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Como vítima ou agressor

Japão tem dificuldades para enfrentar o passado

Ainda hoje, por mais estranho que pareça, as datas dos bombardeios passam quase despercebidas

Japão tem dificuldades para enfrentar o passado
Muitas pessoas que dormiam em Tóquio não ouviram o barulho dos bombardeiros americanos B-29 (Fonte: Reprodução/Getty Images)

Muitas pessoas que dormiam em Tóquio não ouviram o barulho dos bombardeiros americanos B-29. Quando seu pai o acordou, o bairro na “cidade baixa” de Tóquio onde Katsumoto Saotome morava estava em chamas. Não se podia fugir pelos canais, porque a parafina gelatinosa das bombas incendiara a água. Se alguém tocasse na água, disse Saotome, a carne começava a queimar “até o osso”.

Katsumoto Saotome, agora com 83 anos, vai comemorar a data do bombardeio de Tóquio em 1945. Em uma única noite de 9 a 10 de março, cerca de 100 mil pessoas morreram. Com muitos homens lutando nos campos de batalha de uma guerra que teria um final desastroso, a maioria das vítimas foi de mulheres, crianças e pessoas idosas.

O número de mortos nessa noite foi um pouco menor do que o das vítimas da bomba atômica em Hiroshima em 6 de agosto de 1945, mas bem maior dos que as perdas em Nagasaki atingida por uma bomba atômica três dias depois. Os bombardeios não se limitaram à capital. De novembro de 1944 a agosto de 1945, quase 70 cidades foram reduzidas a ruínas e cerca de 300 mil pessoas, na maioria civis, morreram na ofensiva mais devastadora do que qualquer outra na Europa.

O bombardeio britânico em Dresden um mês antes de Tóquio agitara a opinião pública na Europa, mas o massacre de japoneses civis em uma escala sem precedentes causou pouca comoção entre os Aliados. Ainda hoje, por mais estranho que pareça, as datas dos bombardeios passam quase despercebidas. O aniversário de 70 anos do bombardeio de Dresden foi comemorado na Europa inteira em fevereiro. Em Tóquio, no entanto, não existe nem mesmo um museu público para comemorar o incêndio que destruiu a cidade, e só um pequeno número de pessoas irá celebrar a data junto com Katsumoto Saotome.

Fontes:
The Economist - Japan and the past: Undigested history

3 Opiniões

  1. André Luiz D. Queiroz disse:

    Regina Caldas,
    O termo ‘comemorar’ é que está mal empregado, dada sua conotação atual na língua portuguesa, como falada no Brasil — mas, se pesquisarmos nos dicionários, encontramos que ‘comemorar’ significa “trazer à memória, fazer recordar, lembrar”; ou “solenizar a recordação de”; e, por último, “(Por extensão) festejar, celebrar” (https://pt.wiktionary.org/wiki/comemorar).
    Em toda guerra, quem mais sofre é quem menos decide sobre ir ou não às batalhas: o povo, de ambos os lados. O povo japonês sofreu muito na guerra, assim como sofreram também os americanos (não é difícil imaginar a angústia das famílias dos militares enviados ao ‘teatro de operações’, sempre temerosos de receber uma carta de condolências do Estado Maior das Forças Armadas…) E sofreram também, muitíssimo, os povos dominados pelo Japão, em seu período de expansão imperialista. A ‘megalomania’ a que você se refere foi a doutrina política da época de, por meio ocupação de outros países, garantir o acesso à matérias primas essenciais ao desenvolvimento nacional (minério de ferro, carvão, petróleo…); não foi muito diferente do que fizeram as potências europeias na África e no Oriente Médio, ou mesmo dos EUA na ocupação do Pacífico. Não estou defendendo o Japão; apenas contrapondo que, no jogo de interesses da política internacional, não existem ‘bons’ nem ‘maus’…

    Eu pensei em também responder a um outro comentário a essa matéria, que achei rude e arrogante, quase ofensivo contra o povo japonês, mas é melhor não. Vou me ater ao conselho geral para quem comenta nos blogs em geral: “não alimente os trolls!
    Abraços!

  2. Beraldo Dabés Filho disse:

    O Japão é uma potência anã, que deve desaparecer no longo prazo, passando domínio da China.. Os japoneses se espalharão pelo mundo, se concentrando mais nos EEUU, para homenageá-los pelas únicas duas bombas atômicas utilizadas em guerras. Profecia estranha para um povo estranho.
    Melhor título para a matéria, bem no popular: “Seu passado te condena”.

  3. Regina Caldas disse:

    Comemorar o que? A megalomania de quatro generais japoneses que pretendiam dominar o Pacífico?

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