros membros da União Européia foi encarada como uma afronta ao acordo de Schengen, que aboliu o controle de fronteiras, permitindo o livre trânsito aos cidadãos europeus na zona de integração. O presidente espanhol Jose Luiz Rodriguez Zapatero declarou que sem a construção de "uma política comum da União Européia, não teremos uma resposta satisfatória para o problema migratório". Zapatero também afirmou que discursos inflamados e leis duras apenas funcionam momentaneamente para acalmar os insatisfeitos, em clara referência ao apoio político do partido ultraconservador Liga Norte ao primeiro ministro italiano.
Mesmo dentro da Itália, houve uma série de críticas e condenações de xenofobia por parte dos oposicionistas e até membros do governo, da Igreja Católica e de associações de defesa dos direitos humanos. O ano de 2008 foi marcado por controvérsias, com um recuo inicial do governo, em junho, em relação às novas medidas e o estabelecimento de um estado de emergência em relação aos imigrantes em julho. Em novembro, estudantes promoveram grandes manifestações contra todas as reformas "facistas" propostas por Berlusconi, não só para os direitos dos imigrantes mas também para a educação. E, para completar o quadro, uma onda inesperada de imigração de africanos atingiu a Lampedusa, no sul do país, causando uma crise em pleno Natal.
Apesar da controvérsia que envolve a política governista de antiimigração, uma pesquisa recente do jornal "Corriere della Sera" aponta que 85% dos italianos são contrários à entrada de mais imigrantes. Mais de 60% consideram a presença dos estrangeiros um perigo para a segurança e 68% dizem acreditar que a maioria dos imigrantes é formada por "clandestinos". Por isso, o pacote também causou um aumento na popularidade do premier italiano por parte da população local. No final de outubro deste ano, o grande crescimento da população de imigrantes chineses apareceu como destaque na capa dos principais jornais de Milão devido à divulgação do Relatório nacional sobre imigração lançado pela Fundação Caritas. O relatório apresenta a comunidade chinesa de 150 mil habitantes como apenas a quarta maior da Itália, mas um grande destaque foi dado ao fato de um terço dos imigrantes chineses - 100% a mais do que há dez anos – estar concentrada na cidade, mais especificamente no distrito Paolo Sarpi.
Todos os anos, a instituição católica apresenta dados sociais sobre inclusão dos imigrantes na sociedade italiana, com objetivo de propor medidas para melhorar a qualidade de vida destes novos cidadãos, "tão necessários para o desenvolvimento de uma Itália com uma população envelhecida e que se beneficia com a presença destes trabalhadores", como indica o estatuto da fundação. Esta filosofia inclusiva tem como objetivo se contrapor à atuação do primeiro ministro contra imigrantes ilegais no país, demonstrando um claro esforço da Igreja de modificar a opinião dos italianos em relação ao papel importante que os imigrantes exercem na economia, já que o país apresenta um processo de decréscimo demográfico.
Trocando spaguetti por talharim de arroz
A presença dos chineses na região entre a Via Morazzone e Via Bruno, apelidada pela população local como Chinatown de Milão, é vista com desagrado por grande parte dos milaneses por causa da descaracterização de um bairro nobre na área central da cidade. De acordo com a associação de moradores ViviSarpi, o valor dos imóveis da vizinhança foi extremamente desvalorizado nos últimos dez anos por causa dos distúrbios causados pelos chineses. Nos anúncios locais, os apartamentos para aluguel em Chinatown apresentam um valor em torno de 50% mais baixo do que em outros pontos no centro da cidade.
Segundo o website da associação, o trânsito na região se tornou caótico por causa da presença de caminhões de abastecimento das lojas, assim como chineses que carregam produtos em carrinhos de mão nas ruas estreitas atrapalhando o tráfego de veículos. Cerca de quatro em cada cinco estabelecimentos comerciais são chineses, na maior parte lojas de produtos de baixo valor importados da china como objetos para casa, brinquedos, eletrônicos, roupas e acessórios, ou serviços como restaurantes e supermercados de artigos da cultura tradicional. Desde o início da imigração chinesa para o local em meados dos anos 1980, o caráter do comércio se modificou radicalmente. Ao invés das atividades comuns em outros locais da Itália como os grandes porões de atividades têxtil e fabril mostrados no filme “Gomorra”, agora a maioria das lojas de varejo são especializadas em servir as necessidades dos expatriados e também aos italianos em busca de pechinchas. Ao andar pelo bairro, é comum ver italianos fazendo compras ao lado dos chineses.
"Eu acredito que o preconceito dos italianos está relacionado em grande parte à visão dos chineses como uma ameaça econômica, já que eles são vistos como mão de obra barata que toma empregos dos locais, além de se tornarem donos da maior parte das lojas e restaurantes daqui do bairro", relata Rebecca Farias, ítalo-brasileira residente na Via Paolo Sarpi. Ela declara que existem muitas reclamações sobre segurança por parte dos vizinhos, mas se sente segura junto aos chineses, que normalmente estão engajados em seus negócios e vida familiar e não causam ameaça alguma de violência ou criminalidade. "Me sinto mais preocupada ao andar na região do Corso Como, onde vários imigrantes africanos costumam a vender drogas, do que quando estou em Chinatown", indica Rebecca.
A italiana Milena Guarino vive tranqüilamente na Paolo Sarpi há cerca de dois anos e não se incomoda em viver cercada de chineses. No entanto, ela indica que muitas vezes ela tem dificuldade em se comunicar, já que grande parte dos imigrantes não fala italiano. "Eles realmente vivem em um gueto, comendo sua própria comida, falando sua língua e vivendo as suas tradições. Nada contra isso, mas eu acho que eles deveriam ao menos aprender italiano para conviver com os habitantes do país em que eles resolveram se instalar", declara Milena. Esta visão é interessante ao considerar que os italianos criaram seus próprios bairros e guetos quando imigraram para os Estados Unidos, Brasil e outros países entre o final do século XIX e a metade do século XX.
A jovem italiana também indica que os hábitos como cuspir na rua e falar alto durante a noite são mal vistos pelos italianos e que a falta de comunicação promove o aparecimento de lendas urbanas, tais como a presença de corpos de chineses mortos nos porões de restaurantes ou o enterro de fetos abortados nas paredes dos prédios da região. "Sem contar que os italianos são orgulhosos da sua cultura e, com certeza, se incomodam pelo simples fato de eles comerem macarrão de uma forma tão diferente no centro de uma cidade que representa a Itália para o mundo".
Saiba mais sobre as medidas contra imigração ilegal de Berlusconi aqui e aqui.
Conheça mais sobre a Chinatown de Milão.

Incrivel a sua descricao a respeito da situacao que se vive em Milao! Fiquei espantado – nao sabia desta realidade.
O chato eh pensar que a Italia se fecha cada vez mais num proprio gueto nacionalista por nao encontrar outra forma de lidar com a situacao – tambem comum e tantos outros paises modernos.
Otimo texto, otima jornalista!