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Identidade francesa

Ideais franceses enfrentam nova realidade

Após o ataque ao ‘Charlie Hebdo’, a questão é o quão válido e verdadeiro ainda são os ideiais de ‘liberdade, igualdade e fraternidade’ da antiga Revolução Francesa

Ideais franceses enfrentam nova realidade
Moradia popular em Clichy-sous-Bois, subúrbio de Paris, repleto de imigrantes (Reprodução/Pierre Terdjman/The New York Times)

Logo depois do ataque ao “Charlie Hebdo”, a França começou um debate sobre o que significa ser francês e se essa definição pode incluir a crescente população muçulmana. A essência do debate é se o senso de identidade francês se tornou tão entrelaçado com o secularismo que o país não está conseguindo honrar seus ideais. Afinal, a sociedade se tornou multicultural e o Islã está em uma posição proeminente.

Pela lei e pela tradição, cidadãos devem ser julgados como indivíduos sem distinção de raça, religião ou gênero, como dito no lema da república francesa: “liberdade, igualdade e fraternidade”. Essa aspiração da Revolução Francesa, que está profundamente enraizada na vida francesa, ganhou voz nas grandes manifestações de unidade nacional, após os assassinatos de cartunistas, policiais e judeus por radicais islâmicos.

Para o cientista político Gilles Kepel, o alvo dos radicais islâmicos não é a França por si só, mas a Europa e as suas crescentes minorias muçulmanas. Como a França conta com o maior número de muçulmanos na Europa e o maior número de pessoas que viajam à Síria e ao Iraque para se juntar ao jihad, ela é um foco óbvio. Já o cientista político Dominique Moïsi disse que o país precisa de uma nova clareza acerca de seus valores. “Nós precisamos de um novo iluminismo para reinventar a república”, disse, para assim melhor “corresponder à diversidade da França”.

O discurso de “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”

Esses ideais e a própria República Francesa podem parecer distantes e vazios para os muçulmanos descontentes, que tradicionalmente enxergam uma pequena distinção entre religião e vida pública. Muitas vezes, eles veem os valores do Estado como estrangeiros, até mesmo blasfemos, impostos a eles como uma forma de cultura do colonialismo, e por vezes utilizado como pretexto para discriminação racial e religiosa.

M’hammed Henniche, o secretário da União de Associações Muçulmanas de Seine-Saint-Denis, disse que “a França é o país da Declaração dos Direitos do Homem. Mas isso é tudo o que é, uma declaração”. Os muçulmanos, ele disse, se sentem mais livres para rezar, comer, se vestir e viver como quiserem na Grã-Bretanha do que na República Francesa. Em alguns subúrbios com grandes concentrações de imigrantes, muitos jovens se recusaram a fazer um minuto de silêncio para os jornalistas do “Charlie Hebdo”. Um jovem de 14 anos, que disse se chamar Louins, disse a sua professora: “Eles não nos respeitam, e aí durante um minuto de silêncio nós devemos honrá-los? Como alguém pode render homenagem a alguém que não nos respeita? Nós não podemos”. “Eu vou fazer um minuto de silêncio para a Palestina”, disse.

De acordo com Moïsi, a questão fundamental é “aceitar e praticar os valores da República”.”Mas o que isso significa? O respeito pelo outro, dando realidade à liberdade, igualdade, fraternidade. Liberdade sim, mas dentro dos limites. Igualdade, sim, mas com limites para a desigualdade na França. E fraternidade é o que realmente está faltando”.

 

Fontes:
The New York Times-France’s Ideals, Forged in Revolution, Face a Modern Test

1 Opinião

  1. André Luiz D. Queiroz disse:

    Liberdade sim, mas dentro dos limites. Igualdade, sim, mas com limites para a desigualdade na França. E fraternidade é o que realmente está faltando” — muito bem dito!

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