Início » Internacional » Intervenção internacional aumenta tensão no Iêmen
INTERNACIONAL

Intervenção internacional aumenta tensão no Iêmen

A intervenção da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos no Iêmen está causando um caos no país e uma luta pela ocupação de territórios

Intervenção internacional aumenta tensão no Iêmen
Segundo autoridades internacionais, a ocupação no Iêmen é para combater os houthis (Foto: Wikimedia)

Barcos pintados com cores vibrantes balançam nas ondas do mar da Arábia. Os pescadores pescaram peixe-espada, atum e arraias. Os camelos que atravessam a rua são alimentados com as sardinhas que secam ao sol. A vida era simples e calma no porto de Ghayda, a capital da província de Mahra, na região leste do Iêmen.

A chegada dos soldados da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos (EAU) perturbou a paz local. A pedido do presidente do Iêmen, Abd Rabbo Mansour Al-Hadi, as tropas sauditas e dos Emirados irão combater os rebeldes houthis, que o derrubaram em 2015. Os houthis controlam cerca de um quinto do território iemenita. As forças sauditas e dos Emirados ocupam grande parte das demais regiões do país.

As autoridades da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos justificam a ocupação do Iêmen como uma estratégia de combate aos houthis. Mas as posições dos soldados sauditas equivalem à antiga rota do comércio de incenso que atravessava o país do oceano Índico até a península Arábica. Enquanto isso, as tropas dos EAU ocupam os portos ao longo de algumas das rotas de transporte mais movimentadas do mundo.

Os sauditas instalados no aeroporto de Ghayda desde novembro conquistaram o apoio dos xeques tribais no leste e no sul, com a distribuição de armas, carros e passaportes. Eles querem bloquear os carregamentos de armas do Irã no porto. Em Seiyun, a oeste, os sauditas treinam combatentes leais a Hadi. A Arábia Saudita também trabalha em estreita colaboração com Ali Mohsen, vice-presidente do Iêmen, e seus aliados no movimento islâmico Islah, para reconstruir o exército do país, destruído pelos houthis ao ocuparem a capital, Sana, em 2014.

No início do ano passado, o movimento Crescente Vermelho dos Emirados Árabes Unidos iniciou uma missão humanitária em Ghayda, mas em agosto o exército dos EAU o substituiu. Os EAU capturaram uma série de portos no sul do país, como Mukalla, Áden e Mokha. Os Emirados controlam a única fábrica de liquefação de gás do Iêmen, em Balhaf, e um terminal de exportação de petróleo, em al-Shihr. A ilha estratégica de Socotra está sendo ocupada pelas tropas dos EAU. Os Emirados também controlam dois campos militares na distante região de Hadramawt, onde suas tropas treinaram cerca de 25 mil combatentes locais.

Muitos iemenitas gostam da presença de soldados da Arábia Saudita e dos EAU. “Esqueçam essas noções obsoletas de soberania”, disse Abdelhadi Tamimi, um membro do governo de Hadramawt. “Todos podem lucrar com o comércio.” Os Emirados Árabes Unidos estão financiando a construção de hospitais e de uma usina de energia elétrica na região. Para as autoridades de Seiyun a nova força de combate ao terrorismo, treinada pelos sauditas, é uma proteção contra a Al Qaeda. Os moradores também dizem que os soldados treinados pelos Emirados são mais disciplinados do que os iemenitas.

Mas outros temem uma perda de controle. Os sauditas e os EAU administram suas prisões e não mantêm as autoridades locais a par dos acontecimentos. Muitos habitantes na região falam a língua mahri, uma antiga língua semítica, e receiam a imposição do árabe em seu cotidiano. O confisco de passaportes causa preocupação. Socotra tem 60 mil habitantes e Mahra cerca de 160 mil. Em teoria, podem ser anexados.

Nesse ínterim, a tensão está aumentando entre a Arábia Saudita e os Emirados. Enquanto os sauditas defendem o antigo exército do norte ao lado de Mohsen, os Emirados Árabes Unidos treinam combatentes do sul, muitos dos quais querem restabelecer o Iêmen do Sul, que se fundiu com o norte mais populoso em 1990. Os separatistas apoiados pelos EAU assumiram o controle do porto de Áden no mês passado.

As novas milícias apoiadas pelos dois países do Golfo estão acelerando o processo de fragmentação do Iêmen. Os líderes tribais exploram o caos criado pela intervenção da Arábia Saudita e dos Emirados. Um conselho liderado por Abdullah al-Afrar, que se autointitula sultão de Mahra e de Socotra, prometeu resistir à “ocupação” do território iemenita. “É possível que a divisão do Iêmen seja irreversível”, disse Afrar.

Fontes:
The Economist - Saudi Arabia and the UAE are gobbling up Yemen

Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião deste site

Sua Opinião

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados *