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PROTESTOS NO IRÃ

Iranianos exigem um governo menos opressivo

A Guarda Revolucionária anunciou o fim dos protestos contra o governo que se espalharam pelo país, mas a insatisfação popular é crescente

Iranianos exigem um governo menos opressivo
Os protestos espalharam-se por mais de 70 cidades e vilarejos (Foto: EPA)

Em geral, os grandes acontecimentos começam com incidentes insignificantes. No caso dos protestos em diversas cidades e vilarejos no Irã, o descontentamento foi causado pelo aumento acentuado no preço dos ovos. Em 28 de dezembro, centenas de pessoas percorreram as ruas de Mashhad, a segunda maior cidade do Irã, exigindo a renúncia do presidente Hassan Rouhani por não ter solucionado a crise econômica do país.

Os protestos espalharam-se por mais de 70 cidades e vilarejos, atraindo uma grande quantidade de manifestantes, sobretudo jovens. Mais de 20 pessoas morreram e centenas foram presas. As autoridades bloquearam os aplicativos de mensagens e os sites de redes sociais. Agora, os manifestantes estão exigindo não só a renúncia de Rouhani, como também o afastamento dos líderes clericais, que detêm o poder. Os iranianos protestam contra o aumento do custo de vida, a corrupção endêmica e a repressão política e social.

Esse movimento é um sinal de mudança no Irã? É impossível prever. Mas os protestos direcionaram-se a questões vitais do regime iraniano. A primeira refere-se à política externa. Nos últimos anos, a Guarda Revolucionária iraniana gastou bilhões de dólares com o apoio a grupos armados na Faixa de Gaza, no Líbano, Iêmen e Síria. Com o vácuo de poder criado pela política de não intervenção dos Estados Unidos, o Irã expandiu sua influência no Oriente Médio e é uma fonte de atrito constante com sua grande rival sunita, a Arábia Saudita.

A proposta orçamentária divulgada no mês passado prevê o aumento do financiamento para a Guarda Revolucionária e o corte de subsídios para as camadas mais pobres da sociedade. Os manifestantes gritaram nas ruas: “Saiam da Síria, lembrem-se do povo iraniano!”

O segundo foco de descontentamento é a atuação do grupo reformista liderado por Rouhani, que frustrou as expectativas de uma abertura política no país. Quando o governo assinou o acordo nuclear em 2015, em troca da suspensão parcial das sanções econômicas impostas pelos EUA e outros países, os assessores de Barack Obama previram o fortalecimento do poder dos reformadores iranianos. A suspensão das sanções ajudou a economia iraniana a crescer, mas não o suficiente para atrair investimentos externos. Além disso, a condução da política econômica foi desastrosa. Segundo uma estimativa, a renda dos iranianos caiu em média 15% na última década.

As manifestações criaram uma situação de impasse para Rouhani. Por um lado, ele não tem força para enfrentar a Guarda Revolucionária ou derrotar seus poderosos inimigos conservadores. Por outro, com o fracasso da política econômica, Rouhani perdeu a confiança da classe trabalhadora, que lhe deu um apoio crucial nas eleições do ano passado.

Ao contrário do Movimento Verde, que contestou o resultado da eleição presidencial em 2009 com enormes manifestações em Teerã, os protestos atuais começaram em províncias rurais mais conservadoras. E embora tenham reunido menos manifestantes do que em 2009, eles foram mais intensos. “Morte ao aiatolá Ali Khamenei”, gritaram alguns manifestantes arriscando a vida por desrespeitar o líder supremo.

Ainda assim, o governo tem meios de exercer sua autoridade. A brutal repressão da Guarda Revolucionária, as prisões em massa e a tortura pela polícia secreta esmagaram o Movimento Verde. Porém, a revolta popular atual mostrou ao governo que o uso da força não irá reprimir a raiva dos iranianos por muito tempo. Donald Trump, apesar da pouca sensibilidade em relação aos direitos humanos, teve razão ao dizer que o regime do Irã era “brutal e corrupto” e que o país precisava de uma mudança. Algum dia, os iranianos terão o governo que merecem.

 

 

 

Fontes:
The Economist-Iranians demand—and deserve—a less oppressive regime

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