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Conflitos em Jerusalém

Jerusalém, uma cidade fragmentada

Os conflitos em lugares sagrados em Jerusalém podem provocar uma grave perturbação social e política

De repente, uma batida na porta na madrugada de 4 de novembro. Quando a sra. Abu Rajab abriu a porta viu um grupo de policiais armados. Em seguida, os policiais expulsaram os 18 membros da família Abu Rajab, entre eles um bebê de cinco meses, da casa. Horas depois no mesmo subúrbio de Silwan em Jerusalém, perto da Cidade Antiga, as famílias Abu Subeih e Burqan também foram expulsas de suas casas. As três famílias não têm onde morar e seus pertences foram soterrados pelas demolições na cidade. Aproximadamente, 298 palestinos foram expulsos de suas casas em 2013 e, segundo a ONU, mais de cem ficaram sem moradia em 2014.

Apesar de as demolições não serem uma novidade em Jerusalém, agora estão sendo realizadas em um momento de extrema tensão, com os crescentes conflitos violentos em lugares sagrados da cidade. Em uma manhã depois de uma dessas expulsões, judeus e palestinos enfrentaram-se na Cidade Antiga, com trocas de pedras e cartuchos de pólvora (dos palestinos) e granadas explosivas com gás pimenta (da polícia de Israel) na entrada da mesquita de al-Aqsa. Ao meio-dia um palestino dirigindo um ônibus cheio de judeus, matou um policial e feriu 14 pessoas que estavam perto do tumulto antes de ser morto com um tiro (um ataque quase idêntico acontecera em 22 de outubro). Parentes do motorista disseram que sua violência fora causada pela profanação da mesquita de al-Aqsa. Esses conflitos refletem a dura realidade de Jerusalém: uma cidade de 815 mil habitantes onde se respira ódio e ressentimento.

Até há pouco tempo, a parte oriental de Jerusalém era calma comparada aos dois territórios palestinos ocupados por Israel em 1967: a faixa de Gaza e a Cisjordânia. No entanto, em 2013 diversos acontecimentos criaram um ambiente explosivo. Os conflitos em Gaza acentuaram os antagonismos, em especial, quando um adolescente palestino foi queimado vivo em Jerusalém depois do sequestro e assassinato de três estudantes israelenses na Cisjordânia.

A campanha de ativistas messiânicos e outros radicais judeus para mudar o status quo religioso no Monte do Templo agravou ainda mais a situação. A crise atingiu o clímax em 29 de outubro, quando um ativista importante na luta dos judeus pelo direito de rezar no Monte do Templo, o rabino Yehuda Glick, ficou seriamente ferido por tiros disparados por um suposto assaltante palestino, que mais tarde foi assassinado.

A política do primeiro-ministro Netanyahu enfatiza ainda mais a tensão e os conflitos em Jerusalém. O programa habitacional do governo favorece os judeus, com a aprovação da construção de prédios para expansão de enclaves judaicos. O governo também incentiva a colonização judaica em áreas habitadas por palestinos. Além disso, muitas casas de palestinos construídas a partir de 1967 são tecnicamente ilegais. Cerca de 20 mil casas podem ser demolidas a qualquer momento. E 77% dos palestinos vivem abaixo da linha de pobreza comparada ao nível de 21% das famílias judias. É um cenário sombrio no qual alguns preveem uma nova intifada.

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