Início » Internacional » Jornalistas e ativistas na mira da Monsanto
TÁTICAS DE MONITORAMENTO

Jornalistas e ativistas na mira da Monsanto

Documentos apontam que a empresa criou uma espécie de ‘centro de inteligência’ para monitorar, atacar e desacreditar jornalistas e ativistas

Jornalistas e ativistas na mira da Monsanto
A empresa também investigou o cantor Neil Young por sua campanha anti-agrotóxicos (Foto: Flickr/Karen Eliot)

A Monsanto operou um “centro de fusão de inteligência” para monitorar e desacreditar jornalistas e ativistas, e teve como alvo uma repórter que escreveu um livro crítico sobre a empresa. A revelação veio à tona em documentos acessados pelo Guardian.

A empresa de agricultura e biotecnologia, que dentre outras coisas produz agrotóxicos como o controverso Roundup, também investigou o cantor Neil Young e produziu um relatório interno sobre sua atividade de mídia social e música.

Os registros acessados pelo Guardian mostram que a Monsanto adotou uma estratégia multifacetada para atacar Carey Gillam, uma jornalista da Reuters que investigou o herbicida da empresa e suas ligações com o câncer.

A Monsanto, agora pertencente à empresa farmacêutica alemã Bayer, também monitorou uma organização de pesquisa de alimentos sem fins lucrativos através do seu “centro de fusão de inteligência”, um termo que o FBI e outras agências de segurança usam para operações focadas em vigilância e terrorismo.

Os documentos, que vão de 2015 a 2017, foram divulgados como parte de uma batalha judicial em curso sobre os riscos à saúde do herbicida da empresa. Eles mostram:

A Monsanto planejou uma série de “ações” para atacar um livro de autoria de Gillam antes de seu lançamento, incluindo escrever “pontos de discussão” para “terceiros” criticar o livro e orientar “clientes da indústria e fazendeiros” sobre como publicar críticas negativas.

A Monsanto pagou ao Google para promover os resultados da pesquisa “Monsanto Glifosato Carey Gillam”, que criticou seu trabalho. A equipe de relações públicas da Monsanto também discutiu internamente a pressão feita sobre a Reuters, afirmando que a equipe “continua a pressionar os editores de Gillam com muita força a cada chance que tem”, e que espera que “ela seja transferida”.

Os funcionários do centro de fusão da Monsanto escreveram um longo relatório sobre a campanha anti-Monsanto do cantor Neil Young, monitorando seu impacto nas mídias sociais e, em determinado momento, considerando uma “ação legal”.

Os funcionários da Monsanto estavam repetidamente preocupados com a divulgação de documentos sobre suas relações financeiras com cientistas que poderiam respaldar as acusações de que eles estavam “encobrindo pesquisas que não faziam jus”.

As comunicações internas acrescentam combustível para as alegações em curso de que a Monsanto “agrediu” críticos e cientistas e trabalhou para esconder os perigos do glifosato, o herbicida mais utilizado no mundo. No ano passado, dois júris dos EUA determinaram que a Monsanto era responsável pelo linfoma não-Hodgkin (NHL), um câncer no sangue, e ordenou que a empresa pagasse quantias significativas a pacientes com câncer. A Bayer continuou a afirmar que o glifosato é seguro.

Gillam, autora do livro Whitewash: A história de um herbicida, câncer e corrupção da ciência (2017), disse que os registros foram “apenas mais um exemplo de como a empresa trabalha nos bastidores para tentar manipular o que o público sabe sobre seus produtos e práticas”.

A Monsanto tinha uma planilha “Carey Gillam Book” , com mais de 20 ações dedicadas a se opor ao seu livro antes de sua publicação, incluindo trabalhar para “Engajar Terceiros de Pró-Ciência” nas críticas e parcerias com “especialistas em SEO” (ferramenta que melhora o posicionamento em buscas na internet), para espalhar seus ataques. A estratégia de marketing da empresa envolvia rotular Gillam e outros críticos como “ativistas anti-glifosato” e “organizações capitalistas pró-orgânicas”.

Gillam, que trabalhou na agência de notícias internacional Reuters por 17 anos, disse ao Guardian que uma onda de críticas negativas apareceu na Amazon logo após a publicação oficial do Whitewash, muitos parecendo repetir pontos de discussão quase idênticos.

Leia mais: Monsanto é condenada por herbicida ‘Roundup’

Leia mais: Agricultor francês ganha processo contra Monsanto

Leia mais: Monsanto recebe nova condenação por herbicida à base de glifosato

Fontes:
The Guardian-Revealed: how Monsanto's 'intelligence center' targeted journalists and activists

Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião deste site

Sua Opinião

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados *