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RÚSSIA

Igreja Ortodoxa russa estreita laços com o Kremlin

Relação entre a igreja russa e o governo de Vladimir Putin sinaliza que o comportamento de líderes religiosos ainda é bastante soviético

Igreja Ortodoxa russa estreita laços com o Kremlin
Enquanto na era soviética a cooperação da igreja era forçada, hoje ela é voluntária (Foto: kremlin.ru)

Todo dia 18 de janeiro, imagens de russos entrando em águas geladas de lagos congelados em meio a temperaturas que vão de -10°C, em Moscou, a -45ºC, na Iacútia, fazem estrangeiros tremerem de frio. Trata-se de um ritual tradicional da Igreja Ortodoxa russa no qual os fiéis entram em buracos em forma de cruz feitos em lagos congelados para celebrar o batismo de Cristo.

Este ano não foi diferente. A transmissão do ritual pela televisão estatal russa foi ostensiva, em grande parte porque o presidente Vladimir Putin participou da celebração. Vestindo um traje típico de camponês, com botas e casaco de pele de carneiro, Putin se benzeu e mergulhou nas gélidas águas do lago Seliger.

Líderes de governos locais seguiram o exemplo do presidente e convocaram seus eleitores a fazerem o mesmo. Tal retórica ilustra uma paradoxal similaridade entre as práticas religiosas modernas e da era soviética. Embora retratos de Lênin em igrejas tenham sido substituídos por quadros de ícones ortodoxos, o comportamento de líderes religiosos ainda é bastante soviético.

A Justiça russa costuma aplicar sentenças criminais a blogueiros por “ofensas à fé”. O governo protege ativistas religiosos e ataca artistas que desafiam a igreja. Em troca, a igreja se tornou uma guardiã da ideologia do governo. O patriarca da Igreja Ortodoxa russa, por exemplo, praticamente fez campanha pela reeleição de Putin.

A maior parte da população é contra os laços entre a igreja e o Estado. Um levantamento feito pelo Levada, um centro de pesquisa independente, apontou que dois terços da população russa não quer que a igreja influencie as decisões do Estado. E embora o número de cristãos ortodoxos na Rússia tenha dobrado para 71% desde 1991, apenas 6% afirmam frequentar a igreja semanalmente, segundo uma pesquisa da Pew Research Centre.

Membros do governo preferem medir o crescente papel da igreja pelo número de paróquias, em vez do número de fiéis. “Em 1998, a Igreja Ortodoxa russa tinha 6 mil paróquias. Hoje, temos 36 mil. Isso significa que todos os anos abrimos mais de mil igrejas”, disse o bispo metropolita Hilarión Alfeyev.

Um fator que diferencia as relações entre igreja e governo da era soviética e atual é que, enquanto na era soviética a cooperação da igreja era, por vezes, forçada, hoje ela é voluntária. O líder mais engajado é o bispo Tikhon Shevkunov, que costuma ser descrito como o confessor de Putin. O coral de seu monastério – que no período soviético foi saqueado e ocupado pela polícia – recentemente se apresentou em um concerto no Kremlin dedicado ao 100º aniversário do Serviço de Segurança do governo. Assim como o órgão estatal, Shevkunov prega teorias da conspiração antiocidentais e presta homenagens a Stalin.

Fontes:
The Economist-Vladimir Putin embraces the Russian church

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