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SAÚDE

A guerra chilena contra o junk food

Com restrições em propagandas e novas regras para os rótulos, o Chile pretende transformar o hábito de consumo de 18 milhões de pessoas

A guerra chilena contra o junk food
Especialistas dizem que pode levar anos para haver uma mudança significativa nos hábitos alimentares (Foto: Pixabay)

O governo chileno entrou em guerra contra o junk food (comidas pouco nutritivas, mas com alto teor de açúcar, gordura ou sal) com o objetivo de frear as altas taxas de obesidade.  Com restrições em propagandas e novas regras para os rótulos, o Chile pretende transformar o hábito de consumo de 18 milhões de pessoas.

Especialistas em nutrição dizem que as medidas são a tentativa mais ambiciosa do mundo para reconstrução dos hábitos alimentares e pode ser um modelo para o resto dos países enfrentarem a epidemia de obesidade. Segundo os pesquisadores, a epidemia contribui para a morte prematura de quatro milhões de pessoas por ano.

Desde que lei foi implementada há dois anos, as multinacionais como a Kellogg’s foram forçadas a remover seus mascotes das embalagens e banidos de vender doces que usam brindes como isca, como o Kinder Ovo. A lei proíbe a venda de junk food como sorvete, chocolate e batatas chips nas escolas do Chile e proíbe comerciais destes itens durante programas televisivos ou sites cujo público-alvo seja os jovens.  A partir do ano que vem, estes comerciais vão ser retirados totalmente da TV, do rádio e dos cinemas das 6 da manhã às 10 da noite.

Bebidas com alto teor de açúcar tiveram um aumento no preço de 18%, esta é uma das maiores taxas em bebidas do tipo no mundo. Outra medida é o novo sistema de rótulo. As empresas agora tem que colocar avisos em preto na embalagem quando há alto teor de açúcar, sal, calorias ou gordura saturada.

Até o final da década de 1980, a desnutrição atingia muitos chilenos pobres, especialmente as crianças. Atualmente, três quartos  dos adultos têm sobrepeso ou são obesos, segundo o Ministério da Saúde do país. As autoridades estão particularmente preocupadas com as taxas de obesidade das crianças, que está entre as mais altas do mundo, mais da metade das crianças de 6 anos estão com sobrepeso ou são obesas. Em 2016, os custos médicos da obesidade chegaram a US$ 800 milhões, ou 2,4% de todas as despesas de saúde. Segundo analistas, esta taxa pode atingir 4% em 2030.

Mudança nos hábitos alimentares

Nos supermercados, barras de cereal, iogurtes e sucos de caixinha que antes escreviam “saudável”, “natural” ou “fortificado com vitaminas e minerais” em suas embalagens, agora carregam um ou mais dos alertas em preto.

“Eu nunca prestei muita atenção nos rótulos”, diz Patricia Sánchez, 32 anos, mãe de duas crianças. “Mas agora eles meio que te forçam a prestar atenção. Se eu não notar, meus filhos fazem isso”.

Os especialistas dizem que pode levar anos para haver uma mudança significativa nos hábitos alimentares. No entanto, as novas regras já estão compensando. Algumas empresas de alimentos estão voluntariamente modificando a composição de seus produtos para evitar os avisos em preto. Segundo a AB Chile, associação do setor de alimentos, mais de 1,5 mil itens ou 20% de todos os produtos vendido no Chile foram reformulados por causa da lei.

A pressão da indústria

As empresas de alimentos alegam que o governo está exagerando nas medidas. “Nós acreditamos que a melhor forma de abordar o problema da obesidade é pela educação de consumo que muda os hábitos das pessoas”, escreve Felipe Lira, diretor da Chilealimentos, uma associação do setor.

No Chile, os interesses corporativos atrasaram a aprovação da lei em quase uma década. Mas o setor não está acostumado a opositores como o senador Girardi. O cirurgião é uma figura-chave no governo de Michelle Bachelet. Ele acusou publicamente as grandes empresas de alimentos de serem “pedófilos do século XXI”. Além disso, antes de Michelle Bachelet assumir a presidência, ele passou semanas protestando do lado de fora do palácio presidencial com cartazes, acusando o ex-presidente Sebastián Piñera de destruir a saúde nacional ao vetar a versão inicial da lei em 2011. Girardi foi o primeiro a propor as regulações em 2007.

“Esta foi uma guerra difícil. As pessoas têm o direito de saber o que estas empresas estão colocando neste lixo, e com esta legislação, eu acho que o Chile está fazendo uma grande contribuição para a humanidade”, diz Girardi. “Açúcar mata mais pessoas que terrorismo e acidentes de carro juntos”, disse numa entrevista, balançando uma caixa de cereais. “É o veneno do nosso tempo”.

No final, a pressão do setor conseguiu aliviar algumas restrições na propaganda e anular a proposta de proibição de venda de junk food perto das escolas.

Logo depois que os novos rótulos começaram a aparecer no supermercado, a AB Chile  divulgou uma propaganda online usando celebridades para atacar as novas regulações. Em uma das cenas um conhecido apresentador de televisão está doente na cama e olha para uma bandeja com sopa, biscoitos e marmelada. “Isto era o que minha mãe sempre me dava e eu não posso mais comer?”, pergunta indignado.  Em outra cena, uma atriz pega um pacote de balas. “É óbvio que eles têm alto teor de açúcar. Mas eu só como duas ou três”.

A propaganda resultou em um contra-ataque online feroz que se tornou viral. O ator Pablo Schwatz postou um vídeo olhando para um monte de pó branco. “Todo mundo diz que cocaína é ruim, claro, mas você iria cheirar 250g de uma só vez?”, ele pergunta antes de cheirar um pouco. “É tudo uma questão de porção”. A associação então retirou a propaganda inicial.

Agora, a questão é se a lei vai continuar como está atualmente. Afinal, Piñera foi recentemente reeleito e vai assumir o cargo em março. Um porta-voz do político disse que ele vai dar uma nova olhada na lei e explorar formas de melhorá-la antes de assumir.

Enquanto isso, países na América Latina, como Equador e Brasil, estão tentando pegar alguns elementos da iniciativa chilena. “A epidemia da obesidade é muito clara e perigosa para toda a população, inclusive para elite política, e nenhum país conseguiu controlá-la sem regulação. Não fazer nada não é mais uma opção”, diz Carlos A. Monteiro, professor de nutrição e saúde pública da Universidade de São Paulo (USP).

 

Fontes:
The New York Times-In Sweeping War on Obesity, Chile Slays Tony the Tiger

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1 Opinião

  1. Helene Salim disse:

    Quem precisa, acostuma com menos açúcar, pouco sal etc. Não há necessidade de manter esses itens nos produtos embalados, que sem dúvida são práticos e indispensáveis à vida atual.

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