Início » Internacional » A intensa perseguição aos cristãos no Sudão
REPRESSÃO RELIGIOSA

A intensa perseguição aos cristãos no Sudão

Governo do Sudão promove campanha de repressão ao cristianismo no país, que envolve demolição de igrejas e prisão de líderes religiosos cristãos

A intensa perseguição aos cristãos no Sudão
Governo sudanês ambiciona um país 100% islâmico (Foto: Flickr/Morning Star)

“Se o Sudão do Sul se emancipar, nós mudaremos a Constituição. E quando isso ocorrer não haverá tempo para falar de diversidade ética e cultural. A sharia e o islã serão a principal fonte da Constituição. O islã, a religião oficial; o árabe, o idioma oficial”. A frase foi dita pelo presidente do Sudão, Omar al-Bashir, em 2010, em um comício eleitoral.

Dois anos depois, Bashir reafirmou sua declaração. “Nossa meta é clara: uma Constituição 100% islâmica”. Aos cristãos sudaneses, Bashir alertou que “nada preservaria seus direitos, exceto a sharia islâmica”.

O Sudão do Sul se emancipou do Sudão em 2011, levando consigo a maioria dos cristãos sudaneses. Após a separação, igrejas no Sudão foram queimadas e mais de 20 foram demolidas. Quatro delas foram derrubadas em agosto deste ano. Outras 27 estão na lista para demolição. O governo afirma estar apenas removendo prédios sem licença, mas, aparentemente, apenas as igrejas se encontram nessa situação.

O governo sudanês declarou que não emitirá licenças para a construção de novas igrejas. “Os Cristãos não têm mais direitos aqui”, disse o reverendo Kuwa Shamal, um dos muitos líderes religiosos cristãos que foram presos acusados de espionagem para minar a Constituição.

O tratamento do Sudão aos cristãos sempre foi severo. Conversões forçadas nas décadas de 1980 e 1990 contribuíram para as décadas de guerra civil. Em 1997, o então presidente americano Bill Clinton impôs sanções ao Sudão, entre outros motivos, por proibir a liberdade religiosa. Um acordo de paz assinado entre o Sudão e os rebeldes do sul, em 2005, trouxe alguma paz, mas após a emancipação do sul, o Sudão decidiu que não havia mais espaço para cristãos no país.

No dia 17 deste mês, o vice-secretário de Estado dos EUA, John Sullivan, exortou o Sudão a cessar a campanha de demolição de igrejas. A ONG americana Open Doors listou o Sudão como quinto em matéria de perseguição aos cristãos, atrás apenas do Paquistão, Afeganistão, Somália e Coreia do Norte. Em junho, parlamentares americanos republicanos e democratas fizeram um apelo ao atual presidente Donald Trump para manter as sanções contra o Sudão por pelo menos mais um ano – em especial a que pune o país por perseguir cristãos. O apelo foi em vão: Trump retirou as sanções em uma manobra para retirar o Sudão da zona de influência do Irã, um antigo aliado do país.

Embora o foco internacional seja o governo central do Sudão, a maior parte da repressão é promovida por governos locais. As demolições em Kartum, por exemplo, foram tocadas pelo governo local. Muitos suspeitam que as autoridades estão mais interessadas em tomar terras em áreas de valor do que reprimir minorias.

O governador da cidade, Abdel Rahim Muhammad Hussein, ameaçou expulsar dezenas de milhares de refugiados do Sudão do Sul, sendo grande parte deles cristãos. Hussein alega que os refugiados geram insegurança e transmitem doenças. Tal ameça é preocupante vinda de um homem que, assim como o presidente sudanês Bashir, é acusado pelo Tribunal Penal Internacional de crimes contra a humanidade.

Em contraponto, a população sudanesa é bem mais acolhedora. Ainda há muitas escolas cristãs no Sudão onde a maioria dos alunos é muçulmana. E muitos cristãos que deixaram o país após a secessão retornaram após o início da guerra civil no Sudão do Sul, em 2013. O padre Juma Charles, da Catedral Católica de São Mateus, em Kartum, diz que tantos foram os membros de seu rebanho que retornaram que foi preciso reabrir igrejas fechadas em 2011.

Fontes:
The Economist-Although persecuted, Sudan’s Christian population is growing

Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião deste site

Sua Opinião

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados *