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MANIFESTAÇÕES PRÓ-DEMOCRACIA

Hong Kong vive a 10ª semana de protestos ininterruptos

Polícia eleva brutalidade para tentar sufocar os protestos pró-democracia. Governo chinês classifica alguns manifestantes como ‘terroristas’

Hong Kong vive a 10ª semana de protestos ininterruptos
Nesta segunda-feira, manifestantes invadiram o aeroporto de Hong Kong (Foto: Twitter/Kris Cheng)

Milhares de manifestantes pró-democracia invadiram o aeroporto de Hong Kong na manhã desta segunda-feira, 12.

Segundo noticiou a CNN, os manifestantes bloquearam terminais, carregando cartazes com frases como “Hong Kong não é um lugar seguro”, “Vergonha de policia” e imagens de pessoas ensanguentadas após serem golpeadas por agentes de segurança.

Diante do protesto, a agência que controla a aviação civil na região anunciou em comunicado o cancelamento de todos os voos previstos para esta segunda-feira.

O protesto desta segunda-feira foi o quarto a ter como palco o aeroporto de Hong Kong – um dos mais movimentados do mundo – e veio na esteira do décimo fim de semana consecutivo de manifestação.

O ato no aeroporto foi convocado em apoio a uma jovem que perdeu um olho no último domingo, 11, após ser alvejada por um policial quando participava de uma manifestação. Muitos dos manifestantes usavam tapa-olho, em referência à jovem. Também houve uma manifestação em apoio à jovem por parte de médicas do Pamela Youde Nethersole Eastern Hospital. Profissionais do hospital – algumas usando tapa-olho – exibiram uma faixa com a frase “A polícia de Hong Kong tenta matar cidadãos de Hong Kong”.

No domingo, manifestantes tomaram as ruas da região numa demonstração de que não pretendem retroceder. Eles adotaram novas táticas para enfrentar o aumento da repressão e brutalidade policial. Uma delas é dispersar rapidamente diante das investidas da polícia, para se reagrupar novamente em outra localidade. Também foram registrados confrontos mais violentos, nos quais manifestantes atiraram coquetéis molotov contra os agentes.

A persistência dos protestos vem elevando a indignação do governo chinês, que chegou a classificar alguns dos manifestantes como “terroristas”.

As raízes da onda de protestos

A atual onda de protestos teve início em junho, motivada pela crescente interferência da China em Hong Kong.

A região foi ocupada pela Inglaterra após a guerra do ópio e viveu sob o domínio britânico até 1997, quando foi devolvida à China. Durante o domínio britânico, Hong Kong viveu sob um sistema próprio de leis e fronteiras e com maior liberdade de expressão, num modelo similar a democracias ocidentais.

Após a transferência da soberania da região para a China, o governo de Pequim se comprometeu a respeitar o modelo “um país, dois sistemas”.

No entanto, constantes interferências da China na política local apontaram o contrário, resultando em protestos contra o avanço de Pequim. Em 2014, o acirramento desencadeou o que ficou conhecido como a Revolução dos Guarda-Chuvas, liderada principalmente pela população jovem. O nome da revolução remete ao uso de guarda-chuvas para se proteger contra os efeitos do gás lacrimogênio lançado pela polícia.

No início de junho deste ano, um projeto de lei acirrou uma nova onda de protestos na região. O governo local aprovou um projeto que autorizava extradições para a China. O projeto foi apresentando pela líder do governo da região, Carrie Lam, como uma forma de “impedir que Hong Kong se tornasse um paraíso para os criminosos”.

Porém, o projeto foi visto pela população como uma forma de Pequim de perseguir dissidentes e opositores do continente. Isso porque Hong Kong tem sido destino de muitos chineses que fogem da pobreza e da perseguição política da China.

Uma onda de manifestação foi desencadeada, levando Lam a anunciar a suspensão do projeto de lei no dia 15 de junho. A medida, no entanto, não arrefeceu os ânimos dos manifestantes, que passaram a pedir a renúncia de Lam.

Em 9 de julho, Lam anunciou a desistência total do protesto. “Dou como morto o projeto de lei de extradição”, disse a  líder da região, destacando que as sucessivas tentativas de aprovar a medida resultaram em “um completo fracasso”.

Novamente, a medida não cessou as manifestações. A população continuou a exigir a renúncia de Lam por considerar a líder local uma marionete de Pequim. Em 14 de julho, Lam elevou o tom, passando a categorizar os manifestantes como “agitadores”. O termo “agitadores” é usado como associação para “tumulto” ou “motim”, que é crime na região e pode render uma pena de até dez anos de detenção.

A repressão policial aumentou, assim como a interferência da China nos protestos. Em 24 de julho, o porta-voz do Ministério da Defesa chinês, o coronel Wu Qian, sugeriu o uso do Exército Popular de Libertação (EPL) da China contra os manifestantes.

No último dia 6 deste mês, o porta-voz do Escritório de Assuntos de Hong Kong e Macau do Ministério das Relações Exteriores da China, advertiu os manifestantes a não subestimarem “a firme determinação e a imensa força do governo central da China”, afirmando que “quem brinca com o fogo morre queimado”.

Tanto o aumento da brutalidade policial quando as crescentes ameaças do governo de Pequim alimentaram a indignação dos manifestantes, resultando em mais protestos, com um aumento na violência.

A crise atual é a maior em décadas em Hong Kong e se tornou um dos maiores desafios políticos do presidente chinês, Xi Jinping, desde que ele chegou ao poder, em 2012. Alguns analistas políticos vem comparando o espírito das manifestações pró-democracia em Hong Kong aos protestos da Praça da Paz Celestial, de 1989, que foram brutalmente reprimidos pelo governo chinês.

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