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Política francesa

Liberté, égalité, fermeté?

O ministro do Interior francês está mostrando que é durão, mas que nem sempre age com bom senso

Liberté, égalité, fermeté?
Ciganos são expulsos de acampamentos nos arredores das cidades francesas (Reprodução/Reuters)

Para a polícia francesa, esse verão foi cheio de acontecimentos. Além do usual surto sazonal de pequenos furtos e do fardo de ter que lidar com o francês ruim de turistas que tiveram suas carteiras batidas, alguns problemas complicados surgiram para captar a atenção da corporação.

A partir do fim de julho, assentamentos ciganos na periferia de várias cidades francesas foram progressivamente removidos em incursões surpresas na madrugada. Cerca de 10 desses acampamentos em ou nos arredores de Lille, Lyon, Marseille, La Coureuve e Paris foram demolidos, e mais de 1.000 ciganos foram despejados. Alguns dos que viviam nesses assentamentos foram repatriados à Romênia; outros foram morar nas ruas.

Enquanto isso, em Amiens, uma pacata cidade no norte da França que sofre com alto desemprego, um surto de violência ocorreu na noite de 13 de agosto. Jovens insurretos feriram 17 policiais e atearam fogo a uma escola de enfermagem. Tratou-se de um fecho bastante sombrio para os 100 primeiros dias de François Hollande como presidente.

No centro das respostas do governo a ambas as questões está Manuel Valls, o ministro do interior, que evocou a necessidade de fermeté (firmeza) no trato de problemas sociais. Para ele, a pobreza dos ciganos deve contar com a simpatia dos franceses, mas o estado não pode tolerar a insalubridade e condições perigosas de seus assentamentos nas periferias das cidades.

Em 2010, a retórica contra os acampamentos ciganos de Nicolas Sarkozy, o ex-presidente francês, provocou uma reação virulenta da esquerda. No entanto, conforme um governo socialista segue o mesmo curso, a reação tem sido menos intensa. Alguns até argumentam que agora tudo está diferente, citando a retórica menos racialmente incendiária de Hollande e Valls e a abolição dascotas de repatriação. As políticas, contudo, são essencialmente as mesmas. E aqueles à esquerda estão surpreendentemente quietos.

O tratamento aos ciganos também anuncia a necessidade para um novo pensamento. A remoção de seus assentamentos e a repatriação de muitos de seus habitantes para a Romênia e Bulgária têm uma qualidade curiosamente circular. Em 2011, cerca de 7.284 romenos e 1.429 búlgaros receberam o aide du retour (em geral um pagamento de US$ 370 por adulto) do governo em troca de concordar em voltar a seu país de origem. O orçamento de US$ 33 milhões pode não ser particularmente alto para os padrões de política pública franceses, mais mesmo assim não faz muito sentido. Se o pior que pode acontecer a um cigano pobre do leste europeu que chega à França é receber um pagamento e uma passagem gratuita de volta para casa, então a viagem inicial de imigração pode se tornar ainda mais atraente. E isso pode explicar por que a população de ciganos da França permaneça relativamente estável, entre 15 mil e 20 mil, apesar das milhares de deportações.

Fontes:
The Economist-Liberté, égalité, fermeté?

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