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INDONÉSIA

Jacarta está afundando mais rápido que qualquer cidade

Superpopulação e bombeamento irregular da água do solo contribuem para o afundamento da capital em um ritmo alarmante

Jacarta está afundando mais rápido que qualquer cidade
Partes de Jacarta já afundaram mais de quatro metros em quase 50 anos (Foto: LH DKI Jakarta Service/Twitter)

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Ano após ano, centímetro por centímetro, Jacarta, a capital da Indonésia, está afundando. As árvores e o parque onde brincam as crianças desapareceram, casas com seus próprios quintais foram consumidas. Até mesmo o cemitério da aldeia, onde seus ancestrais e milhares de outros estão enterrados, desapareceu. No lugar de tudo, está a água estagnada e turva.

Rudi Suwandi primeiro lembra que a água apareceu em meados dos anos 1990, quando a vila começou a inundar em todas as estações chuvosas. Com o passar dos anos, a profundidade da inundação aumentou, bem como o tempo de escoamento da água. Em 1995, a água chegou a 20 centímetros de profundidade e levou de três a quatro meses para secar. No início dos anos 2000, sua aldeia, Kapuk Teko, ficou permanentemente inundada.

Agora, áreas inteiras estão submersas a dois metros debaixo d’água. Todas as casas estão empoleiradas sobre palafitas acima do lago, ligadas por galerias e caminhos de concreto. O único caminho para a aldeia de Rudi é através de uma ponte baixa e estreita de concreto.

“Os lugares onde nascemos, brincamos e crescemos, todos se foram.
Todos aqui sentem-se profundamente tristes com o que aconteceu com a nossa aldeia, o bairro com árvores e terra para brincar desapareceu”, disse Rudi.

Durante anos, o solo sob sua aldeia foi afundando. Está acontecendo em toda Jacarta. Estradas estão empenando, paredes foram engolidas e prédios inteiros foram abandonados. A cidade, que fica no Mar de Java e serve como ponto de saída para um punhado de grandes rios, está mais propensa a inundações do que nunca.

Pesquisadores do Instituto Bandung de Tecnologia da Indonésia (ITB) têm estado na vanguarda do rastreamento do fenômeno, conhecido como subsidência da terra, por mais de duas décadas. Usando uma mistura de tecnologia de radar de satélite e medições no solo, eles conseguiram mapear o ritmo no qual a cidade está afundando.

Desde a década de 1970, partes de Jacarta afundaram mais de quatro metros, a uma taxa de até 25 centímetros por ano. Isso significa que essas áreas estão afundando mais rápido do que qualquer outra cidade no mundo.

O afundamento da cidade combinado com a elevação do nível do mar, induzida pela mudança climática, cria uma tempestade perfeita de desastres naturais. “Se modelarmos isso e projetarmos adiante, cerca de 95% da superfície do norte de Jacarta em 2050 estarão sob o mar. Isso significa que, se não a protegermos com um paredão ou outros meios, Jacarta será inundada pela água do mar muito em breve”, disse Heri Andreas, especialista em assentamento de terras na ITB.

Sem grandes intervenções para evitar o afundamento, a equipe de pesquisa de Andreas prevê que mais de um quarto da cidade pode ser inundada pelo mar até 2025. O norte da cidade, uma área que abriga mais de 2 milhões de pessoas, é especialmente vulnerável.

A densidade populacional ajuda a explicar porque isto está acontecendo. Estima-se que a área urbana da Grande Jacarta abrigue mais de 34 milhões de pessoas em uma área de dois terços do tamanho da área urbana de Sydney, na Austrália.

Naquela área de Jacarta, mais de 10 mil pessoas vivem em cada quilômetro quadrado. Em comparação, Sydney tem cerca de 2.000 pessoas por quilômetro quadrado. Os dados pintam uma imagem impressionante da alta densidade demográfica em grandes partes de Jacarta. Como resultado, a cidade está cedendo sob a pressão.

O trânsito de Jacarta deixa a capital constantemente entre as cidades mais congestionadas do mundo. Esse congestionamento contribui para a baixa qualidade do ar da cidade. Além disso, apenas uma pequena parte das águas residuais da cidade é tratada. A maior parte é despejada nas vastas redes de rios e canais da cidade.

Desde a década de 1970, o alcance urbano da cidade expandiu velozmente e, na maior parte, a infraestrutura não correspondeu à velocidade do crescimento. Grandes partes da cidade não têm acesso ou não podem pagar por água encanada. Em vez disso, os canteiros de obras, os centros comerciais, os apartamentos e os residentes estão a extrair enormes quantidades de água, muitas vezes ilegalmente, dos aquíferos abaixo de Jacarta. Todos os anos, a cidade bombeia cerca de 630 milhões de metros cúbicos de água do solo. Esta é a principal razão pela qual a cidade está afundando.

“A fórmula é simples: se pudermos parar de usar as águas subterrâneas, a subsidência vai parar. A questão é, podemos parar de usar a água subterrânea?”, questionou o professor Andreas.

Outras grandes cidades já fizeram isso antes. Tóquio, uma cidade de 38 milhões de habitantes, afundou mais de dois metros no século XX, antes que medidas fossem tomadas para restringir a extração em massa de águas subterrâneas. O abastecimento de água da cidade também foi largamente transferido para as águas superficiais. As mudanças impediram que a capital japonesa afundasse no solo.

Mas especialistas acreditam que não está sendo feito o suficiente em Jacarta para impedir a subsidência. O presidente da Indonésia, Joko Widodo, supervisionou investimentos pesados em infraestrutura e sinalizou, no início deste ano, que melhorar a rede de abastecimento de água de Jacarta seria parte de um investimento de US$ 40 bilhões na cidade na próxima década.

O governador da cidade também endureceu as políticas para reprimir o uso ilegal das águas subterrâneas. Mas não está claro o impacto que isso terá na subsidência, devido à falta de métodos confiáveis para monitorar os níveis de águas subterrâneas profundas.

A construção do “Grande Muro do Mar de Garuda” começou depois que inundações devastadoras em 2013 aguçaram o foco dos formuladores de políticas públicas sobre a redução de danos que o muro poderia gerar. O plano era construir um elaborado distrito de US$ 40 bilhões na água, na forma de uma garuda, uma criatura mitológica semelhante a uma ave, para agir como um amortecedor do mar de Java.

Mas após alertas de que a estrutura criaria uma gigantesca baía tóxica preenchida pelos rios altamente poluídos de Jacarta e um escândalo de corrupção ligado a algumas das ilhas do projeto, ele foi descartado. Continua o trabalho de fortalecimento das muralhas no norte de Jacarta, bem como de um projeto de muro oceânico bem menos ambicioso.

E, claro, houve o anúncio de que a Indonésia estaria procurando um novo lar para a capital, longe da ilha de Java, para aliviar alguns dos problemas da população da região. É um plano que foi levantado antes e nunca chegou a ser concretizado. Mas se isso acontecer, desta vez, levará pelo menos 10 anos.

Apesar dos contratempos e dos prazos, os especialistas esperam que os responsáveis vejam a necessidade de mudar, porque a cidade está ficando sem tempo. “Somos capazes de fazer isso. Nós temos a tecnologia. Só precisamos da vontade das partes interessadas porque o primeiro passo é o mais difícil”, disse Heri Andreas. 

Fontes:
ABC-Sinking towards disaster

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