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CENSURA

Jornalistas turcos são vetados de cobrir a guerra na Síria

Ambiente de medo e a ameaça de traição cerceiam a liberdade de expressão dos jornalistas turcos na cobertura do conflito

Jornalistas turcos são vetados de cobrir a guerra na Síria
A mídia turca seguiu à risca as recomendações do governo de como cobrir a guerra na Síria (Foto: Wikimedia)

No início da ofensiva contra os curdos em Afrin, na Síria, no mês passado, o primeiro-ministro da Turquia, Binali Yildirim, participou de uma entrevista de imprensa com alguns editores dos principais meios de comunicação do país. De acordo com relatos do encontro, os jornalistas receberam orientações sobre como cobrir a guerra. Eles deveriam “ter em mente os interesses nacionais da Turquia”, disse um dos participantes. As notícias publicadas na mídia internacional teriam de ser tratadas com cautela, porque poderiam ser usadas como uma “propaganda terrorista”. As matérias deveriam destacar o esforço do exército para evitar a morte de civis e que as tropas turcas estavam lutando contra o Estado Islâmico (Isis) e os rebeldes curdos, apesar da ausência de jihadistas do Isis em Afrin.

Com poucas exceções, a mídia turca seguiu à risca as recomendações do governo. Os principais veículos de comunicação competiram para serem os primeiros a divulgar o número de aldeias capturadas e o número dos curdos das Unidades de Proteção do Povo (YPG) mortos pelas tropas turcas. As outras notícias limitaram-se a relatar comentários do governo e comunicados do exército. Quando o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, ameaçou dar uma “bofetada otomana” nos soldados americanos que apoiam os curdos na Síria, 16 jornais publicaram suas palavras nas primeiras páginas no dia seguinte. Segundo um comunicado do governo, o Exército da Turquia tinha “neutralizado” mais de 2 mil combatentes das YPG em Afrin, sem matar um único civil. Ninguém ousou questionar esses números.

Atualmente, a Turquia tem mais de 100 jornalistas presos. Em 16 de fevereiro, um tribunal condenou seis jornalistas à prisão perpétua acusados de envolvimento no golpe de Estado em 2016. No mesmo dia, em uma manobra política para diminuir a tensão com a Alemanha, o governo libertou Deniz Yucel, correspondente de um jornal alemão, preso sem julgamento há mais de um ano.

O clima de medo, o estado de emergência e o nacionalismo fanático resultante do golpe de Estado impossibilita a cobertura objetiva e fiel aos fatos da guerra em Afrin. “A ameaça de traição ao país impede que os jornalistas façam matérias imparciais e verdadeiras”, disse Erol Onderoglu, representante turco da organização Reports Without Borders. A internet não é mais um espaço seguro para os dissidentes. Em fevereiro, mais de 800 pessoas foram presas por protestarem contra a guerra nas redes sociais.

Os jornais que citam dados do Observatório Sírio para os Direitos Humanos (OSDH) relatam as atrocidades cometidas pelas forças do regime sírio em Ghouta e Idlib, mas omitem informações do OSDH referentes ao conflito em Afrin. De acordo com o OSDH, pelo menos 112 civis do lado sírio da fronteira morreram nos combates, além de sete civis turcos assassinados pela milícia curda das YPG. “Todas as notícias sobres vítimas civis são denunciadas como falsas ou como propaganda terrorista”, comentou o jornalista Kadri Gursel. “A censura é total”.

Fontes:
The Economist-No one in Turkey dares report accurately on the war in Syria

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