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Imigrantes brasileiros encontram facilidade para ficar no Reino Unido

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Melhorar de vida. Esse é o objetivo da maioria dos brasileiros que deixam o país para viver no Reino Unido. Segundo um relatório produzido pela Universidade Queen Mary, 24,3% dos brasileiros que vivem aqui buscam juntar dinheiro para voltar ao Brasil e 20,6% se instalam em busca de melhores condições de vida.

Esse e o caso de Joana da Silva*, que mora em Londres há quatro anos e trabalha como garçonete. "Sou do interior de Minas Gerais e, lá, trabalhava no comércio. Não tinha muitas chances, por isso resolvi vir para Londres tentar a vida. Hoje já realizei meu sonho de construir uma casa para minha mãe e estou investindo em minha educação. Se tudo der certo, começo a estudar enfermagem ano que vem", conta.

A população brasileira no Reino Unido — estimada em 200 mil pessoas em 2007 — já é a maior entre os latino-americanos. Estatísticas não-oficiais apontam para um número entre 130 e 160 mil somente na capital, Londres. De acordo com o relatório produzido pela Queen Mary, é difícil saber o número exato de brasileiros, uma vez que a maioria não responde ao censo britânico por estar em situação ilegal. Além disso, as autoridades não têm uma forma eficaz de controlar a entrada e a saída de pessoas do Reino Unido.

 

Facilitando a vida dos brasileiros

 

A ineficácia das autoridades britânicas é somente um dos muitos facilitadores para a permanência irregular. A mineira Maria Rodrigues*, que mora em Londres há quatro anos e é professora de dança, explica que ficou no país ilegalmente durante três anos e voltou sem problemas. "Não saí da Inglaterra nos primeiros anos, mas quando a saudade apertou e resolvi voltar para visitar minha família, aproveitei para tirar outro passaporte. Sem carimbos, a imigração inglesa não tem como saber que eu fiquei ilegal no país anteriormente", explica.

O embaixador brasileiro em Londres, Flávio Perri, conta que muitos vão ao consulado pedir novos documentos, pois estão em situação irregular. "Passaporte perdido, rasurado, roubado, que foi para máquina de lavar sem querer. Ouço todos os tipos de desculpa", diz Perri. Quando perguntado sobre a pressão do governo inglês para limitar a emissão de novos passaportes, Perri afirma que controlar a imigração não é uma responsabilidade do consulado. "Estamos aqui para assistir brasileiros não importa em que situação. Se eles precisam de novos documentos, o consulado os emitirá".

Outro fator que estimula a permanência dos brasileiros é a facilidade de conseguir documentos falsos. De acordo com Joana e Maria, existem inúmeras pessoas que fazem o serviço e um documento português falsificado não chega a custar 200 libras. "Foram os próprios brasileiros com quem dividia meu primeiro apartamento que me ajudaram a conseguir a identidade portuguesa", relembra Maria.

Além de documentos falsos, o visto de estudante tem se mostrado uma boa alternativa para quem pretende ficar, uma vez que permite 20 horas de trabalho semanais. De acordo com o relatório da Queen Mary, essa é uma estratégia usada por grande número de brasileiros. Em 2007, 16% já possuíam esse tipo de visto.

Joana da Silva* admite que renovou o visto de estudante duas vezes, mesmo não comparecendo às aulas na escola de inglês. "No primeiro ano trabalhava tanto que só aparecia na escola uma vez por semana para assinar a lista de presença. Já no segundo, comecei a ir às aulas duas vezes por semana, pois precisava aprender inglês. Atualmente estou estudando para entrar na universidade, mas trabalho bem mais de 20 horas por semana", explica.

Assim como Joana, o paulista Mario Alves*, garçom em um café em Kensington, revela que só tirou o visto de estudante para trabalhar e juntar dinheiro. "Já morei em Nova York por alguns anos e não preciso mais aprender a língua. Mesmo assim, me inscrevi em um curso de inglês para negócios só para ter o visto. Trabalho o dia todo no café e estou juntando dinheiro para estudar cinema aqui".

 

Permanência temporária

 

Apesar da grande quantidade de brasileiros, o relatório da Queen Mary revela que a maioria não planeja ficar no Reino Unido para o resto da vida. De acordo com os pesquisadores, 38,3% dos brasileiros permanecem de um a cinco anos — o suficiente para juntar dinheiro, pagar dívidas e melhorar de vida no Brasil — enquanto somente 11,6% pretendem ficar. O caso de Mario Alves reflete o resultado do estudo. "Não pretendo morar aqui para sempre. Só o suficiente para juntar dinheiro e pagar meus estudos. Depois volto para São Paulo".

Maria Rodrigues também não sabe se ficará em Londres. "Quando vim para cá, meu objetivo era mudar de vida. Não sabia se iria ficar para sempre. Hoje sou casada com um brasileiro que tem passaporte italiano. Com tudo regularizado, talvez fique, mas nunca se sabe".

 

Fechando o cerco

 

Apesar da aparente facilidade em ficar, as autoridades britânicas vem fechando o cerco. "Está cada vez mais difícil entrar e permanecer ilegalmente no Reino Unido. O governo vem periodicamente mudando as leis e implementando medidas para combater a imigração irregular", afirma Perri.

Em fevereiro desse ano, a polícia prendeu e deportou funcionários em situação ilegal em dois restaurantes brasileiros. Nos dois casos, os trabalhadores possuíam documentos falsos. Joana da Silva admite que cada vez mais sabe de casos de pessoas deportadas. "Esse mês mesmo um conhecido meu de Ipatinga foi pego e mandado de volta para o Brasil". Apesar disso, ela não tem medo. "Minha chefe declara que eu trabalho somente 20 horas. Assim, o governo britânico nunca vai descobrir a verdade".

Para quem está no Reino Unido ilegalmente e deseja voltar para casa, a deportação não é a única forma. O departamento de imigração britânico vem patrocinando ONGs como a International Organization for Migration (IOM), que ajuda pessoas sem recursos a voltarem para seu país de origem de forma digna. Somente no ano passado, mais de 200 brasileiros se beneficiaram dos serviços da IOM. De acordo com a organização, programas como o deles chegam a custar ao governo 11 vezes menos que o processo de deportação.

 

* nomes trocados para proteger a identidade das fontes

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2 Opiniões

  1. jose ednailton de sousa santos disse:

    eu acho muito bacana que o governo esteja ajudando os brasileiros

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